Em cima de uma mesa colorida, várias revistas portuguesas do início dos anos 2000 — como as edições cada vez mais raras da “Bravo” ou da “100% Jovem” — surgem como uma “cápsula do tempo”. Todas elas são responsáveis por nos transportar para uma altura em que descobrimos peças de roupa e tendências a folhear as páginas destas relíquias.
Entra-se na iDream, a nova loja de roupa em segunda mão de Lisboa e todos os detalhes são um convite à nostalgia. As portas abriram-se a 5 de junho, na zona das Olaias (a poucos minutos da Escola Artística António Arroio) para todos os amigos obcecados pela estética e cultura Y2K.
Por detrás do projeto, estão Catarina da Paz e Laura Real, mais conhecida como Pinky, duas amigas de longa data, de 23 e 25 anos, respetivamente. Conhecidas pela forte presença digital, apresentam-se à NiT como fãs confessas “de coisas coloridas”, sejam bonecos antigos, peças de decoração ou telemóveis.
Acima de tudo, são entusiastas de moda alternativa e, sobretudo, sustentável. “Em Portugal, ainda faz falta este tipo de projetos”, explicam. Numa altura em que se fala cada vez mais em thrifting, “o que se encontra é uma curadoria em cores mais neutras ou punk e há pouco de espaço para a roupa que não é de marca”.

No caso de Catarina, cujo estilo pouco discreto lhe valeu mais de 60 mil seguidores no TikTok, tinha este sonho ainda antes de se mudar para Amesterdão, nos Países Baixos, em 2022. “Sempre tive o desejo de sair do País e mudei-me assim que fiz 19 anos, mas a loja tinha que ser cá”, explica.
Atualmente a trabalhar num bar, a criadora de conteúdos também se dedica à venda de roupa em feiras em segunda mão na capital neerlandesa. “Ainda há muitas pessoas mais julgadoras em Lisboa, mas também há mais gente alternativa do que lá. As pessoas não arriscam tanto.”
Já Pinky, professora primária e autoproclamada “internet kid”, está atualmente a terminar o mestrado em educação básica. Apesar da distância, ambas sentiram que esta era a melhor fase para arrancar com este projeto.
Um espaço de convívio
Sobre a curadoria para a iDream, explicam que o foco está na qualidade. “Vemos uma coisa que achamos gira ou única e compramos”, diz Catarina. Procuram sobretudo artigos fabricados em Portugal, priorizando tecidos nobres, como 100 por cento algodão, e com várias texturas ou padrões.
O stock começou com a coleção pessoal das duas sócias, que a certa altura perceberam que podiam abrir uma loja só com o que tinham em casa. Desde então, têm vindo a alargar o catálogo com deadstock de fábricas que fecharam ou de outras empresas, com quem fizeram contactos ao longo dos anos.
Falamos de peças de roupa ainda com etiqueta, mas com preços para todas as carteiras. Há ganchos a partir de 1€, T-shirts a partir de 4€, biquínis desde 5€ e uma seleção de carteiras a menos de 10€. Todas as semanas, à sexta-feira, têm um drop maior, mas vão acrescentando novidades todos os dias.
Com cerca de 45 metros quadrados, a iDream está a ser idealizada como mais do que uma loja de roupa. Ainda que seja esse o foco, a experiência passa por recriar uma espécie de máquina do tempo que recua cerca de duas décadas, até uma altura que muitos dos novos clientes deste espaço nem chegaram a viver.
@catarina.dapaz Abertura da nossa loja 😱🐠 @Idream #idreamlisbon #y2klisbon #thriftlisbon
“Nunca foi apenas para as pessoas virem comprar roupa. Queremos que as pessoas alternativas da cidade possam encontrar-se com gente que gosta das mesmas coisas, porque a nossa geração não teve essa experiência de conviver com os seus pares em lojas físicas. Compramos tudo pela Internet”, lamenta Catarina da Paz.
Entre prateleiras suspensas com peluches e pequenos sofás, parece recriar um quarto adolescente da época. O verde-lima do balcão contrasta com apontamentos de azul, rosa e branco das prateleiras onde estão espalhados peluches, figuras colecionáveis e autocolantes decorativos.
“Fazemos coleção de tudo. Andamos sempre em feiras à procura deste tipo de objetos”, continua Pinky, que trouxe também as revistas “cada vez mais difíceis de encontrar”. “Sinto que antigamente era tudo menos superficial, mais significativo. Não havia tanta informação, mas as pessoas eram mais autênticas.”
Uma opinião partilhada pela amiga. “Hoje em dia, vamos a lojas e é tudo branco, bege ou preto. As casas também estão mais neutras. Todos têm medo de usar cor e acabam por seguir sempre o mesmo estilo.”
Nesta missão de fazer com que as pessoas sintam esta nostalgia, o próprio nome cumpre com esse propósito. “É uma referência ao internetcore [subcultura digital que celebra a nostalgia da Internet internet do final dos anos 90 e início dos anos 2000]”, diz. “Era um mundo completamente diferente, tudo era mais colorido.”
Nos primeiros dias após a inauguração, não há dúvida: é um público mais jovens, entre eles alunos da António Arroio, quem mais tem marcado presença. No entanto, há opções para várias faixas etárias, toda elas convidadas para as festas temáticas que a dupla quer estrear todas as sextas-feiras na loja.
Além disso, estão focadas em criar uma comunidade. Não escondem o desejo de colaborar com outros artistas, de áreas como o design ou o cinema, por exemplo. E, revelam, têm ainda um espaço vazio na porta ao lado onde poderão colaborar com negócios na área da estética: drills, tatuagens, piercings e tooth gems estão todos nos planos.
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