Lojas e marcas

Ex-unicórnio ficou menos português. José Neves abandona liderança da Farfetch

O comando passa a pertencer ao dono da Coupang, o grupo sul-coreano que comprou a empresa. O negócio vai ser liquidado.
É o fim.

Após vários meses de incerteza e instabilidade, José Neves demitiu-se do cargo de diretor-executivo da Farfetch esta quinta-feira, 15 de fevereiro. O cargo passa a ser assumido por Bom Kim, proprietário da Coupang, o grupo sul-coreano que comprou a plataforma de vendas de luxo em setembro, evitando assim a insolvência da empresa.

A saída do fundador da primeira startup com ADN nacional a transformar-se num unicórnio — ou seja, avaliada em mais de mil milhões de euros — acontece num momento de várias mudanças. A par do empresário português, saíram gestores como Elizabeth Von Der Goltz e Kelly Kowal, adianta a revista “WWD”.

O acordo de venda de empresa à “Amazon da Coreia do Sul” foi confirmado em dezembro de 2023. Em causa, estava um empréstimo imediato no valor de 500 milhões de dólares (cerca de 460 milhões de euros) com juro de 12,5 por cento para evitar o fim do negócio.

A empresa fundada em 2008, até então cotada na bolsa de Nova Iorque, prepara-se ainda para ser liquidada. Isto significa que vai deixar de estar presente na lista quando o processo estiver finalizado.

Como se especulava, todos os investidores — tanto os acionistas como os credores da dívida — acabaram lesados e perdem tudo. No entanto, a empresa avançou que “sem a injeção de liquidez, a Farfetch e as suas subsidiárias seriam incapazes de sobreviver como empresas”.

“Quando a venda estiver consumada, a Farfetch Limited [a sociedade cotada em Nova Iorque] estima que os detentores das ações ordinárias de classe A e B e as notas convertíveis não recuperarão qualquer valor do investimento”, lê-se num comunicado publicado no site.

As dificuldades da empresa refletem os prejuízos que levaram a uma queda abrupta da empresa nas cotações da bolsa de Wall Street, bem como a descredibilização por parte dos maiores investidores no negócio. A notícia surgiu após a Farfetch ter revelado que não iria anunciar os resultados do terceiro trimestre de 2023 “e não realizaria a habitual conferência pelo telefone com analistas e investidores”.

A ação coletiva nos EUA

Ao adiar a apresentação dos resultados, a empresa portuguesa tornou-se alvo de uma ação coletiva judicial no tribunal de Maryland, nos EUA, devido a “afirmações enganadoras” que penalizaram os investidores.

Na entrada no tribunal em novembro, intitulada “Ragan v. Farfetch Limited”, argumenta-se que a entidade não informou devidamente os visados sobre a trajetória descendente na bolsa. Com base nesta teoria, os advogados têm reunido vários empresários que se sentem lesados pelos resultados para avançar com esta ação coletiva.

O objetivo da ação era “recuperar perdas em nome dos investidores da Farfetch que foram afetados negativamente por suposta fraude de valores mobiliários entre 9 de março de 2023 e 17 de agosto de 2023”, avançou a CNN Portugal. Os visados tinham até 19 de dezembro para se juntar à ação promovida pelo escritório Levi & Korsinsky.

A denúncia apontava para declarações falsas sobre estar a passar por “uma desaceleração significativa no crescimento nos EUA e na China”. Porém, os resultados reais da empresa foram bastante negativos em 2023.

A par disto, a Farfetch foi sido acusada de ocultar que os fatores estavam a “ter um impacto negativo significativo nas receitas e no crescimento do valor bruto das mercadorias”, pelo que “era improvável que cumprisse as expectativas do mercado relativamente aos seus resultados financeiros do segundo trimestre de 2023 ou à orientação de receitas” deste ano.

A queda da Farfetch

O fundador da Farfetch, José Neves, ainda avaliou a possibilidade de retirar o negócio da bolsa, com o apoio do JP Morgan e da Evercore. Neste momento, a empresa já está avaliada em menos de 400 milhões de dólares, sendo considerada um ex-unicórnio. No primeiro semestre do ano passado, teve mesmo 455 milhões de dólares em prejuízo.

Quando se estreou na bolsa de Nova Iorque, em setembro de 2018, a Farfetch valia 20 dólares por ação — isto após ter atingido um máximo de 73 dólares, em fevereiro de 2021. Uma realidade distante, visto que atualmente as ações estão a cotar apenas 1,18 dólares.

Numa fase inicial, estimava-se o corte de 800 postos de trabalho até ao final do ano passado. No entanto, a viabilização do negócio levou a que o número de trabalhadores dispensados duplicasse para cerca de dois mil colaboradores. Esta perda representou cerca de 25 por cento dos 6800 funcionários da atual força laboral.

“Sabemos mais pelas notícias lá fora do que cá dentro”, revelou uma colaboradora da empresa em Portugal, à mesma publicação. A fonte adianta ainda que a equipa aponta para números entre os 1700 e os dois mil despedimentos.

 

 

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