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Lojas e marcas

Nesta oficina histórica de Lisboa fizeram-se joias para a realeza e para o Vaticano

O atelier da bicentenária Leitão & Irmão, no Chiado, passou a integrar o programa Lojas com História, cinco anos após a distinção da loja.

Jorge Leitão pertence à sexta geração de uma família que, há mais de 200 anos, se dedica à ourivesaria. Tal como aconteceu com cada um dos seus antecessores, o negócio nunca foi herdado, passado de geração em geração: era comprado pelo filho, e foi o que fez, então numa fase particularmente delicada. Era um miúdo com cerca de 20 anos quando, na sequência do processo revolucionário de abril de 1974, viu a empresa entrar em liquidação e decidiu tentar inverter o rumo.

“A situação causou-me uma tristeza tão grande, mas senti que podia voltar a pôr o negócio a funcionar. Cheguei cá por força disso, numa situação de autogestão e nunca pensei fazer o que fiz”, conta à NiT. O seu sonho, porém, era outro: queria navegar em barcos à vela e, por isso, tirou a formação de Patrão de Alto Mar.

Atualmente com 76 anos, agarrou numa casa que “começou por ser moderna” e que manteve essa tradição, confessa. Comprou novas matérias-primas, percebeu o que implicava a manufatura e a ourivesaria e dedicou-se à arte.

A caminho do bicentenário, há mais de 150 anos que a marca reúne no atelier da capital — no Chiado, junto à Igreja do Loreto — dezenas de artesãos qualificados. Cada um trabalha a sua especialidade, criando peças únicas como brincos, anéis ou presépios.

O portefólio impressiona pela dimensão histórica. A casa forneceu joias a várias famílias reais europeias, como a da rainha Dona Amélia, ao Vaticano e também à Federação Portuguesa de Futebol (incluindo a própria Taça de Portugal). Mais recentemente, produziu merchandising para a Jornada Mundial da Juventude.

Entre as criações que Jorge Leitão destaca, está a coroa de Nossa Senhora de Fátima, oferecida pelas mulheres de Portugal à Virgem Maria em 1942 e feita a partir de joias oferecidas ao santuário.

No Vaticano, esta peça é vista com reverência. O motivo? Em 1981, após sobreviver ao atentado em que foi atingido por uma bala, o Papa João Paulo II ofereceu o projétil ao Santuário de Fátima, por acreditar ter sido salvo por intervenção divina. Ao prepararem a coroa, os ourives perceberam que ela tinha um pequeno orifício, criado décadas antes, que curiosamente tinha o mesmo calibre da bala.

Com o passar dos anos, estes trabalhos valeram à marca várias distinções. Em 1872, foi nomeada Ourives da Casa Imperial do Brasil por D. Pedro II. Em 1887, recebeu de D. Luís I o título de Joalheiros da Coroa Portuguesa.

Face a este percurso, o atelier Leitão & Irmão foi distinguido com o selo do programa Loja com História, após deliberação da candidatura a 27 de novembro, pela Câmara Municipal de Lisboa. O objetivo é proteger o comércio local e reforçar o valor cultural do espaço. Esta distinção junta-se ao reconhecimento que o ponto de venda já detém há cinco anos.

Jorge Leitão está à frente da marca.

À NiT, explica que este novo título “tem um impacto muito forte”. “Enquadra aquilo que de Lisboa tem de diferente e o que faz mexer o maior motor da economia portuguesa, que neste caso são os estrangeiros. Não só os turistas, mas os residentes que procuram o que é distinto. Nenhum vem para visitar o Starbucks”, nota.

Ainda assim, e apesar dos passos dados — como a nomeação de Ricardo Preto para diretor criativo, em outubro —, afirma que “o trabalho ainda não chegou ao fim”. “Posso dizer, com base na minha experiência de mais de cinco décadas, que há sempre mais para fazer.”

Moderna desde o início

Criada por José Pinto Leitão, em 1822, começou como loja-oficina dedicada à produção de peças populares em ouro e filigrana. A data em que o fundador realizou e foi admitido no exame para ourives do ouro, na Confraria dos Ourives do Porto, remete para março desse ano.

“Esse senhor, se não estou em erro, é o meu tetravô”, nota Jorge, que afirma que o documento original se mantém guardado na Associação de Ourivesaria e Relojoaria do Norte. “Começou aí, com alguém que aprendeu a profissão entre 10 a 15 anos antes, no virar do século XVIII.”

Entre as várias conquistas, a chegada a Lisboa com uma grande oficina é um marco essencial, porque permitiu reunir “os bons joalheiros e os bons artistas de prata que, regra geral, trabalhavam em vãos de escadas”.

Uma parte da oficina.

É ainda nesse mesmo atelier que se mantém o ADN que, segundo o empresário, todos os joalheiros devem conservar. “A casa é única porque desenhamos as nossas peças. Não copiamos nada de ninguém, nem vendemos peças de outros nas nossas lojas. No lado económico, impedimos algumas importações.”

Jorge Leitão gosta de estar próximo dos trabalhadores, hoje pouco mais de 40. O que o move é observar o local “onde as peças nascem”. “Nas lojas, são lindas em qualquer sítio do mundo, mas não há nada como vê-las junto nas bancas ou junto aos cofres.”

O espaço divide-se em áreas distintas. Entre desenhos expostos, encontram-se a oficina de prata, a oficina principal e a zona dedicada à cravação de pedras.

O objetivo continua a ser equilibrar tradição e futuro. E, embora defenda que “o passado honra, não pesa”, sabe que a modernidade faz parte da identidade da Leitão & Irmão. “O posicionamento está cada vez mais próximo do que são as tendências, as peças modernas e até os clássicos de amanhã.”

Atualmente, todas as coleções da Leitão & Irmão podem ser descobertas no site da marca. Os preços podem chegar aos quatro mil euros.

Carregue na galeria para conhecer alguns dos bestsellers.

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