Lojas e marcas

Água na Boca: a marca que nasceu na pandemia para recuperar o crochet (e não só)

Maria Lopes tem 26 anos e é a criadora deste projeto que é um dos candidatos à vitória do concurso New Talent.
Maria, criadora da marca, do lado esquerdo.

Designer de moda. Era isto que Maria Lopes respondia em miúda quando lhe perguntavam que profissão queria ter quando crescesse. “Mas acho que só soube bem mais tarde ou ainda não descobri. Gosto de fazer tantas coisas”, diz à NiT.

Confessa que é uma mulher determinada, mas não no aspeto de saber exatamente aquilo que quer fazer. No entanto, uma coisa é certa: sempre soube que o seu percurso tinha de estar relacionado com a criatividade e criação. Seguiu artes no ensino secundário e decidiu não ingressar pela faculdade.

O percurso de Maria Lopes, de 26 anos, levou-a até ao Algarve, onde desenvolve uma marca inédita chamada Água na Boca — e não só — que lhe valeu um lugar na lista de finalistas da segunda edição do New Talent, o concurso que elege os melhores jovens talentos do País na área do lifestyle com menos de 27 anos. O vencedor irá receber dez mil euros para desenvolver um projeto pessoal.

O que é que esta jovem empreendedora faria com este valor? Já lá vamos. Maria tinha 12 anos quando saiu de Lisboa para o sul do País. “Tirou-me da minha zona de conforto. Fui obrigada a mudar de ambiente, amigos, tanta coisa, mas foi uma mudança positiva. Mostrou-me que não devemos ter medo de arriscar”, conta.

Com 14 anos, enquanto estudava, começou a trabalhar como relações públicas numa discoteca do Algarve. É precisamente nessa experiência que descobre o gosto em organizar e produzir, tanto que saiu da escola secundária e fez um curso de webdesign e outro de produção de eventos. Depois, começou logo a trabalhar numa empresa de comunicação.

“A teoria é ótima e fundamental, mas eu gosto de prática. Sabia que a faculdade não me ia trazer aquilo que quero e não conseguia imaginar-me a estudar, estudar, estudar. Acho que teriam sido três anos perdidos da minha vida. Felizmente, tive uma família que me apoiou e ajudou a tirar aqueles dois cursos.”

A criação da Anjos70 e a reveladora viagem pela América do Sul

Nos anos seguintes, Maria Lopes passou por vários sítios e até foi uma das responsáveis pela abertura da discoteca Rive Rouge, no Mercado da Ribeira, na zona do Cais do Sodré, em Lisboa, em 2017. Ao mesmo tempo, envolveu-se naquele que agora considera o seu trabalho mais importante: a Anjos70, uma associação cultural no centro de Lisboa. Lá, além de vice-presidente, foi programadora cultural, geriu o projeto e staff, entre outras coisas que exigiam a sua constante criatividade. 

“Sem dúvida que foi um projeto que marcou o meu percurso. Ajudei a levantá-lo e foi como ver um filho a crescer”, recorda. Passados dois anos, em agosto de 2019, decidiu abandonar o projeto — uma decisão que, garante, abriu outra vez os seus horizontes.

Quando começou a pensar em sair, já tinha uma viagem em mente. Mas, antes disso, ainda criou uma exposição fotográfica juntamente com o namorado, Mário César, de 30 anos. Chamava-se “Na Pele Dela” e mostrava 16 figuras públicas, todos homens, em cenários tipicamente associados às mulheres — sejam tarefas domésticas, a depilação ou a manicure, entre outros exemplos. O objetivo era promover o debate sobre a igualdade de género.

Após mais um inédito projeto para a lista, Maria conseguiu, finalmente, avançar com a sua viagem. “Acho que acumulei imensa coisa de todos estes projetos e a certa altura precisava de ir para o outro lado do mundo, conhecer novas culturas, espairecer, e não ter timings”, recorda. Mas a produtora de 26 anos não imaginava que esta viagem iria mudar completamente a sua vida.

Há quatro anos esteve sozinha no Peru e identificou-se tanto com a cultura da América do Sul que quis voltar, desta vez com a companhia do namorado. A viagem durou nove meses, “mas não pensem que é porque somos milionários”, brinca.

Maria e Mário partiram a 19 de setembro de 2019 sem bilhete de regresso e trabalhavam em troca de comida e dormida. “Fizemos voluntariado, trabalhámos no campo, tomámos conta de crianças e até fizemos de fotógrafos”, continua. O objetivo era terminarem o roteiro nos Estados Unidos. Não foi bem assim, mas passaram pelo Chile, Bolívia, Argentina e Brasil.

Já tinham passado sete meses quando chegaram àquele último país. Foram obrigados a lá permanecer mais dois por causa da pandemia de Covid-19.

O assustador regresso a Portugal e o nascimento de uma marca na pandemia

“Fizemos quarentena no Brasil. Tivemos a sorte de estarmos por perto de uma casa de férias de uma família de uma amiga nossa portuguesa, perto de Fortaleza. Ficámos lá entre março e junho. Para regressar foi assustador”, recorda à NiT Maria Lopes.

Não ficaram chateados, nem tristes por terem de regressar mais cedo do que o previsto. Mas o casal empreendedor queria um plano. “Houve um dia em que pensámos: ‘Se tivermos de voltar, o que iremos fazer?’ Começámos por pensar em ideias loucas, inclusive fazer pastéis veggie e vender na praia. Ainda enviámos email para as câmaras municipais, mas a burocracia era tanta que desistimos da ideia.”

Seguiu-se a possibilidade de venderem salgados também. No entanto, aqueles meses no Brasil ditaram aquilo que seria o grande projeto de Maria e Mário. 

“Estávamos em Arraial da Ajuda e havia um mercadinho de jovens artesãos. Lembro-me de ver uma rapariga a vender os biquínis mais simples, feitos em crochet. Ainda falei um pouco com ela e depois conversei um pouco com o meu namorado sobre fazermos algumas peças e vendermos na praia.”

Começaram os dois a aprender aquela arte, ainda numa comunidade no Brasil, na qual fizeram voluntariado, e também com a ajuda de alguns tutoriais no YouTube. Mário desistiu por frustração passado algum tempo, mas Maria foi mais resistente, até que começou a perceber que até tinha algum jeito. 

“É viciante, como uma terapia. Se não estou a fazer peças é porque não tenho material e, quando assim o é, estou a procurar ideias.” Sem dar por isso, cumpre o sonho de criança: ser designer. Idealiza as peças e cria-as com as próprias mãos.

O casal, que namora há dois anos, começou por publicar algumas peças protótipo através das redes sociais de Maria. O feedback foi tão impressionante que decidiram avançar, mas foram mais longe. Em vez de criarem uma marca apenas com peças em crochet, iam recuperar e preservar várias técnicas ancestrais, como bordado, carpintaria, olaria e tapeçaria, entre outras.

E mais: tudo seria feito de uma forma sustentável, tanto a nível ambiental como cultural. “Num mundo saturado de produção e poluição, apenas faz sentido para mim usar matérias recicladas e recicláveis. Água na Boca é artesanal, inclusiva e promove a mão de obra local.”

Assim nasceu a Água na Boca, em plena pandemia. O nome é o título de uma música de Rita Lee que o casal adora e que até tem tatuado no braço esquerdo. A primeira coleção da marca foi lançada em julho de 2020 e contou com três partes de cima, que tanto podiam ser usadas na praia como no dia a dia, e alguns acessórios, como brincos.

“Contámos com a ajuda das nossas mães e procurámos uma data de avós, desde Faro a Loulé, passando por Quarteira, para nos ajudarem a produzir as peças. Usámos materiais reciclados e recicláveis, assim como algodão orgânico,entre outros materiais”, conta.

Fizeram algum stock e venderam tudo. Depois, perceberam que faria mais sentido produzir as peças por encomenda, já que é tudo feito à medida. “Demoramos cinco a seis dias a entregar. E o Mário começou também a criar as peças.”

Entretanto, começaram a trabalhar numa nova coleção e pelo meio criaram a Môces — “é assim que se tratam os jovens no Algarve” —, uma associação para jovens da região inseridos em grupos de risco e não só, mas sobretudo isso. Nasceu, oficialmente, a 1 de setembro.

“Há uma ligação enorme entre os dois projetos. A Água na Boca trabalha com técnicas ancestrais e a Môces ensina estas técnicas a estes jovens”, revela Maria. 

Ganhar os dez mil euros do concurso New Talent, confessa, seria uma ajuda enorme. “Até já planeámos um orçamento, ainda que sem expectativas. Iria ser um pouco distribuído pela marca, mas também pela associação. Queremos investir em mais material e em mais ferramentas para desenvolver os programas para estes jovens. Acima de tudo, manter a fidelidade aos bons produtos, à mão de obra local e à formação. Melhorar o pacote completo.”

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