Lojas e marcas

Maraus: a marca nacional de chapéus à moda antiga que duram a vida toda

Rui usa o feltro para manter vivo o legado do avô na arte da chapelaria. Os modelos são personalizados e levam até 60 horas.
Tudo começou com o avô de Rui.

Do avô, Rui Dias herdou a bancada e algumas das ferramentas com as quais trabalha. Tinha apenas quatro anos quando António Marau morreu, mas cresceu a ouvir histórias sobre o homem que dedicou a sua vida à arte esquecida de fazer chapéus. A responsabilidade de manter vivos estes relatos ficou a cargo dos antigos colegas do chapeleiro com quem o neto também colabora.

A paixão do ancião pelo ofício começou quando veio do Brasil, ainda muito novo, para Portugal. Começou a trabalhar como aprendiz de chapeleiro, viu a carreira evoluir e acabou por abrir um pequeno atelier na parte de trás da sua casa, em São João da Madeira. Trabalhava até 12 horas por dia nos acessórios que eram vendidos com o seu emblema.

Inspirado pelo avô, Rui quis prestar-lhe homenagem e dedicar-se à mesma arte. Em 2022 começou a vender os primeiros chapéus, mas só este ano é que apostou no digital. “Tive a aprender na Colômbia com um chapeleiro conhecido internacionalmente e aprimorei duas técnicas: os modelos de feltro e os panamás originais, feitos com uma palha que se chama ‘paja toquilla’”, recorda à NiT o criativo de 38 anos, designer gráfico de profissão. Os acessórios surgiam ao final do dia e nos finais de semana.

Com o máximo de atenção ao detalhe, os chapéus da Maraus querem trazer de volta os modelos à moda antiga, sempre feitos à mão e com os melhores tecidos. É essa a missão de Rui e da mulher, Jéssica Félix, que se dedicam a uma negócio familiar de modelos feitos à medida com técnicas que obedecem às regras do passado. Um centímetro faz toda a diferença no resultado final.

Todos os modelos são feitos em São João da Madeira, o coração da indústria chapeleira. O ponto de partida é um pouco “do melhor feltro do mundo”, que compram na Fepsa, uma fábrica que fornece matérias-primas um pouco para todo o mundo. Segue-se um processo moroso, com muita dedicação e algum vapor pelo meio.

“Estas criações são muito mais valiosas do que uma produção massiva. Não existem formas, nem moldes. Quando se compram chapéus pré-feitos, são muito estandardizados”, acrescenta. “Quero que haja algum feitio, algum pormenor e, graças ao processo manual, acabam por ter mais durabilidade do que as peças que são feitas sem tempo.”

Albano Jerónimo já deu o rosto pela marca.

Rui não trabalha com lãs. Começa por escolher um tipo de feltro, que pode ser pelo de coelho, lebre ou castor, sendo que são sempre subprodutos da indústria alimentar. “Se não os usássemos, iam para o lixo”, explica. Por vezes, opta por fazer uma mistura entre duas das matérias-primas, consoante o pedido. Os clientes acompanham o processo do início ao fim.

No tratamento do feltro não se usam químicos — apenas água e vapor. “Não quero apresentar um produto final que o cliente use algumas vezes e fique sem consistência e não garanta uma boa resistência e impermeabilização”, acrescenta, reforçando que “há uma série de processos que quase ninguém faz porque são um segredo no mundo da chapelaria”. Aprendeu-os todos com Valdemar, chapeleiro de 92 anos que se tornou num dos seus mentores.

Escolhido o material, são tingidas as cores e é aplicada a goma-laca, resina de pinheiro que é cozinhada entre oito a dez horas. A mistura é aplicada de forma suave, mas é ela que torna o feltro mais consistente e com alguma dureza. O processo passa ainda por enformar o chapéu durante 24 horas, recorrendo-se a formas de madeira que variam consoante o tamanho da cabeça da pessoa. 

Após vaporizado e seco, após cerca de 12 horas, é preciso ainda lixar a copa e a aba, para tirar o máximo de pelo, e conseguir mais suavidade. “Lixo como fazia o meu avô”, admite Rui, que corta as abas com um utensílio de madeira, cose a tira de carneira — ou seja, a parte interior, para ficar com o suor retido — e ainda aplica o forro de cetim por dentro.

Cada modelo tem detalhes únicos.

Cada chapéu pode levar entre 40 a 60 horas de trabalho, dependendo da qualidade do feltro, das camadas e dos adornos e efeitos desejados no fim. Podem ser penas, fitas e laços ou apenas uma aba revirada na ponta. O criador lançou uma coleção com alguns exemplos produtos para senhora e senhor, mas o seu trabalho é feito por encomenda e segue o gosto e as medidas de cada pessoa.

E há regras que devem ser seguidas para que as peças assentem na perfeição. No caso da aba, por exemplo, não deve ultrapassar os 10 ou 12 centímetros salvo raras exceções. É também importante que o chapéu fique sempre dois dedos acima das sobrancelhas e das orelhas.

Todas estas técnicas são ensinadas por Rui nos workshops aos quais se tem dedicado, a convite de hotéis de luxo como o Valverde Santar ou o Six Senses Douro Valley. “Levo todo o tipo de materiais e desafio as pessoas a fazerem o seu próprio modelo. Quero que as pessoas se dediquem ao seu produto e sintam nas mãos o que sinto com a arte chapeleira”, admite.

A verdade é que esta paixão tem dado frutos, embora o fundador da Maraus continue focado no mercado nacional. As encomendas já surgem de países como a Suíça ou os Estados Unidos, por exemplo, durante todo o ano. Faz parte da revitalização destes acessórios: podem ser usados no verão, mas também nos protegem da chuva e do vento no inverno.

Pelo meio, Rui já adquiriu feltros em paja toquilla, vindos da Colômbia, e prepara a primeira coleção de panamás. O objetivo é que um dia possa exibi-los numa loja física na terra que o viu nascer, São João da Madeira. “Já estou em negociações com a Câmara Municipal”, revela. E estarão expostos tal como as obras de arte que tantos admiram ao lado, no Museu da Chapelaria, que conta a história de tantos outros homens como António.

As reservas podem ser feitas através da página de Instagram ou do site da Maraus.

Carregue na galeria para ver alguns dos chapéus da marca.

 

 

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