Lojas e marcas

Há uma nova perfumaria em Lisboa onde todos podem criar a sua fragrância

Na Opar, o poder está nas mãos dos clientes: decidem os aromas e o nome do perfume. A experiência inclui testes e conversas.
Nenhum perfume é igual ao outro. Fotografia: Luke Dawson

Karolina Oledzka pode gabar-se do seu currículo. A polaca, de 35 anos, já ajudou a criar marcas famosas em diferentes segmentos da indústria da beleza. É o caso da Cosmoss, a etiqueta de autocuidado lançada pela supermodelo Kate Moss, em 2022, onde foi diretora de desenvolvimento do produto.

Apesar do alcance internacional, já vive em Portugal de 2019. A Covid-19 “facilitou a decisão de ficar permanentemente”, conta à NiT. “A pandemia viveu-se melhor aqui. Em Varsóvia havia menos acesso à natureza, e em Lisboa as restrições eram mais ligeiras.”

Quando finalmente assentou por cá, começou a fazer consultoria para marcas de cosméticos internacionais, o que permitia que trabalhasse remotamente. No entanto, sentiu que estava na altura de ter o seu próprio projeto — e surgiu a ideia de abrir uma perfumaria artesanal.

A estreia do conceito na Lapa, em agosto de 2023, foi um sucesso. A procura tem sido tanta que a Opar abriu um novo ponto de venda a 20 de junho, desta vez na Rua da Alegria, em Lisboa. Ali, todas as propostas são criadas à medida dos clientes, que escolhem os aromas desejados.

“Quando começámos, não tínhamos a certeza se ia haver procura suficiente por ser um nicho. É um processo demorado que obriga as pessoas a passar mais de uma hora e meia connosco”, explica. No entanto, Karolina foi surpreendida com a resposta positiva dos portugueses.

Os clientes aumentaram tanto que a primeira morada, com cerca de 12 metros quadrados, deixou de ser suficiente. Como já não conseguiam crescer, mudou-se para um espaço “para retalho e workshops”, um segmento com bastante procura entre empresas para eventos de team building.

A oportunidade surgiu quando a fundadora encontrou um espaço com o dobro do tamanho num café prestes a fechar. Era um estabelecimento por onde passava todas as manhãs, exatamente na rua onde vive, e que descobriu que ia ficar vazio. Quando ficou vago, não hesitou.

O interior, com cinco metros de pé direito, ganha vida através das paredes de mármore português dos anos 70. A equipa trabalhou com vários jovens artistas e arquitetos para transformar o espaço numa “loja sentimental”, com uma paleta de cores azulada, arcos e “o mesmo aconchego” do primeiro laboratório.

A autoridade é o cliente 

Todo o ambiente foi pensado para ser um sítio onde os clientes possam entrar, pensar no seu perfume e passar um bom bocado. “Não podia ser um local frio ou hóstil”, sublinha. Afinal, se as pessoas não se sentirem bem-recebidas, o resultado também não vai ser inspirado.

As fragrâncias são criadas nos dois espaços da Opar, onde existe um laboratório que segue todas as regras, garante Karolina. Além disso, utiliza um programa que faz cálculos para ter a certeza de que não existem reações adversas. O processo de fabrico é bastante rápido — demora entre cinco a dez minutos.

No entanto, a experiência total inclui testes e conversas para chegarem ao produto final, aumentando a espera para aproximadamente uma hora e meia. “Preocupamo-nos sobretudo com duas coisas: a qualidade do material e a segurança. Trabalhamos com casas de perfumes estabelecidas no mercado.

Além disso, o poder está todo nos visitantes. “Quem sou eu para dizer como devem cheirar? Estamos aqui para dar a autoridade às pessoas”, acrescenta. “Existe uma relação em que, quem entra pela porta, se torna um perfumista e nós oferecemos essa experiência.”

O nome Opar foi perfeito devido à relação que estabelece com os clientes. Ali, há um mestre que cria fragrâncias para os compradores — que tanto pode ser a fundadora como um especialista da indústria. “Criamos um casal entre nós e aqueles que nos visitam, daí ser ‘o par’”, conta.

 
 
 
 
 
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Outra particularidade é que os clientes podem dar nome à fragrância. Karolina ainda se recorda de um amigo que visitou a Opar e decidiu-se por “cowboy português” devido às notas de couro. “Nenhuma rapariga vai gostar”, respondeu a fundadora, que não podia estar mais enganada.

Quando o viu, decorridas algumas semanas, tinha conhecido uma rapariga e, no final do encontro, elogiou o perfume. O nome acabou por ser revelado e, desta interação, nasceu uma relação. O jovem chegou a levá-la à perfumaria e, no final, mandaram uma fotografia de ambos com o seu perfume.

Do sal marinho ao incenso 

Entre os campeões de vendas, está o yuzu, um citrino japonês com um cheiro semelhante à lima, mas mais aromático. Destaca-se ainda o aroma a figo, o sal marinho, visto que muitos estrangeiros querem levar uma memória de Portugal, e o cheiro a incenso de Igreja, um dos mais divisivos.

A maioria dos ingredientes vêm dos Alpes Marítimos da Riviera Francesa. Falamos de uma localização que está para a perfumaria “como Paris está para a moda ou Wall Street para as finanças.”

Apesar de estarem a trabalhar numa imagem mais madura para os frascos, têm a mesma abordagem minimalista desde o início. Uma escolha que não foi feita ao acaso. O líquido no interior, normalmente entre o amarelo e o castanho, está sempre visível para que os criadores da referência o possam ver e compreender o resultado.

A caminho da Opar, estão fragrâncias com assinatura própria. “São memórias e sensações engarrafadas que tive aqui em Portugal e queremos abraçar o sentimento que está por detrás”, adianta Karolina.

Uma delas refere-se ao veraneio, o ato de passar as férias de verão em lugar aprazível. E surgiu por necessidade, uma alternativa aos repeletnes de mosquitos para sobreviver aos parasitas que se concentram na Comporta. É feita com óleos essenciais para ser eficaz e, ao mesmo tempo, cheirar bem.

Há ainda uma que evoca a maresia, que remete para a experiência que a empreendedora tinha todos os domingos de manhã, quando passeava pelo Guincho. “É a sensação do mar na cara, as dunas e os pinheiros da floresta ali perto”, finda. Se há algo que uma fragrância deve ser, é pessoal.

Cada frasco de 100 mililitros de eau de toilette custa 149€. As fragrâncias também estão disponíveis na versão eau de parfum, mas não têm um preço definido visto que depende muito das matérias-primas utilizadas.

Mas afinal, qual é a diferente entre as duas propostas? Geralmente, a primeira conta com cerca de cinco a 15 por cento de óleos aromáticos dissolvidos em álcool. Este valor é de entre 15 a 20 por cento para o eau de parfum.

Carregue na galeria e fique a conhecer melhor a nova perfumaria artesanal de Lisboa. As fotografias são de Luke Dawson.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua da Alegria, 41D
    1250 - 182 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Segunda a sexta-feira das 10h às 18h

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