Lojas e marcas

O menino do cravo saltou das paredes para as T-shirts — por uma cidade sem carros

O Cravo Bravo quer transformar a mobilidade na capital. A moda é um dos novos passos para avançar com esta revolução.
Rita Prates e Ksenia Ashrafullina, do Lisboa Possível.

Em 2022, no 25 de abril, Ksenia Ashrafullina comprou cravos num mercado local para os colocar em tubos de escape, que segundo a própria simbolizam um dos piores males na cidade, como a poluição ou o espaço que os carros ocupam nas ruas. Pegou na câmara, fotografou o resultado e esperou que fosse o primeiro passo para a mudança.

“Notei que faltava algo mais humano. As imagens não tiveram a resposta que esperava porque era muito abstrata”, explica à NiT a russa de 32 anos, que se mudou para Portugal há cerca de uma década, apaixonada pelas línguas e pelo estilo de vida no sul da Europa.

Foi então que nasceu o menino do cravo, o desenho de um miúdo que estende o braço com a flor da revolução e a coloca num tubo de escape. No mesmo ano, Ksenia lançou um projeto focado na mobilidade urbana chamado Cravo Bravo. Após o primeiro desenho, gravado na Praça das Flores — com tinta de giz, que pode ser lavada — surgiu noutros pontos da cidade, num restaurante da Misericórdia e até nas salas das pessoas. Até descobriram um senhor que começou a pintá-lo na ilha da Madeira.

À medida que a fama cresceu, surgiram os pedidos de camisolas. Após o sucesso do primeiro lançamento, no verão de 2023, os novos modelos de T-shirts e sweatshirts (com opções infantis, pela primeira vez) chegaram no final de abril para levar o menino do cravo a mais partes da cidade.

“Precisávamos de apoio e era uma forma de ter fundos. As pessoas começaram a doar e, depois, queriam uma T-shirt. Era o passo mais óbvia”, justifica uma das mobilizadoras do coletivo Lisboa Possível. Fundado em 2021, o grupo luta por uma cidade onde se possa respirar, através da luta pela prioridade aos peões, às bicicletas ou aos transportes públicos.

“[O grupo] surgiu logo após as autárquicas, quando houve medo de perder a ciclovia Almirante Reis. Estava frustrada em casa porque via a cidade cheia de carros e foi a minha primeira casa em Lisboa, durante dois anos”, acrescenta. “Estamos numa altura em que muitas pessoas nem sabem o que é andar de bicicleta.”

A primeira coleção foi feita com peças usadas, através de doações ou encontradas nas lojas da Humana, que se tornou parceira da Cravo Bravo. “O trabalho de ir a várias lojas e escolher é muito demorado, até porque havia poucas opções masculinas.”

Outra parte dos modelos são fabricados em Guimarães numa empresa que “trabalha com grandes marcas de qualidade”, sublinha. Todos os modelos são feitos em pequenas quantidades e algodão 100 por cento orgânico, alinhando-se com a mensagem ambientalista do Lisboa Possível.

A pedonalização na travessa dos Mastros

“As pessoas mostram o que são através do que vestem”, acrescenta Ksenia, que continua a ser abordada por desconhecidos, a conhecer pessoas novas e a encontrar novos aliados. Embora tenha sido difícil fazer as primeiras vendas, agora é seguida por um grande grupo de pessoas que está atenta aos avanços.

Atualmente, uma das principais lutas do coletivo (que se define através dos verbos “caminhar”, “brincar”, “pedalar” e “respirar) está na reivindicação de que a rua e a travessa dos Mastros, na freguesia da Misericórdia, em Lisboa, se torne pedonal.

Ksenia quer mais miúdos a brincar na rua.

“Se só comermos salada uma vez por ano, não vamos ter o corpo que queremos. É o mesmo com o ativismo. Após conversas com moradores e comerciantes, juntámos forças para iniciativas mais regulares”, refere.

Em setembro, no Dia Europeu Sem Carros, relançaram a petição que já recolheu mais de 1100 assinatura e foi entregue à Assembleia Municipal de Lisboa. Feita a primeira audição com os deputados, por videochamada, o coletivo prepara-se agora para apresentar o projeto presencialmente.

“Temos outra petição para reduzir a velocidade de quilómetros por hora nas cidades, mas é díficil recolher assinaturas. As pessoas acham que a velocidade é algo bom porque não conseguem desconstruir 50 anos de propaganda automóvel. Há muita cegueira e pouca vontade.”

Mais miúdos a brincar na rua, ciclistas a deslocar-se sem medo e muitos peões. A ideia é que a pedonalização se torne um padrão. “Este tipo de iniciativa pode mexer na política e queremos continuar este processo”, conclui. E com muita gente a levar o menino do cravo ao peito.

As peças estão disponíveis no site da Cravo Bravo a partir dos 25€. Carregue na galeria para conhecer algumas das opções.

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