Lojas e marcas

Há uma marca portuguesa que está a criar sapatos com lixo do mar para a O’Neill

A Zouri foi convidada para uma colaboração com a icónica marca norte-americana.
Adriana Mano é a criadora do projeto.

O projeto nasceu em dezembro de 2018 e, ao fim de um ano, já tinha faturado 200 mil euros. No final do ano passado, em plena pandemia, esse valor subiu para 360 mil euros. A Zouri é um projeto português, mas o maior mercado desta marca de calçado sustentável já é a Alemanha. Agora, prepara-se para conquistar o mercado internacional com uma colaboração a convite da icónica marca norte-americana O’Neill.

Adriana Mano, de 38 anos, é a fundadora do projeto. Trabalhou vários anos na indústria do calçado até começar a sentir-se inquieta com o que fazia. O que queria realmente era poder por as suas capacidades a trabalhar para algo em que acreditasse. O clique chegou com uma “ideia estapafúrdia” que teve espontaneamente, como descreve à NiT.

Em 2016, estava a participar numa ação de limpeza de uma praia quando se lembrou que podia aproveitar os resíduos de plástico recolhido para criar uma marca de sapatos. Começou por fazer desenhos, ainda sem levar o projeto muito a sério, até se candidatar a um prémio da Universidade do Minho, que ganhou.

No fim desse mesmo ano, criou a empresa e lançou a primeira linha de sapatilhas feitas com plástico recolhido das praias, que é incorporado nas solas. A estrutura é composta por materiais orgânicos e naturais (ou biomateriais), como resíduos de maçã e ananás. O sucesso não tardou a chegar.

Em meados de 2019, poucos meses depois do lançamento da Zouri, começaram a chegar os primeiros contactos de lojas portuguesas que queriam distribuir o produto. “Foi quando percebemos que havia um caminho que podíamos fazer””, diz Adriana.

Hoje, a Alemanha é o principal mercado, com mais de 25 lojas a vender as sapatilhas da Zouri, e Portugal é o segundo. Bélgica, Holanda, França e Grécia são outros países a que a marca já chegou, mas também está presente em duas lojas do outro lado do mundo, na Nova Zelândia.

O contacto da O’Neill Blue chegou em abril de 2020, através de um email onde pediam para se reunirem com a Zouri. “Pensei que era uma daquelas fraudes de correio eletrónico”, recorda Adriana, bem-humorada. Não respondeu, mas no dia seguinte chegou uma chamada para o escritório que confirmou que era tudo verdade. Seguiu-se uma reunião por Zoom e uma visita da equipa da marca norte-americana para conhecer melhor o projeto português e acertar detalhes.

Para a Zouri fechar o acordo, era determinante que a O’Neill aceitasse que as duas marcas tivessem uma ponderação equivalente, que a produção fosse feita em Portugal e que todos os materiais fossem sustentáveis. As condições, felizmente, foram todas aceites pelos norte-americanos.

zouri
Detalhes da colaboração.

“Disseram-nos que a produção era feita na China e no Vietname, por isso foi uma grande vitória aceitarem fazê-la em Portugal”, explica Adriana, enquanto explica que o acordo foi feito “com muita cautela”: “É muito perigoso, somos pequeninos, não temos experiência nos grandes aquários de tubarões. Não te podes emocionar e dizer que vai tudo correr bem. Houve todo um caminho novo e exigente para nós.”

Esta foi a terceira vez que uma grande marca abordou o projeto português para uma parceria, mas foi a primeira a receber um sim. Até agora, nenhuma foi capaz de garantir as condições pedidas pela Zouri, que não quer comprometer os valores fundamentais por que se rege. “Temos um projeto mesmo de impacto e eles têm um ADN muito ligado aos oceanos”, continua Adriana.

O resultado desta colaboração é uma coleção de calçado de outono/inverno que será lançada em lojas selecionadas de 10 países no final de agosto e chegará às lojas online da Zouri e da O’Neill em setembro. O preço vai rondar os 120€ e a parceria estender-se-á por quatro estações, cerca de dois anos, mas a expetativa é “dilatar cada vez mais a colaboração”, revela a fundadora.

Serão, ao todo, 12 modelos, todos eles compostos por lixo do mar apanhado nas praias portuguesas. O resultado, dizem, promete “transformar o mercado do calçado a nível planetário”. Nos próximos dois anos, as marcas esperam retirar dos oceanos em conjunto 50 toneladas de resíduos.

Personalidades portuguesas como Catarina Furtado, Daniela Ruah, Ana Guiomar, Bruno Nogueira, e internacionais como Garrett McNamara, Alan Cummings e Alicia Silverstone, têm apoiado e validado a Zouri como um dos projetos de produção de moda mais inovadores e vanguardistas da atualidade.

Desde o seu começo, já retirou seis toneladas de plástico do mar, em ações conjuntas com mais de 1300 voluntários, numa cooperação entre municípios e ONG de todo o País. O objetivo da Zouri é promover, junto de 150 escolas, os programas de sensibilização ambientais acerca dos prejuízos do plástico e mostrar como este, aliado à criatividade, poderá tornar-se na matéria-prima mais valiosa da década.

Adriana Mano, que se autointitula como a rainha dos plásticos, já recebeu prémios em Portugal do Banco de Investimento Europeu para a Inovação Social e o prémio nacional da Academia Eletrão. 

Já a O’Neill foi fundada pelo aclamado protetor dos oceanos Jack O’Neill, conhecido por usar uma pala sobre o olho esquerdo, que perdeu num acidente enquanto praticava surf nos anos 70. Foi ele quem inventou o fato de neoprene no início dos anos 50, mas o projeto que viria a considerar mais importante na sua vida só chegaria no final dos anos 90, quando fundou o O’Neill Sea Odyssey, um programa educativo que permitiu a mais de 100 mil crianças aprender sobre a proteção dos recursos marinhos.

Até poder conhecer  as propostas da Zouri com a O’Neill Blue, carregue na galeria para ver os sapatos vegan da Lenna, uma nova marca portuguesa de produção sustentável.

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