Lojas e marcas

Esta portuguesa faz comida incrível em miniatura — e é um sucesso mundial

Ana Cristina Novo apaixonou-se pelas casas de bonecas e hoje vende miniaturas para todo o mundo. "Isto não é para crianças".
É tudo mesmo muito pequenino

Debaixo da árvore de Natal, Ana Cristina Novo encontrou algo que não esperava. Era uma casa de bonecas, um presente insólito para uma mulher com 33 anos. A escolha do marido não foi feita ao acaso. Desde a primeira visita ao já extinto Museu do Brinquedo, em Sintra, que a lisboeta ficou fascinada por este mundo de miniaturas que é tudo menos feito a pensar nas crianças.

Vinte anos mais tarde, é uma das melhores no mundo no que toca a fazer comida em dimensões minúsculas. São bolos, tábuas de queijos, pães e vegetais, de tal forma minuciosos que à vista desarmada passam mesmo por petiscos deliciosos. O hobby tornou-se negócio e hoje, aos 53 anos, não tem dúvidas que o futuro passa por aqui.

Designer de formação e dona da sua própria agência de comunicação, ficou presa ao lado mais económico da profissão e a criatividade perdeu-se. “Talvez isto tenha vindo de uma necessidade de fazer algo criativo nos meus tempos livres”, confessa à NiT a criadora da Tiny Delights.

Aquela primeira casa vazia que recebeu em 2000 alimentou a vontade de saber mais sobre um nicho que em Portugal era praticamente desconhecido. Começou por comprar e montar as suas próprias casas. Mais tarde, como “acontece com quase todos” os que entram nisto, tentou ser ela mesma a fazer os objetos com que decorava os quartos e salas. Nessa altura, a Internet também dava os primeiros passos e não era fácil encontrar informação.

Visitou feiras internacionais, como compradora e mais tarde como vendedora, e afinou o engenho. O trabalho obrigou a uma longa pausa e acabou por colocar o hobby de lado, até que há pouco mais de um ano, voltou a entusiasmar-se. As redes sociais deram o impulso necessário e hoje, a sua comida em miniatura está em centenas de casas de bonecas por todo o mundo.

O mundo desconhecido das casas de bonecas

“Isto é tudo menos uma coisa para crianças. É colecionismo de adulto, até porque muitos dos objetos são tóxicos e perigosos”, alerta. Da experiência pessoal, percebeu que o colecionismo praticamente não existia em Portugal.

Nas feiras nacionais em que participou, a maioria dos visitantes eram meros curiosos. De ano para ano, eram quase sempre os mesmos a passar por lá. Não se fazia negócio. Lá fora, a conversa é outra.

De Paris a Milão, passando por Chicago — onde se realiza o maior evento mundial do género —, há dezenas de feiras onde colecionadores se juntam para vender e comprar miniaturas. “A maior parte das pessoas em Portugal nem sabe que tal coisa existe, como eu própria não sabia há 20 anos”, nota.

Ana Cristina Novo apaixonou-se pelas miniaturas há 20 anos

Foi numa visita a essas feiras que decidiu aventurar-se na criação de miniaturas. Com poucos ou nenhuns tutoriais no YouTube — a plataforma dava ainda os primeiros passos —, comprou um DVD com truques a um vendedor.

Em 2008, abriu uma loja na Etsy, uma plataforma de venda de artigos, na sua maioria feitos à mão. “Era a única portuguesa com loja lá e vendia bem”, recorda. Acabou por se desinteressar e colocar o hobby de lado, pelo menos até ao início de 2019.

Do pequeno ateliê que criou em casa, saem agora dezenas de conjuntos: umas vezes objetos individuais; noutras ocasiões verdadeiras mesas e armários repletos de comidas. Para Portugal, desde o início do ano fez apenas uma venda. As restantes encomendas são colocadas em caixas e enviadas para todo o mundo, normalmente para os Estados Unidos, onde tem a maior base de clientes e seguidores.

“Na Europa, as alemãs são quem compram mais. São as minhas melhores clientes. E digo alemãs porque são quase sempre mulheres. Também vendo a alguns homens, que normalmente são ingleses”, explica. “As portuguesas não compram, não conhecem. Quando o fazem é para a casa de bonecas da neta, não querem gastar muito dinheiro. Não há colecionismo em Portugal. Sérios, há apenas três ou quatro.”

São autênticas obras de arte

A arte de pensar pequeno

Os pães são quase perfeitos. Crosta detalhada, uns vestígios de farinha e um miolo com textura minuciosa, não faltam sequer as pequenas bolhas de ar formadas pela fermentação. Embora tudo seja feito com químicos, o segredo para o pão perfeito está mesmo no fermento — um dos muitos truques que foram sendo descobertos graças a horas de experiências, umas bem-sucedidas, outras redondamente falhadas.

Neste mundo das miniaturas, há quem se aventure a fazer pequenos tapetes de Arraiolos, colchas de renda. Ana apaixonou-se pela comida. “As pessoas adoram ver uma foto de comida em que parece tudo real”, explica.

Para criar os petiscos, usa resina, verniz, pastas tapa-fendas, tudo o que a ajudar a conseguir o resultado final perfeito. Não há muitos guias, é preciso “ter sensibilidade”, garante. As técnicas desenvolvem-se a sós, nas horas passadas no ateliê, e diferem consoante o objetivo final.

É possível comprar objetos isolados ou mesas temáticas

“Demorei algum tempo até acertar. Saía cada coisa mais feia (…) Estraguei imensa coisa, quantidades incorretas, mas é assim. Experimentar e estragar. Depois quando resulta, as quantidades são generosas — fico com kiwis para usar durante para aí três anos (risos)”, diz.

À vontade nos bolos, sente que há um desafio maior nas carnes e nos citrinos. Dar “realidade à gordura é um processo que ainda estou a desenvolver”, bem como encontrar “a transparência certa nos limões e nas laranjas”, que também é uma tarefa complicada.

O próximo passo nesta arte? Ser ela própria a fazer, manualmente, as louças. Para o conseguir, comprou mesmo uma mini roda de cerâmica e uma pequena mufla que vai ao microondas. “Já peguei fogo a algumas peças”, confessa.

Um negócio internacional

Quando o telemóvel toca, Ana ouve uma caixa registadora. A loja na Etsy, que já regista mais de 600 vendas — todas elas avaliadas com cinco estrelas, a pontuação máxima —, avisa-a que caiu mais uma compra. Pegar no aparelho é uma espécie de lotaria: pode ter ganho cinco ou 500 euros. “Acho graça a isto”, explica, antes de confessar que quase acaba “por tirar mais um salário” de todo este hobby.

A maior encomenda que fez rendeu-lhe 950€ de uma só vez. “Já tive mais do que uma vez perto de bater esse valor. Só uma pessoa comprou logo um armário e duas mesas”, recorda. Os preços variam entre os 20€ ou 30€ por objetos isolados aos mais de 200€ por uma mesa recheada de comida.

Ana faz objetos por iniciativa própria que depois coloca à venda na loja, mas também aceita encomendas. Só não lhe peçam para fazer objetos iguais. “Não consigo, não gosto, detesto. Isto para mim é um hobby, é para ter prazer. Não faço coisas em série. No máximo, posso fazer algo parecido, mas não igual”, avisa.

A fidelidade é essencial. Ana tem uma cliente alemã que faz compras regulares há 12 anos. Muitas, acredita, são para revenda, já que estas miniaturas atingem valores de venda bastante superiores ao que pratica nos mercados de colecionismo.

Num ano, passou de 100 seguidores no Instagram para mais de 11 mil. E a paixão renovada abriu também novos horizontes. Habituada a fazer miniaturas à escala 1/12, está tentada a apostar numa escala maior, a 1/6, a que é usada pelos colecionistas de Barbies.

“Estou a começar a fazer algumas coisas por encomenda, é algo que consigo facilmente adaptar a tamanhos maiores”, explica.

Com o negócio em crescimento, o hobby ameaça tornar-se numa coisa mais séria. “É uma tentação”, confessa Ana, que vê nisto um rendimento, um prazer e uma terapia. “O facto de já ter passado os 50 anos, começa a ser algo em que se pensa e, provavelmente, não vai ser a única, mas vai ser uma das minhas principais atividades no futuro.”

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