Lojas e marcas

Farfetch é comprada por empresa sul coreana e evita a insolvência

O grupo Coupang vai contribuir com quase 500 milhões de euros. A empresa prepara-se para ser liquidada e sair da bolsa.
Atingiu o máximo na bolsa em 2021.

O futuro da Farfetch acabou de ficar menos incerto. A plataforma de vendas de luxo, a primeira startup com ADN português a transformar-se num unicórnio — ou seja, avaliada em mais de mil milhões de euros — foi comprada pelo grupo sul-coreano Coupang e evita assim a falência.

O acordo com a “Amazon da Coreia do Sul” foi confirmado num comunicado divulgado esta segunda-feira, 18 de dezembro. Em causa, está um impréstimo imediato do novo dono de 500 milhões de dólares (cerca de 460 milhões de euros) com juro de 12,5 por cento que evita o fecho.

A empresa fundada pelo português José Neves, até então cotada na bolsa de Nova Iorque, prepara-se para ser liquidada e vai deixar de estar presente na lista quando o processo estiver finalizado. Porém, não se sabe se o atual CEO vai continuar ligado ao negócio, que criou em 2008.

Como se vinha a especular, todos os investidores — tanto accionistas como credores em dívida — acabam lesados e perdem tudo. No entanto, a empresa avançou que “sem esta liquidez, a Farfetch e as suas subsidiárias seriam incapazes de sobreviver como empresas”.

“Quando a venda estiver consumada, a Farfetch Limited [a sociedade cotada em Nova Iorque] estima que os detentores das acções ordinárias de classe A e B e as notas convertíveis não recuperarão qualquer valor do investimento na Farfetch”, lê-se num comunicado divulgado pelo negócio e publicado no site.

As dificuldades da empresa refletem os prejuízos que levaram a uma queda abrupta nas cotações da bolsa de Wall Street, bem como a descredibilização por parte dos maiores investidores no negócio. A notícia surgiu após a Farfetch ter revelado, em comunicado, que não iria anunciar os resultados do terceiro trimestre de 2023 “e não realizará a habitual conferência pelo telefone com analistas e investidores”.

A ação coletiva nos EUA

Ao adiar a apresentação dos resultados, a empresa portuguesa tornou-se alvo de uma ação coletiva judicial no tribunal de Maryland, nos EUA, devido a “afirmações enganadoras” que penalizaram os investidores.

Na entrada no tribunal, intitulada “Ragan v. Farfetch Limited”, argumenta-se que a entidade não informou devidamente os visados sobre a trajetória descendente na bolsa. Com base nesta teoria, os advogados têm reunido vários empresários que se sentem lesados pelos resultados para avançar com esta ação coletiva.

O objetivo da ação é “recuperar perdas em nome dos investidores da Farfetch que foram afetados negativamente por suposta fraude de valores mobiliários entre 9 de março de 2023 e 17 de agosto de 2023”, avança a CNN Portugal. Os visados têm até 19 de dezembro para se juntar à ação promovida pelo escritório Levi & Korsinsky.

A denúncia aponta para declarações falsas sobre estar a passar por “uma desaceleração significativa no crescimento nos EUA e na China”. Porém, tudo aponta para que os resultados reais da empresa sejam bastante negativos em 2023.

A par disto, a Farfetch tem sido acusada de ocultar que os fatores estavam a “ter um impacto negativo significativo nas receitas e no crescimento do valor bruto das mercadorias”, pelo que “era improvável que cumprisse as expectativas do mercado relativamente aos seus resultados financeiros do segundo trimestre de 2023 ou à orientação de receitas” deste ano.

Ainda há esperança

Nos últimos meses, o fundador da Farfetch, José Neves, tem estado a avaliar a possibilidade de retirar o negócio da bolsa, com o apoio do JP Morgan e da Evercore. Neste momento, a empresa já está avaliada em menos de 400 milhões de dólares, sendo considerada um ex-unicórnio. No primeiro semestre, teve mesmo 455 milhões de dólares em prejuízo.

Quando se estreou na bolsa de Nova Iorque, em setembro de 2018, a Farfetch valia 20 dólares por ação — isto após ter atingido um máximo de 73 dólares, em fevereiro de 2021. Uma realidade distante, visto que atualmente as ações estão a cotar apenas 1,18 dólares.

Apesar das acusações e do prejuízo em Wall Street, a marca conseguiu ganhar um novo investidor. O milionário Steven Cohen, proprietário da equipa de basebol New York Mets, juntou-se à empresa Point72 Asset Management para adquirir uma participação de 5,1 por cento na Farfetch.

Ainda não se sabe se a empresa realmente vai sair da bolsa norte-americana, onde entrou em setembro de 2018, como noticiou o “The Telegraph”. A par disto, falta saber quando serão reveladas as contas trimestrais que levaram o negócio ao tribunal. A divulgação dos resultados chegou a estar marcada para 29 de novembro.

O despedimento coletivo

Inicialmente, estimava-se o corte de 800 postos de trabalho ainda este ano. No entanto, a viabilização do negócio levou a que o número de trabalhadores dispensados duplicasse para cerca de dois mil colaboradores. Esta perda representa cerca de 25 por cento dos 6800 funcionários da atual força laboral.

“Sabemos mais pelas notícias lá fora do que cá dentro”, revelou uma colaboradora da empresa em Portugal, à mesma publicação. A fonte adianta ainda que a equipa aponta para números entre os 1700 e os dois mil despedimentos.

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