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Matilde Horta: a jovem ilustradora portuguesa que vende desenhos para todo o mundo

Uma das finalistas do concurso New Talent cresceu rodeada de arte. Agora, quer mostrar Portugal aos outros. Um país de cada vez.
Tem 26 anos e é uma das finalistas do New Talent.

Três postais com trajes típicos portugueses. O que poderia chamar a atenção a alguém em São Petersburgo, na Rússia? A verdade é que despertou o interesse e pode muito bem ter sido pelo traço cuidado, pormenorizado e criativo da jovem ilustradora Matilde Horta. Tem 26 anos e esta foi apenas a última das vendas internacionais dos trabalhos que realizou no último ano. Também já enviou criações para os Estados Unidos e Austrália, mais distantes, ou até Inglaterra, Ucrânia e Espanha, bem mais perto.

Postais, pins, calendários, sacos ou até simples prints, é isto que Matilde Horta tem disponível na página que há um ano criou no Etsy, um marketplace com artistas de todo mundo. “Podia ter um site, mas optei por mostrar o meu trabalho desta forma. Aqui é mais fácil as pessoas encontrarem-me. Não sou muito conhecida e esta é uma forma de chegar a mais pessoas”, explica à NiT uma das finalista do concurso New Talent NiT Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que pretende premiar o maior talento português com menos de 27 anos na área do lifestyle.

Matilde também revela os seus desenhos no Instagram. Desta forma consegue dar-se a conhecer, mas também é uma oportunidade de perceber melhor todo o mercado, onde pode evoluir e aperfeiçoar a criatividade e o estilo gráfico. É como ilustradora freelancer que trabalha neste momento. 

Desde setembro de 2019 que trabalha neste regime. Teve receio que a pandemia abrandasse os pedidos e os trabalhos, mas bem pelo contrário. “A nível prático não mudou nada. Só preciso de um computador. Para a captação de clientes, novas propostas e trabalhos até melhorou. Muitas empresas apostaram no digital e nas redes sociais com muito trabalho na parte de ilustração.”

O percurso de Matilde Horta nem sempre foi na ilustração, se bem que os desenhos e passagem de ideias para o papel sempre fizeram parte da sua vida. O pai é arquiteto e recorda-se de em miúda entrar pelo atelier da casa em Penafiel, de onde é natural, e ajudar, ou talvez não muito, a desenhar casas e fazer plantas. Já a mãe, que é designer de moda, também não se livrava desta ajuda.

“A minha mãe tinha uma loja de roupa. Lembro-me que ia para lá, pegava em caixotes, fazia casinhas, desenhava, pintava e fazia muitas brincadeiras.” Da família sempre teve o apoio para seguir o que gostava e acredita que é daí que vem também essa paixão.

“Sempre estive rodeada por um meio visual e estético, o que me influenciou a seguir, inconscientemente, este caminho.” Com os desenhos que fazia em todo o lado, muitos lhe diziam, ainda em pequena, que ia ser pintora.

Os postais que já correram mundo.

“Na altura não tinha nada essa ideia. Dizia que queria ser cientista. Imaginava muitas coisas dentro da minha cabeça, mas nunca pensava em algo mais estético. Gostava de inventar coisas, de fazer livros, mapas e representar através do desenho. O conteúdo ia na minha cabeça. depois colava e pintava. Dava forma às ideias.”

Claro que no ciclo eram as aulas de EVT eram as suas favoritas. Depois do secundário, seguir os estudos para artes foi algo intuitivo. “Era nesta área que tirava melhores notas. Tinha de ir para algo que gostasse e que não fosse chato.”

Optou por design, que tirou na Universidade de Aveiro, isto depois de não seguir o pai em arquitetura por ser algo “muito técnico” e por procurar um curso mais volátil e plástico. Ainda assim, assume-o como “um curso de design para indecisos”.

“É algo geral, não muito específico. Claro que deu valências e para explorar tudo.” Olhando para trás, percebe que nesta fase deixou a estética de lado para se dedicar muito mais a uma resolução de problemas, na gestão de projetos e na sua representação.

Depois do curso, é em Lisboa que tem um primeiro trabalho na área do design e é também onde percebe que tem de ir mais longe. “Numa reunião, o chefe olhou para mim e estava a fazer desenhos, a rabiscar. Estava atenta, era um impulso para estar atenta. Fui chamada a atenção por fazer algo que gosto. Pensei que se calhar estava a ignorar isso e que precisava disso na minha vida.”

Não renovou o contrato e tirou um ano para perceber aquilo que realmente quer seguir. Faz uma pós-graduação em Ilustração e Animação digital na ESAD, Matosinhos, em 2017, e nunca mais deixou a área.

“Foi um ano bastante importante para explorar graficamente, perceber o que quero ser. Foi complicado exteriorizar o que tinha dentro de mim, senti que tinha de fazer as coisas bem, ganhar um estilo gráfico. Foi um período mais autoral de introspeção.”

Também faz calendários.

Começou a ir a feiras e exposições, a criar contactos, a ganhar clientes, a expor trabalhos, como foi o caso do Ó! Galeria, e até a ganhar prémios. Em 2019, foi uma das vencedoras do concurso Sardinha de Lisboa, da EGEAC. Criou a “Prato do Dia”, uma sardinha com plásticos para alertas para o lixo dos oceanos.

É num ambiente artístico que vive em casa, no Porto, uma espécie de cowork, como chama ao apartamento. Divide a casa com um um designer, uma pessoa da área do marketing e um videógrafo. “Sempre que é preciso ajudamo-nos.”

Apesar de gostar de trabalhar com outras pessoas, tem este dilema, uma vez que acredita que “ninguém me vai pagar para fazer ilustrações numa empresa”. Num mundo ideal, seria algo do género como está a fazer em casa, uma empresa que lhe permitisse esse ambiente de cowork.

É na portugalidade, em coisas antigas do País e nas tradições que vai buscar grande parte da inspiração para os trabalhos próprios que faz — e que vende depois na página de Etsy. É também esse um dos (muitos) projetos que gostava de realizar se fosse a vencedora dos New Talent.

“Gostava de apostar na cerâmica e tapeçaria ilustrados por mim que partam de técnicas e motivos portugueses com um toque gráfico meu. Quem sabe, talvez um tapete de Arraiolos, um lenço de viana ou uma cerâmica das Caldas?”

Está tudo à venda na página do Etsy.

 

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