Imagine entrar num estúdio de tatuagens e, em vez da habitual estética escura, encontrar paredes cor-de-rosa, molduras coloridas, desenhos néons, uma mesa de xadrez e ainda uma banda sonora que vai desde Taylor Swift a Hannah Montana. É este o universo do Lonely Hearts Club Tattoo, o novo espaço de Torres Vedras que quer tornar a experiência de tatuar e fazer piercings mais descontraída, acolhedora e, sobretudo, pensada para as mulheres.
O estúdio abriu a 3 de agosto, pelas mãos de Mara Rose, nome artístico de Mara Caetano, de 28 anos, com um conceito bem definido: ser um lugar onde as “girls” possam entrar, sentar-se, conversar, rir e fazer uma tatuagem sem sentirem qualquer desconforto.
A ideia está presente em todos os detalhes. O rosa domina o espaço, a estética recupera referências dos anos 2000 e a música acompanha a mesma energia. Por ali passam também Britney Spears e Christina Aguilera, numa playlist que foge completamente à banda sonora mais convencional associada aos estúdios de tatuagem.
Mas o Lonely Hearts Club não quer ser apenas um cenário bonito para fotografias. A experiência é a parte essencial do conceito.
Um estúdio feito para as mulheres
Mara queria criar um espaço especificamente pensado para mulheres, não apenas na decoração, mas também na forma como são recebidas e acompanhadas durante todo o processo. A ideia surgiu de uma necessidade que a própria fundadora percebeu enquanto cliente.
Tatuada desde os 17 anos, durante muito tempo sentiu ansiedade quando ia a um estúdio. A experiência mudou quando começou a ser desenhada por uma mulher e compreendeu como um ambiente mais próximo e feminino pode fazer toda a diferença.
Foi aí que começou a imaginar um espaço diferente. “A ideia sempre foi criar um estúdio a pensar especificamente em mulheres”, explica. Mas há outra preocupação por detrás do conceito: criar um lugar inclusivo e acolhedor também para a comunidade LGBTQ+.
A tatuagem, para Mara, acaba por ser apenas uma parte da experiência. A forma como a pessoa se sente antes, durante e depois também conta. Por isso, habitualmente marca apenas duas clientes por dia, garantindo tempo para conversar, experimentar a colocação do desenho e fazer todo o processo sem pressa.
“Quero sempre que as pessoas sejam felizes”, explica à NIT. A intenção é que ninguém tenha receio de dizer que quer alterar o desenho, mudar a posição ou simplesmente pensar melhor nas suas escolhas.
Muito rosa, inspiração nos anos 2000 e pequenos detalhes
Quando Mara encontrou o espaço, as paredes eram brancas. Agora o resultado segue aquilo que a fundadora sempre imaginou para o projeto.
A entrada ganhou um sofá, desenhos da própria fundadora, espelhos e objetos que foi colecionando ao longo da carreira. Nas paredes convivem molduras de diferentes cores e formatos, ilustrações, pequenas peças decorativas e trabalhos de outros artistas. O grande graffiti de uma das paredes foi criado pelo artista local Mad Saints, como forma de levar a criatividade de Torres Vedras para dentro do estúdio.
A transformação aconteceu em apenas uma semana e meia, embora Mara já tivesse o conceito pensado há bastante tempo. Foi juntando mobiliário, objetos e peças à espera de encontrar o espaço certo.
O rosa é, naturalmente, protagonista. Está nas paredes, nos móveis, nos acessórios e até na máquina de tatuar de Mara. E a escolha da cor também tem uma dimensão pessoal.
“Agora ainda tenho um amor maior pela cor cor-de-rosa”, explica, assumindo a feminilidade como parte importante da identidade do estúdio.
Existe ainda uma mesa de xadrez que funciona como espaço de convívio. As peças foram construídas a partir de caps de sprays e pensadas para que clientes, acompanhantes ou quem simplesmente esteja à espera possa jogar uma partida.
Até a casa de banho segue a mesma lógica, com o rosa novamente em destaque e uma grande cereja como elemento decorativo.
A maquilhadora que virou tatuadora
Por trás deste universo cor-de-rosa está uma história profissional que começou noutra área criativa. Mara passou oito anos como maquilhadora, profissão que durante muito tempo pensou que iria exercer para sempre.
Quando começou a ter mais tempo livre, decidiu experimentar a tatuagem como hobby. Já tinha várias tatuagens e conversava frequentemente com a própria tatuadora, que a incentivou a aprender. Começou a treinar em casa, em pele falsa, e rapidamente percebeu que tinha encontrado algo que procurava há algum tempo.
“Eu amava maquilhagem, eu sempre pensava que era isso que eu ia fazer para sempre, mas sempre senti que se calhar faltava qualquer coisa”, conta à NIT. Assim, na tatuagem encontrou uma nova forma de expressão artística, com uma diferença fundamental: “Agora fica para sempre”.
Seguiram-se aprendizagem de procedimentos de segurança, prática acompanhada, cursos online e workshops com outros artistas. Começou a exercer profissionalmente em 2024, inicialmente no antigo espaço onde trabalhava como maquilhadora.
Foi aí que construiu a primeira carteira de clientes e percebeu que precisava de crescer. Queria um espaço maior, onde pudesse receber mais pessoas, integrar piercings, reunir outros estilos de tatuagem e, mais tarde, organizar workshops.
Agora, dois anos e meio depois de iniciar esta carreira, abriu finalmente o espaço que já imaginava há tanto tempo.
Momentos especiais podem ser tatuagens marcantes
Mara é especializada em fine line e micro-realismo a cores, duas das técnicas que mais definem o seu trabalho.
No micro-realismo gosta particularmente de fazer animais e frutas, embora já tenha trabalhado diferentes motivos. Nos fine lines, há um tipo de trabalho que assume um significado especial: transformar fotografias em tatuagens.
Podem ser retratos de familiares que já morreram, fotografias de viagens ou outras memórias importantes para quem está do outro lado da cadeira. É precisamente aí que a fundadora encontra o lado mais emocional da profissão.
“Para mim é muito mais do que tinta na pele”, reflete. A própria experiência de fazer uma nova tatuagem tornou-se, nos últimos anos, uma espécie de passo na sua confiança, e é essa sensação que reconhece também em muitas das suas clientes.
Uma equipa para diferentes estilos
Embora tenha nascido da visão de Mara, o Lonely Hearts Club foi pensado para reunir diferentes áreas e estilos. A equipa é composta pela fundadora e tatuadora, mas também por Marta Leiria, de 20 anos, especializada em tatuagens no estilo blackwork, e Francisco Sarzedas, de 28 anos, que é body piercer.
A escolha de Marta pretende trazer uma estética diferente ao espaço. “Embora seja para mulheres, há mulheres com estilos muito diferentes e procuro chegar a todos os gostos”, explica Mara.

Francisco é amigo de Mara há vários anos e já tinha trabalhado com ela no anterior estúdio. Com formação em piercing, passa agora a ter um espaço próprio dentro do novo projeto, permitindo que a oferta se estenda também a esta área.
Assim, o estúdio junta diferentes linguagens: dos desenhos delicados e coloridos de Mara ao blackwork de Marta, passando pelos piercings de Francisco.
Quanto custa tatuar ou fazer um piercing?
Os preços começam nos 50€ para fine line, o valor mínimo praticado no estúdio. No caso do micro-realismo a cores, os trabalhos situam-se normalmente entre os 95€ e os 130€, embora possam chegar aos 200€ em peças mais complexas. O tamanho e o desenho são os principais fatores que fazem variar o preço.
Para o blackwork de Marta, os valores começam nos 40€, sendo ajustados de acordo com o tamanho e a complexidade. Nesta fase, a tatuadora está também a construir portfólio, pelo que existem trabalhos com preços mais acessíveis.
Já os preços dos piercings começam nos 30€ e podem chegar aos 50€. O espaço disponibiliza ainda microdermais, que podem ser colocados em diferentes zonas do corpo.
O novo espaço foi pensado para ser mais do que um local onde se fazem tatuagens. Uma das razões que levaram Mara a procurar uma área maior foi precisamente a possibilidade de desenvolver workshops, que começam a ser preparados para o próximo mês.
Também estão previstos flash days e uma semana de promoções em outubro, alusiva ao Halloween, dando continuidade à ideia de criar momentos de comunidade dentro do estúdio.
Carregue na galeria para ver mais imagens do Lonely Hearts Club Tattoo, inspirado nos anos 2000.








