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Lojas e marcas

Estilo e tradição: histórica chapelaria Lord está de volta a Lisboa

A pressão imobiliária tirou a loja da Baixa, mas o negócio renasceu. Em Alvalade, juntam chapéus num espaço que celebra a marca.

Durante oito décadas, a Chapelaria Lord foi um ponto de paragem obrigatório na Rua Augusta, em Lisboa, entre moradores, artistas e visitantes de todo o mundo. O encerramento deste espaço histórico, em 2022, após à aquisição do edifício, marcava o fim de um ciclo, mas não da sua história.

Após esta pausa de três anos, uma das lojas mais emblemáticas da capital volta abrir portas ao público, desta vez numa nova localização. Desde 20 de outubro que a Chapelaria Lord recebe clientes na Avenida da Igreja, em Alvalade.

“Precisámos de algum tempo de amadurecimento em que estivemos a germinar ideias sobre como fazer renascer a Lord”, explica à NiT, Ana Silva, gerente do espaço. “Estávamos à procura daquilo que sempre a caracterizou, a proximidade. Conseguimos encontrá-la nesta pequena loja de bairro.”

Ainda que o formato tenha sido ligeiramente reinventado, visto que já não têm sapatos, a proprietária destaca o facto de “continuarem vivos e disponíveis”. “Nos primeiros dias, temos sentido o entusiasmo de pessoas de várias idades e que se lembram de visitar a loja anterior com os pais ou os avós. Outros estão a descobri-la pela primeira vez.”

Além da reconhecida coleção de chapéus, como panamás, boinas, bonés ou feltro, esta nova morada apresenta uma seleção exclusiva de acessórios clássicos. Entre suspensórios, bengalas, écharpes, luvas e gravatas, todas as peças refletem a atenção aos detalhes pela qual a marca é conhecida. 

Mantém a vasta oferta.

Com uma história que atravessou regimes, gerações e tendências, o negócio foi fundado em 1941 e manteve-se sempre nas mãos de duas famílias com tradição no segmento da chapelaria e da sapataria. Depois de várias lideranças, hoje em dia, o projeto é gerido por Ana e pelo irmão, Nuno Silva.

O emigrante apaixonado por uma loja

Quando abriu portas originalmente nos anos 40, na altura pelas mãos da família Amorim, a Lord “já era uma loja muito especial”, recorda Ana Silva. “Estávamos em pleno Estado Novo e tornou-se uma referência na Baixa Pombalina pela sua arquitetura. Distinguia-se pelos cobres, pela porta imponente e pelo exterior com ligação ao mar.”

Projetada pelo arquiteto Francisco Keil do Amaral, a loja tornou-se ainda um símbolo do pós-guerra em Lisboa, com o seu caráter art-déco. Do interior em madeira às vitrinas geométricas, manteve-se relevante e foi classificada como Loja com História, pela Câmara Municipal de Lisboa, em 2016.

A ligação da família da Silva começa quando o pai de Ana, na altura um jovem de 25 anos, natural do Funchal, decide sair da Madeira. “Estava prestes a emigrar para a Austrália, mas fez uma paragem em Lisboa. Estava à espera da carta de chamada [documento formal para emigração] e decidiu começar a trabalhar.”

Mário acabou por se cruzar com a então sapataria Lord e “apaixonou-se pela loja”, diz a filha, que se juntou a ele quando tinha apenas 15 anos. Apesar de se ter formado como advogada, nunca quis exercer essa profissão. “Quem lá ia fazer compras era a nata de Lisboa. Como vinha de um meio mais pequeno, aquela envolvência era uma novidade para ele”.

O pai acalentou aquele sonho durante vários anos. Ficou mesmo a trabalhar lá até aos anos 60, altura em que decidiu lançar o próprio negócio. Estreou-se com uma loja em Benfica e seguiram-se vários espaços com o “espírito da Lord”. Mas Mário nunca deixou de estar atento às montras do espaço emblemático onde começara a carreira.

Até que, em 1993, um dos antigos patrões perguntou a Mário se estaria interessado em negociar um grupo de lojas, no qual estava incluído a famosa chapelaria. “Os olhos do meu pai até brilharam”, confessa. A vontade era tanta que acabou mesmo por ficar com todas — uma delas era a Godiva.

“Era um visionário, um homem com grande capacidade de sonhar e de concretizar”, recorda Ana sobre o patriarca, que morreu em 2005. “Incutiu sempre aos filhos esse gosto pelo comércio e pela relação com as pessoas. É isso que nos falta, hoje em dia, quando entramos em alguma loja.”

“Estávamos como peixe fora de água”

Ana já refletia há vários anos sobre esta mudança quando, em 2022, percebeu que a Baixa de Lisboa já não era aquele ambiente em que cresceu. “Fomos invadidos por esplanadas, por pastelarias sem nobreza”, lamenta. “Diariamente, éramos confrontados com venda de droga, artigos de contrafação e pessoas sem abrigo, que dormiam à porta com os cães.”

Numa altura em que se perdiam grandes lojas de referência naquela zona, como a Loja das Meias ou a Casa Africana, substituídas por “um comércio massificado e característico”, juntou-se “uma pressão imobiliária demolidora”, diz. “O prédio foi vendido a um fundo de investimento e, apesar da proteção, era um ambiente adverso. Estávamos como um peixe fora de água.”

Era assim a fachada na Rua Augusta.

A certa altura, a família reuniu-se e concordou que estava na altura de deixar a Rua Augusta. Ana admite que esteve um ano sem conseguir passar naquela artéria. Mas, recentemente, quando visitou a antiga morada, sentiu que tinha tomado a decisão certa. “Tenho quase 70 anos e estou no comércio para fazer algo diferenciador. Não aceito que me tirem essa realidade.”

Nova morada, o mesmo espírito

Quando surgiu a oportunidade de reabrirem a Lord, os gerentes sabiam exatamente o que queriam. O novo espaço foi concebido para preservar a essência da marca, com alguns dos elementos originais do antigo ponto de venda, como peças de mobiliário em madeira ou detalhes de vitrinismo, a serem restaurados e integrados neste novo ambiente.

“Quando a loja fechou, fiz questão de tirar a maioria do equipamento. As montras, os expositores, o balcão. Guardei o cobre dos chapéus, os ganchos, tudo foi preservado com muito carinho para que, no dia em que aparecesse este local, fossemos até ao nosso museu”, diz à NiT.

Foi então que esta arquiteta improvisada, como o filho a apelida carinhosamente, começou a compor as suas ideias. Após um susto inicial com o que encontrou, imaginou logo o seu potencial. “Como vivi tantos anos em lojas, entro em algum lado, sinto-o e começo a imaginar. Rapidamente, a minha cabeça começou a construir algo.”

A nova aparência.

Ana juntou-se a uma carpintaria, de um amigo, e montou exatamente aquilo que queria, tanto no interior como no exterior. “No fim, até me comovi. Fez-se justiça ao trabalho que, durante tantos anos, foi feito pelo meu pai.”

A principal dificuldade foi a parte de fora. “Quisemos dar alguma nobreza aquela fachada para dizer ao arquiteto original que saímos da sua obra, mas mantendo a identidade”, afirma. Ana Silva inspirou-se então no ambiente das chapelarias que visitou nos bairros de Londres onde a oferta de chapéus “é farta e profícua”. 

O que não difere muito da atual exposição da Lord, em Alvalade. Ali mistura-se o novo e o antigo com modelos que acompanham as tendências, mas não esquecem o passado. Há quem pare na montra para apreciar os modelos clássicos, outros clientes procuram opções de festa.

“O que gostava de transmitir é que a Lord não morreu, continua com as pessoas que lutaram por ela nos últimos 40 anos”, conclui a gerente. “Espero passar este testemunho aos meus filhos, como fez o meu pai, e ensinar-lhes que entrarmos numa loja, sem que nos digam ‘bom dia’ é muito triste.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da nova loja Lord em Alvalade.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida da Igreja 8D
    1700-236 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Segunda a sexta-feira das 10h às 19h
  • Sábado das 10h às 14h

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