Lojas e marcas

Marta Maçarico: a jovem portuguesa que cria jóias com história

Aos 27 anos, criou uma própria de joalharia onde usa técnicas inovadoras de conservação e restauro. É uma das finalistas dos New Talent.
É uma das dez finalistas do New Talent

As semanas de férias de verão na Lourinhã eram as raras pausas que fazia no vagar da vida na pequena aldeia de Pipa, em Alenquer. As memórias que guarda desses dias, ainda criança, permanecem e são hoje fonte de inspiração. Deram, aliás, origem à primeira grande peça das coleções criadas por Marta Maçarico.

Aos 27 anos, cria jóias que descreve como “femininas e únicas”. Traços que, confessa, roubou muito à avó Albertina Rafael. É o caso da corrente de óculos com pequenos azulejos que lhe abriu o percurso como criadora.

“Ela era costureira e lembro-me bem de a ver sempre a trocar os óculos, com a corrente ao peito. Como os óculos se tornaram num objeto de moda, pensei que as correntes poderiam ser também elas peças de ourivesaria”, explica à NiT. Nos pequenos azulejos desenhou andorinhas. “Passávamos as tardes juntas a vê-las fazer os seus ninhos.”

Formada em conservação e restauro, aplicou os conhecimentos e técnicas na ourivesaria, para lançar a sua original e cativante marca própria. É também por isso que é uma das finalistas da segunda edição do New Talent NiT Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o concurso que elege os melhores jovens talentos do País na área do lifestyle com menos de 27 anos — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal.

A exclusividade das peças feitas à mão por Marta é uma das características vitais do negócio que lançou há um ano. Mas há, em cada uma delas, uma história que encontra raízes na vida e no passado da criadora.

Uma vida na aldeia

“Sempre fui uma menina do campo”, diz à NiT, enquanto vai recordando a realidade com que viveu até aos 20 anos, numa aldeia com pouco mais de 50 habitantes e onde a maioria eram seus familiares. Ao lado viviam os avós paternos. Na casa da frente, estavam os tios. Na escola, eram tão poucos que o professor dava a aula a uma única turma com crianças do primeiro ao quarto ano de escolaridade.

Quando sonhava com o futuro, a hesitação era natural, embora soubesse que tinha um talento especial para as artes. Sempre que havia uma cópia ou ditado para fazer, acabava-o com um desenho. Lápis e canetas? Eram o “presente ideal”.

“Sempre gostei do antigamente, ficava fascinada com as roupas da minha avó. Pedia-lhe para me contar histórias da infância, de como eram as mulheres naquela altura. Até porque sempre vivi rodeado de pessoas mais velhas”, recorda. Rapidamente descobriu a resposta para a pergunta “O que queres ser quando fores grande?”. Só não era a correta.

Decidiu, no quinto ano, que queria ser arqueóloga. Quando o professor a avisou que ia passar mais tempo entre livros do que a desenterrar antiguidades, decidiu que só tinha interesse nas antiguidades. “Acho que foi isso que me guiou até à conservação e restauro”.

Em 2019, Marta lançou a sua marca de jóias

Era a menina da casa, de uma aldeia pequena e, portanto, super protegida. Quando decidiu estudar artes em Lisboa, no secundário, fazia o longo percurso todos os dias: boleia, comboio, metro. Duas vezes por dia. Era duro, mas aguentou a rotina até ao segundo ano da faculdade.

Na escola, especializou-se em ourivesaria. Na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, fez formação superior em conservação e restauro.

No mundo das artes, sentia-se um pouco deslocada. “Sempre me destaquei, espero que positivamente, porque era a menina ingénua. Era um mundo artístico, os meus colegas fumava, bebiam, eram artistas. Eu vinha de uma aldeia pequenina, destoava pela forma de vestir, era muito pequenina, muito feminina”, recorda.

Acredita que foi isso que a obrigou a fazer um esforço muito maior para obter os mesmos resultados. Levantava-se por volta das cinco da madrugada, regressava a Pipa pelas 22 horas. A azáfama, confessa, ajudou-a a tornar-se organizada e a aproveitar muito bem o tempo.

Criou uma coleção inspirada nos tempos de infância na aldeia de Pipa

Fazia o que queria, apesar das reticências colocadas pelo pai e pela família, que preferiam vê-la seguir uma carreira profissional mais segura. Acabou por conseguir convencê-los a deixarem-na mudar-se para Lisboa. Terminavam as longas viagens.

Aliou um trabalho de venda numa ourivesaria aos estudos, até começar efetivamente a restaurar peças. O currículo, enriqueceu-o com especialidade em azulejos, estuque e pintura mural. Tudo aptidões que, sem saber, juntas viriam a dar muito jeito.

O momento de criar

Explica que sempre gostou de criar. Fazia jóias, colares, alianças para os amigos. Os pedidos começaram a tornar-se mais comuns. Por essa altura, ainda mantinha dois empregos distintos nas duas áreas, até que decidiu dedicar-se apenas ao restauro. A vontade de criar nunca desapareceu.

A grande ideia surgiu no início de 2019, como forma de combinar as duas grandes paixões. A marca de joalharia em nome próprio seria uma extensão sua em forma de jóias, com uma história, uma ideia, um propósito.

“Crio peças de raiz, desenho e executo do zero. Em quase todas uso técnicas e materiais que uso no restauro: a folha de ouro, o azulejo que é sempre feito à mão, o estuque. Torna-a numa joalharia mais contemporânea no que diz respeito às técnicas, mas também muito antiga dada a visão estética de cada peça”, explica.

Prestes a casar, decidiu criar todas as peças, suas, do marido, das damas de honor. Criou os exemplares e foi partilhando tudo no Instagram. Se vendesse, vendia. Senão, iriam ser igualmente valiosas no dia da cerimónia.

Os pedidos e as mensagens começaram a chegar, até que esbarrou num problema. Sem capacidade para comprar materiais em volumes grandes e produzir peças para ter em stock, tinha que repetir todo o processo a cada pedido. “Não consigo ter prata para fazer cinco brincos. Invisto logo tudo o que recebo”.

Todas as peças têm uma história

Com maior ou menor dificuldade, Marta frisa que nunca abdica da razão de ser de todas as jóias que lhe saem da cabeça (e das mãos). “Se me pedem umas alianças, tenho que saber a história da pessoa. Quero sempre por um bocadinho delas em cada coisa que faço. Nem que seja só para mim, mas todas as peças têm isso.”

Assim tem sido. A primeira coleção que lançou inspirou-se na avó. A vida na aldeia deu origem a outra, mais assente em motivos naturais. Seguiu-se a Inocência, assente em “peças mais simples” para contrastar com as restantes, mais elaboradas, assente na sua própria “inocência de quando era mais nova”. E há também uma coleção que usa apenas as técnicas da conservação e restauro.

Perante a possibilidade de conquistar o prémio final do New Talent NiT Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mostra-se entusiasmada, mas despreocupada. “Quero conseguir ter um inventário de pessoas e assim seria mais fácil. Mas, independentemente de ganhar ou não, sei que o vou conseguir. Posso é demorar mais tempo, mas vou fazer o que quero.”

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