Lojas e marcas

A icónica marca de blusões portuguesa Duffy está de volta (e mais cool do que nunca)

As peças da etiqueta nacional tornaram-se num verdadeiro fenómeno e símbolo dos anos 80 e 90.
Os blusões estão de volta.

Poucas são as marcas nacionais que conseguem dizer que, com as suas roupas, marcaram todo uma geração. Menos ainda são as marcas que têm a autoridade para o fazer afirmando que se tornaram num símbolo para múltiplas outras. Esse é o caso da Duffy. Durante os anos 80 e 90, os seus blusões de penas, nas estações frias, podiam ser encontrados no corpo de todos os adolescentes, de norte a sul do País. Eram quase como um uniforme que garantia que, quem o vestisse, fazia parte do grupo cool do liceu.

Agora, talvez pela quantidade de revivals que se têm sentido na indústria da moda, estão de volta e com mais força do que nunca. Por isso, e interessados por este fenómeno, decidimos falar com Beatriz Serrano, a fundadora da Duffy, para nos contar um pouco mais da sua história.

“Estava a estudar ciências económicas, e estávamos no pós 25 de Abril, e na altura conheci o meu sócio que tinha um rent-a-car, que me disse que estava a pensar fazer um projeto de penas com um cunhado. Desafiou-me para me juntar ao projeto”, começa por nos contar a mulher de 68 anos sobre a Pato Rico, empresa à qual a Duffy pertence, fundada no ano de 1979.

“Foi uma aventura que começou com uma conversa de café, mais concretamente no Vá-Vá, na Avenida Estados Unidos da América. Era um projeto que era uma coisa de doidos, mas ainda assim decidi embarcar neste desafio de loucos”, acrescenta.

A Duffy só surge quatro anos depois. “Ela nasce em 1983, dentro deste projeto. Eu e o meu sócio na altura íamos fazer esqui para Andorra. Íamos de jeans e blusão, e depois dissemos: ‘Por que não começamos a fazer, nós, uns blusões destes em Portugal?’ E eu pensei: ‘Olha, por que não? Era engraçado’”, conta-nos Beatriz Serrano, com o entusiasmo de quem recorda algo que lhe é particularmente querido. Assim que chegaram a território nacional decidiram pôr o plano em ação, e a produção dos mesmos numa fábrica que na altura ficava na zona de Odivelas.

Pouco depois tinham os primeiros modelos feitos. Só faltava vendê-los. “Tinha uma amiga cujo pai era dono da Só Fidel, uma loja de desporto. Fui lá e o senhor disse: ‘Tens um projeto engraçado, e isso é capaz de ser giro, e comprou-me oito blusões’. Na altura eu tinha mandado fazer 200.” 

Sendo a mulher aguerrida e despachada que aparenta ser, a fundadora da marca, em vez de desistir, decidiu antes pôr as mãos ao trabalho e foi então em busca de mais sítios. “Fui a todas as lojas ali da zona, e toda a gente me dizia que não estava interessada, porque aqui em Portugal fazia muito calor. Foi então que em conversa com uma conhecida ela me diz que conhecia o chefe de vendas da Apolo 70 — que na altura o espaço pertencia aos Feist. Fui então ter com ele a um bar na Avenida Rio de Janeiro, e ele disse: ‘OK, pões lá não sei quantos blusões e se eu vender, dou-te o dinheiro’. E foi assim que aconteceu. Eu peguei no meu Mini, meti lá meia dúzia de blusões numa série de cores — amarelos, verdes, e azuis escuros —, e deixei lá. Passado algum tempo ele liga-me a dizer: ‘Vendi todos, vais precisar de me trazer mais’”.

Foi desta forma que a euforia em torno da Duffy começou — e fazendo com que se tornasse num sucesso estrondoso. “Nem sabia como dar volta a todos aqueles pedidos. Na altura a empresa estava praticamente 90 por cento dedicada à produção dos blusões”, afirma Beatriz Serrano, confirmando assim a lenda de que filas enormes se formavam à porta da loja em busca de uma das suas peças.

Em pouco tempo esta febre que havia começado na capital espalhou-se de norte a sul do País. Um sucesso que ainda hoje parece quase inexplicável para a fundadora da Duffy. “

Esboço dos blusões Duffy.

Talvez porque eram diferentes, talvez porque eram caros — e tudo o que é caro torna-se numa peça de desejo — e também porque não havia ninguém. Não sei, acho que foi uma conjugação de fatores.” E acrescenta: “Toda a gente pensava que a marca era americana, quem sabe se se na época soubessem que era uma portuguesa que estava por trás… Talvez nem tivesse sido o sucesso que foi”.

Mesmo tendo este sucesso todo, houve alguns percalços pelo caminho. “Fui assaltada 25 vezes no espaço de 15 dias por causa dos blusões nos anos 80. Fiquei completamente irritada e frustrada e foram dias bastante desmoralizantes. Vinham ao armazém, alguém lhes dizia onde estavam as peças, e atiravam-se pelo telhado do armazém e roubavam. Fiz tudo para impedir. Punha cadeados nas portas, alarmes por todo o lado, mas era assaltada na mesma. Nunca mais me esqueço que da ultima vez foram roubados 25 blusões azuis escuros.”

Porém, na viragem do século, com o surgimento dos franchisings desportivos, e os centros comerciais, as vendas começaram a cair. “A produção foi morrendo por si. No ano 2000 existiam mais de 2000 lojas de desporto em Portugal, e em meia dúzia de anos fecharam todas”, explica a fundadora da Duffy.

Na época ainda tentaram fazer algumas iniciativas para fazer com que a marca voltasse a ser apetecível. Fizeram, inclusivamente, uma festa com desfile, mas o publico já não aderia. “Aí senti-me derrotada”.

Com o passar dos anos, a vontade de trazer a Duffy de volta foi, aos poucos, regressando. No ano de 2011 chegou mesmo a pensar dar esse passo, mas devido a uma série de condicionantes, optou por deixar esse plano em espera. Ainda assim, ao longo do tempo, foi fazendo algumas parcerias pontuais com a designer Alexandra Moura, para quem fez uma pequena quantidade de blusões.

“Ela procurou-nos para fazer um revival do Michelin”, diz Beatriz Serrano, acrescentando: “Ela tem um jeito inacreditável. É uma pessoa fantástica”.

O rebentar deste enorme desejo deu-se então no ano de 2021. “Estamos a relançar e está a correr muito bem. Claro que sei que não vai ser o boom nas lojas que foi na altura, mas é bom saber que a marca não morreu. Era algo do qual tinha imensa pena: saber que, na minha carreira, esta marca tinha morrido. Porque foi algo que apesar de ter sido extremamente cansativo, foi extremamente giro e divertido”, conta a fundadora de 68 anos.

“É incrível como passado todos estes anos, o Michelin continua a ficar à frente, em vendas, comparativamente a todos os outros. E é preciso ser-se louco para se entrar no universo da roupa. Mas é um universo muito, muito bom.”

Atualmente, a marca conta com — além do Michelin — vários modelos que tanto podem ser comprados online, através do site, como na loja situada na capital. Todos eles são feitos pela Pato Rico, que fez um grande investimento para poder melhorar os processos de produção que garantem a qualidade de antigamente. 

Carregue na galeria para conhecer alguns dos modelos da marca.

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