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Chegou o Kultura, o salão queer dos hairstylists mais alternativos de Lisboa

Entre cores, padrões e texturas, Tyra e Dolly abriram “um refúgio” para a comunidade. As transformações são quase sempre dramáticas.

O trabalho de um hairstylist pode ser descrito como “uma operação de alto risco”. Ainda mais quando se trata do Kultura, onde não se espera menos do que uma transformação dramática e geralmente ousada. Quem entra, sem medos, pode sair tanto com um cabelo arco-íris, como com mullet que desafia a gravidade.

Aberto desde o início de maio, em Lisboa, pelas mãos de Tyra Lopez e Dolly — dois dos hairstylists mais alternativos da capital —, este estúdio privado surge como um franchising do espaço homónimo que existe no Porto com a mesma dose de criatividade. 

“Quando conheci o Pedro [Branquinho], um dos donos, percebi que o conceito se alinhava completamente com o que eu pretendia: um espaço seguro para pessoas queer ou mais alternativas”, conta à NiT o brasileiro de 32 anos, que há algum tempo idealizava este tipo de refúgio para a comunidade.

Foi nesse momento que se lembrou de Inês, 30 anos, mais conhecida como Dolly, com quem partilhava a intenção de abrir um espaço próprio, do zero. “Quando cheguei a Lisboa, fiquei obcecado com o trabalho dela. Virou uma referência e, com o passar do tempo, virámos amigos. Temos uma visão muito parecida”, continua.

Apesar das especialidades, o portefólio dos dois artistas é bastante variado e surpreende quem se cruza com os seus conteúdos. Ora vemos uma junção entre mullet e pixie cut em tons de verde, ora surge um shaggy com franja e pintado de azul. Pelo meio, aparece um padrão com riscas cor-de-rosa sob uma base loira ao estilo Barbie.

Os dois sócios.

Aliás, foram estas transformações que valeram a Tyra milhões de visualizações no TikTok, onde ficou viral. Uma das publicações, na qual compara aquilo que os clientes pediram e o resultado, já ultrapassa os 3 milhões de visualizações de pessoas impressionadas com o seu estilo.

Um cruzamento inesperado

Natural do Rio Grande do Sul, no Brasil, Tyra chegou a Portugal no início de 2024, a convite de um casal de amigos portugueses que conheceu do outro lado do Atlântico. “Comentei sobre a minha vontade de viver algo novo e dar um upgrade no meu trabalho. Eles disseram logo que me ia dar bem em Lisboa”, recorda à NiT. 

Nesse ano, veio com mais de uma década de experiência à frente de um salão onde começou como auxiliar de cabeleireira. Nove meses depois, com a saída da gerente, foram-lhe dadas duas opções: assumir a responsabilidade do espaço ou ficar sem trabalho. Não hesitou. 

Embora na altura já se sentisse atraído por cabelos mais alternativos, sentia que não havia público para isso. “Na época, era emo [abreviação para “emotional hardcore”, uma estética caracterizada por cabelos compridos, maquilhagens pesadas e roupa ao estilo do grunge] e seguia um estilo que está em alta agora, mas repaginado, como os shags coloridos”, explica. “Comecei a fazer cabelos mais tradicionais e, aos poucos, a construir essa identidade.” 

@tyralopzz

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♬ sonido original – La Fofita del yutu

Só quando chegou a Portugal é que começou a encontrar este nicho. Até então, a lista de trabalhos mais arriscados resumia-se a alguns amigos que serviam de cobaias para estas experiências excêntricas. “Uma amiga deixava-me fazer tudo, tirava fotografias e publicava. Muitas vezes ficava horrível, mas tudo isso serviu para aprender.” 

Por cá, cruzou-se com Dolly, há cerca de uma década a “rockar cabelos na capital”. Também ela começou como assistente “em salões da velha guarda”, na linha de Sintra, onde logo se afirmou com a tesoura na mão para fazer os primeiros mullets, que foi esculpindo de forma intuitiva.

Desde então, passou por vários salões como o Fiero, onde trabalhou com Tyra. “Um amigo fez a ponte entre os dois. Temos um estilo semelhante”, diz. “Ela é extremamente polida no seu trabalho. É impecável com cores, como os loiros e platinados.”

Um refúgio brutalista

O novo Kultura tem cerca de 37 metros quadrados, com apenas três cadeiras. Apesar de ser pequeno, os dois fundadores aproveitaram a dimensão para criar um espaço “mais acolhedor e intimista”, onde atendem clientes apenas sob marcação e sem grandes distrações, criando uma experiência exclusiva.

Tal como já acontecia, a maioria das pessoas chega com mente aberta e disposta a saber mais sobre a “visão” dos criativos. “A parte mais importante do meu atendimento é a consulta onde conheço quem está à minha frente. Não me importo com o tempo que ficamos ali a conversar antes de decidir o corte.” 

“Como uma grande percentagem do meu público são pessoas queer e alternativas, o corte é também uma expressão daquilo que são”, defende. “Criam uma grande conexão comigo porque gosto de conversar, vamos rindo e trocando ideias. Há um contacto além de cliente, tornam-se amigos.”

Além disso, destaca a importância de conhecer todas as necessidades das pessoas, como a textura capilar ou o contexto e trabalho, para conseguir adaptar o resultado à rotina de cada uma. 

No caso de Tyra, numa semana, recebe na sua cadeira pessoas com idades que vão dos seis anos, por exemplo, até mulheres entre os 50 e os 70 anos. “É incrível porque todas gostam de ter um estilo tão próprio e isso deixa-me feliz. Apesar de ser um nicho, consigo chegar a pessoas tão diferentes.”

A evolução deve-se também às musas que tem no seu portfólio, entre elas as influenciadoras digitais Lara Batista e Aliete Mariana, com os seus reconhecíveis fios rosa e azuis, respetivamente.

“Foi a partir do momento em que toquei no cabelo delas, com dois shaggy incríveis, que as coisas se começaram a desenrolar. Comecei a receber um pouco da atenção desse público alternativo daqui.”

Quanto ao interior do salão, tentaram seguir a decoração e a energia do espaço no Porto, que sempre os fascinou. “É um estilo mais brutalista, todo trabalhado com cimento mais à vista, mas também industrial, com metal e preto”.

No entanto, também há muitas plantas à mistura para trazer “uma atmosfera mais clean”, precisamente para contrastar com o trabalho maximalista que ambos desenvolvem naquele pequeno canto.

Por enquanto, a cadeira extra serve para receber convidados. Em junho, vão receber um hairstylist famoso no Brasil, conhecido como Cortes Bravos. Até ao final do ano, podem acrescentar mais um artista residente à equipa fixa, revelam à NiT.

“Temos intenção de criar arte, de fazer coisas bonitas e desenvolver algo para a nossa comunidade”, concluem os fundadores, ambos assumidamente queer. “Parte do nosso objetivo já está cumprido, que era ter um espaço que fosse seguro e confortável para pessoas mais alternativas.”

Aproveite e leia o artigo da NiT com a história completa de Tyra.

As marcações no Kultura Lisboa podem ser feitas online. Os preços variam entre 50€ e 60€, consoante o tamanho do cabelo.

Carregue na galeria para ver algumas das transformações mais incríveis dos clientes neste salão lisboeta.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. da Rosa 14
    1200-086 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Sob marcação

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