Fica ao lado do Elevador de Santa Justa, mas quando foi inaugurada, esse símbolo histórico da Baixa de Lisboa ainda não existia. Fundada em 1870, a Ourivesaria Sarmento nunca fechou as suas portas no número 251 da Rua Áurea, e continua nas mãos da mesma família há 156 anos. Atualmente, é o tetraneto do primeiro sócio que, ao lado do pai e duas tias, assegura a continuidade de um negócio raro no comércio português.
O negócio familiar sobreviveu a monarquias, repúblicas e crises, mantendo-se sempre nas mãos da mesma família. “Faço parte da sexta geração da ourivesaria Sarmento”, conta à NiT Diogo Sarmento, de 27 anos. Licenciado em Gestão e mestre em Marketing, é o business manager da loja e um dos responsáveis pela renovação daquela que é uma das poucas ourivesarias históricas que resistem na capital.
A história da família começou ainda no século XIX. “O meu tetravô, Wenceslau Anthero Sarmento, tornou-se sócio do fundador. Quando ele morreu, como não tinha descendentes, foi o meu tetravô quem ficou com a loja, que continua até hoje nas mãos da família Sarmento”, explica à NiT.
A localização do espaço é também um testemunho vivo das transformações da cidade. “Estamos mesmo ao lado do Elevador de Santa Justa e quando viemos para cá, em 1870 ainda não havia o elevador”, revela.
Ao longo de mais de um século e meio, o espaço acompanhou a transformação do País e do mundo. “Vivemos a monarquia, passámos pelos reinados de D. Luís I, D Carlos e D Manuel II. Assistimos à implantação da Republica, a duas guerras mundiais, ao 25 de Abril e à entrada no Euro”, conta Diogo Sarmento, sublinhando: “Fazemos parte dos lojistas resistentes da Baixa de Lisboa, somos cada vez menos as lojas históricas na capital. E resistimos porque conseguimos adaptar-nos à passagem do tempo e às mudanças”, garante.
Hoje, o negócio mantém-se familiar. “Somos 4 que cá trabalhamos”. Ao mesmo tempo, a marca aposta na originalidade das peças. “Temos alguns joalheiros a trabalhar connosco e temos joalharia de autor a fabricar exclusivamente para nós”, revela o Business Manager.

Diogo Sarmento, da 6.ª geração (o 1ª da esquerda, em pé).
A oferta é vasta e vai muito além da joalharia tradicional. “As nossas peças vão desde artigos de decoração a joias de autor, exclusivas e feitas à mão. A peça mais cara que temos de momento é um serviço de prata que custa cerca de 12 mil euros. Mas também temos brincos em prata dourada que custam menos de 100 euros, ou seja, a nossa oferta é muito variada”, refere.
Nos últimos tempos, a Ourivesaria Sarmento iniciou um novo capítulo, apostando numa maior proximidade com o público. “Nesta fase do nosso negócio estamos a dar mais importância à comunicação da marca, à loja online e à aproximação aos clientes através das redes sociais”, explica.
A mudança reflete-se também nas coleções. “Lançámos recentemente uma coleção inspirada em tempos antigos e com alguns toques de modernidade. São brincos, anéis, pusleiras e colares em ouro, prata e prata dourada. É uma coleção inspirada em peças da minha bisavó, que redesenhámos”, diz.
Hoje em dia, grande parte da clientela são turistas, muitos deles recomendados por quem já visitou a loja. “Os nossos clientes são estrangeiros e muitos vêm por sugestão de amigos que já nos visitaram. Mas também tivemos e temos entre os nossos clientes figuras de renome”, confessa Diogo Sarmento
Entre os fregueses mais famosos que já passaram pela histórica ourivesaria está uma figura incontornável da política portuguesa. “Um dos nossos clientes mais conhecidos é o antigo Primeiro Ministro António Costa”, revela. Mas a lista não fica por aqui. “O rei emérito de Espanha, Juan Carlos — que foi ao casamento da minha trisavó — era cliente. E também recebemos ao longo da nossa história, a visita de outras personalidades como o rei Carol da Roménia, o rei de Itália Humberto II, Grace Kelly, Gérard Depardieu, a Duquesa de Alba, Jorge Sampaio, entre outros”.
A estratégia de renovação passa ainda por transformar a visita à loja numa experiência cultural. “Como temos de nos reinventar para conseguirmos manter-nos, vamos também, a partir de setembro, começar a promover workshops de joalharia e a organizar visitas guiadas ao nosso salão histórico, com teto pombalino, onde temos um pequeno museu, com peças e factos históricos únicos”, revela Diogo, acrescentando: “Diz a lenda que no nosso salão eram, antigamente, as cavalariças do Convento do Carmo”. Diogo Sarmento diz que as datas exatas e os preços destas iniciativas estão ainda por definir, mas serão anunciados brevemente.
Mais do que uma ourivesaria, a Sarmento é um retrato da própria cidade: um negócio que nasceu há mais de século e meio, atravessou gerações e continua a reinventar-se sem perder a identidade que o tornou único.
Carregue na galeria para ver algumas imagens da loja, ao longo dos tempos.








