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As carteiras de luxo criadas por duas irmãs em homenagem aos desenhos do pai

Ana e Sara Mateus cresceram com a fábrica da figura paterna. Decidiram prestar tributo com o atelier António Handmade Story.
As duas irmãs cresceram com as carteiras do pai.

A nossa infância está ligada às memórias afetivas e sensoriais que a marcaram. No caso de Ana e Sara Mateus, duas irmãs na casa dos 40 anos, recordam as idas para a escola, pela manhã, com o cheiro a pele e o barulho do balancé, uma máquina de corte, muito presentes. Ao lado de casa, o pai tinha uma fábrica onde criava carteiras feitas à mão. Três décadas depois, em 2017, fundaram a António Handmade Story como forma de prestar tributo à figura paterna.

Na semana da moda de Paris, tiveram a oportunidade de colaborar com o designer David Catalán, radicado no Porto. Ao apresentar a sua coleção, identificou-se com os acessórios criados e sentiu que os tinha que transportar para a passarela. Assim o fez, levando uma história familiar muito além das fronteiras nacionais. No entanto, as raízes estão bem assentes na Benedita, em Alcobaça.

“Em crianças, o meu pai tinha de arranjar dinheiro para sustentar uma família numerosa e começou o ofício sem ter conhecimentos na área”, explica Ana. Atualmente, enquanto designer, percebe que os recursos rudimentares que tinha ao seu dispor só o tornavam num artista ainda mais impressionante.

António Mateus, que dá nome ao atelier, fazia toda a modelagem, tratou do seu próprio logótipo e desenvolvia as ferramentas usadas para fazer as carteiras. Decidiu explorar a pele como material numa altura em que havia pouca tecnologia nas matérias-primas — e as filhas dão continuidade a este esforço.

Curiosamente, Ana e Sara são as únicas de cinco irmãs que seguiram um caminho mais criativo, na área do design. Enquanto Sara apostou no design gráfico, a cofundadora da marca virou-se para a moda: “Eu saí ao meu pai na criatividade, porque lembro-me de ser pequenina e estar a brincar com bonecas e a fazer-lhes roupa. A minha irmã disse que larguei as bonecas e comecei a fazer isso em mim”.

A produção de artigos de luxo

Terminados os estudos, uniram forças para trabalhar na fábrica do pai, que já acusava sinais de cansaço, sem apressarem o processo de lançar uma marca. Tinha que ter algum valor associado e demoraram vários anos a perceber que o podiam encontrar no segmento das carteiras de pele feitas à mão. Decidiram avançar por modelos robustos, feitas para durar uma vida e passar de mães para filhas.

“É uma responsabilidade muito grande colocar algo no mercado, nem que seja um pacote de açúcar”, reforça. Na curtimenta, não usam amaciadores para as peles, nem químicos, apostando em técnicas vegetais. Quanto ao material, usam pele de vaca: “Não matamos animais para fazer carteiras, aproveitamos desperdício alimentar. Há uma enorme indústria em que, se a pele não for aproveitada para o vestuário, vai para um aterro sanitário”

Atualmente, numa fábrica com 40 anos, trabalham juntamente com nove artesãs locais para criar artigos de desejo inspirados em designs vintage que o patriarca criava. Trata-se e um design dos anos 80, como “as malas que se usavam às costas para ir para a escola na época” e que lembram a infância de muitas mulheres.

Apesar do design minimalista e clean, que ficam bem em qualquer oufit, cada produto é feito de forma aprimorada e com o tempo necessário. Assim, garantem que as costuras não vão quebrar: “As pessoas estranham quando veem à nossa empresa, porque trabalhamos muito devagar”, esclarece Ana, que nunca esquece os dois pilares do seu trabalho. As pessoas e o mundo.

As peças que vendem dividem-se emm duas linhas, uma mais intemporal, com apenas quatro cores sólidas — bordô, castanho, bege e preto — e uma linha mais exclusiva e especial. Nesta,usam a pele na cor natural – que chamam de tela – e aplicam salpicos de tinta água. São produtos únicos e irrepetíveis, pintados por Ana.

Todas as carteiras apresentam o nome de um elemento da família, prestando homenagem não só a António, mas à importância dos laços de sangue de forma mais abrangente. Existe a Joana, a Ana e até o Isaac, sendo que cada peça representa uma parte da identidade da pessoa.

Se quer conhecer cada um destes acessórios, pode visitar o site da António Handmade, com os preços variam entre os 100 e os 440 euros. Também pode saber mais no Instagram. Carregue na galeria para ver os modelos.

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