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Farfetch vai despedir até 30% dos trabalhadores. Portugal será o mais afetado

A empresa tem 6800 funcionários espalhados pelo mundo. Quer eliminar cerca de dois mil postos de trabalho.
Atingiu o máximo na bolsa em 2021.

Os trabalhadores sediados nas instalações nacionais da Farfetch foram alertados esta quinta-feira, 15 de fevereiro, que a empresa se preparava para iniciar um processo de despedimento, avança o “ECO”.

Após vários meses de incerteza e instabilidade, a empresa prepara-se para reduzir até 30 por cento do total dos seus trabalhadores em várias geografias. Dos 6800 funcionários espalhados pelo mundo, três mil estão sediados em Braga, Guimarães, Lisboa e Matosinhos.

Portugal é o País onde a multinacional tem mais funcionários, pelo que será o mais afetado com a saída prevista de cerca de 2 mil pessoas. No entanto, a tecnológica não detalhou de que forma a redução irá afetar as dependências nas diversas localizações.

“Após uma cuidadosa consideração, decidimos simplificar o negócio para nos permitir operar a partir de uma posição de solidez financeira”, refere a empresa nos e-mails enviados aos trabalhadores. A mensagem refere ainda que se tratou de uma “difícil decisão de remover funções redundantes”.

A notícia surge após José Neves se ter demitido do cargo de diretor-executivo o da Farfetch esta quinta-feira, 15 de fevereiro. O cargo passa a ser assumido por Bom Kim, proprietário da Coupang, o grupo sul-coreano que comprou a plataforma de vendas de luxo em setembro, evitando assim a insolvência da empresa.

A saída do fundador da primeira startup com ADN nacional a transformar-se num unicórnio — ou seja, avaliada em mais de mil milhões de euros — acontece num momento de várias mudanças. A par do empresário português, saiu uma grande parte da equipa executiva.

Embora não se saiba se as saídas foram voluntárias ou devido à redução de impostos, a multinacional perdeu oito diretores. Falamos de Hélder Dias, Kelly Kowal, Edward Sabbagh, Sindhura Sarikonda, Tim Stone, Luís Teixeira, Nick Tran e Elizabeth Von Der Goltz.

A compra da Farfetch

O acordo de venda de empresa à “Amazon da Coreia do Sul” foi confirmado em dezembro de 2023. Em causa, estava um empréstimo imediato no valor de 500 milhões de dólares (cerca de 460 milhões de euros) com juro de 12,5 por cento para evitar o fim do negócio.

A empresa fundada em 2008, até então cotada na bolsa de Nova Iorque, prepara-se ainda para ser liquidada. Isto significa que vai deixar de estar presente na lista quando o processo estiver finalizado.

Como se especulava, todos os investidores — tanto os acionistas como os credores da dívida — acabaram lesados e perdem tudo. No entanto, a empresa avançou que “sem a injeção de liquidez, a Farfetch e as suas subsidiárias seriam incapazes de sobreviver como empresas”.

“Quando a venda estiver consumada, a Farfetch Limited [a sociedade cotada em Nova Iorque] estima que os detentores das ações ordinárias de classe A e B e as notas convertíveis não recuperarão qualquer valor do investimento”, lê-se num comunicado publicado no site.

As dificuldades da empresa refletem os prejuízos que levaram a uma queda abrupta da empresa nas cotações da bolsa de Wall Street, bem como a descredibilização por parte dos maiores investidores no negócio. A notícia surgiu após a Farfetch ter revelado que não iria anunciar os resultados do terceiro trimestre de 2023 “e não realizaria a habitual conferência pelo telefone com analistas e investidores”.

A ação coletiva nos EUA

Ao adiar a apresentação dos resultados, a empresa portuguesa tornou-se alvo de uma ação coletiva judicial no tribunal de Maryland, nos EUA, devido a “afirmações enganadoras” que penalizaram os investidores.

Na entrada no tribunal em novembro, intitulada “Ragan v. Farfetch Limited”, argumenta-se que a entidade não informou devidamente os visados sobre a trajetória descendente na bolsa. Com base nesta teoria, os advogados têm reunido vários empresários que se sentem lesados pelos resultados para avançar com esta ação coletiva.

O objetivo da ação era “recuperar perdas em nome dos investidores da Farfetch que foram afetados negativamente por suposta fraude de valores mobiliários entre 9 de março de 2023 e 17 de agosto de 2023”, avançou a CNN Portugal. Os visados tinham até 19 de dezembro para se juntar à ação promovida pelo escritório Levi & Korsinsky.

A denúncia apontava para declarações falsas sobre estar a passar por “uma desaceleração significativa no crescimento nos EUA e na China”. Porém, os resultados reais da empresa foram bastante negativos em 2023.

A par disto, a Farfetch foi sido acusada de ocultar que os fatores estavam a “ter um impacto negativo significativo nas receitas e no crescimento do valor bruto das mercadorias”, pelo que “era improvável que cumprisse as expectativas do mercado relativamente aos seus resultados financeiros do segundo trimestre de 2023 ou à orientação de receitas” deste ano.

A queda da Farfetch

O fundador da Farfetch, José Neves, ainda avaliou a possibilidade de retirar o negócio da bolsa, com o apoio do JP Morgan e da Evercore. Neste momento, a empresa já está avaliada em menos de 400 milhões de dólares, sendo considerada um ex-unicórnio. No primeiro semestre do ano passado, teve mesmo 455 milhões de dólares em prejuízo.

Quando se estreou na bolsa de Nova Iorque, em setembro de 2018, a Farfetch valia 20 dólares por ação — isto após ter atingido um máximo de 73 dólares, em fevereiro de 2021. Uma realidade distante, visto que atualmente as ações estão a cotar apenas 1,18 dólares.

Numa fase inicial, estimava-se o corte de 800 postos de trabalho até ao final do ano passado. No entanto, a viabilização do negócio levou a que o número de trabalhadores dispensados duplicasse para cerca de dois mil colaboradores. Esta perda representou entre 25 a 30 por cento dos 6800 funcionários da atual força laboral.

 

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