Recuamos até 1760 e toda a Rua Áurea, no coração de Lisboa, era destinada por decreto real aos ourives e joalheiros. Foi na mesma zona da Baixa pombalina que, em 1819, um mestre gravador abriu aquela que foi a primeira oficina de selos e carimbos do nosso País, mais tarde detentora do alvará da Casa Real portuguesa.
A história da E.E. de Sousa e Silva escreveu-se durante dois séculos até que, no ano passado, o antigo proprietário deu por si à procura da reforma e sem sucessores para ocupar o número 157. O negócio acabou mesmo por fechar portas, mas o edifício que ocupou resiste através de um novo capítulo.
Coube à marca portuguesa Portugal Jewels a missão de reerguer este espaço, reinaugurado esta quinta-feira, 21 de maio, devolvendo-lhe o propósito original. Com especial destaque para o artesanato em filigrana, os novos inquilinos juntam peças que dão um toque moderno à ourivesaria tradicional.
Esta é a segunda vez que a marca opta por restaurar espaços históricos na capital. Em maio de 2025, transformaram a histórica Barbearia Campos do Chiado, onde em tempos Fernando Pessoa cortava o cabelo, no primeiro ponto de venda físico do negócio, mantendo vários dos seus elementos.
Desta vez, a oportunidade surgiu através do antigo dono. “Como também somos uma empresa familiar, identificou-se connosco. Houve uma afinidade imediata”, começam por explicar à NiT Joana e Alexandre Gomes, os irmãos por detrás da marca. “Assim que vimos a loja, apaixonámo-nos por ela.”
O primeiro elemento que chamou a atenção foi a fachada “numa rua tão emblemática” da idade, ainda que tenha mudado ao longo destes 200 anos. Todos os painéis de vidro exteriores foram repintados à mão num estilo de época inspirado nos originais e fiel também ao desenho do início do século XX.
Toda a conceção do espaço, com cerca de 60 metros quadrados, foi concretizada pelo designer Ricardo Preto, que assina a sua primeira loja de joalharia. “Foi muito rápido a materializar o moodboard em que surgia o tecido de Chita de Alcobaça”, explicam, sobre o estampado do século XVIII que remete para as casas de campo e os enxovais portugueses.

Com uma base azul, a cor característica da Portugal Jewels, a loja conta ainda com pratos da Fiação Ratino e cestaria de vime tecida à mão sobre móveis de antiquários, que foram restaurados para receber a exposição de joias da marca, após ligeiros ajustes ou substituições nas prateleiras.
Atrás dos vidros, contam com a oferta alargada de peças de ouro 19,2 quilates, o chamado ouro português e, segundo os empresários, “um dos mais puros do mundo”. Destaca-se ainda a grande variedade de peças únicas, muitas delas com pérolas ou pedras preciosas, que brilham ainda mais graças ao charme histórico da nova morada.
“Em termos de layout, não alterámos nada. Fizemos uma adequação na parte elétrica e tivemos algumas questões de infiltração, mas não mexemos em paredes”, recorda Joana, sobre um processo que não demorou mais de um mês. “Os pilares da pedra pombalina estavam todos ocultos com expositores à frente e quisemos torná-los visíveis.”
“As lojas são relativamente próximas uma da outra. Embora estejam em zonas bastante diferentes, ficam a cerca de cinco minutos a pé”, continua. Desde logo, tiveram a preocupação de não replicar o espaço no Chiado: “Queríamos que houvesse um motivo para as pessoas visitarem as duas lojas.”
Já faturam quatro milhões por ano
Este passo acompanha o rápido crescimento da Portugal Jewels no mercado nacional e internacional. Nos últimos anos, destacaram-se por várias parcerias — como Ana Moura e Mimicat, que levou as peças à Eurovisão — assim como a TAP, a Gulbenkian e a Fundação Amália Rodrigues. Foi também a única marca no setor a representar Portugal na Expo 2025 em Osaka, no Japão.
Já nos últimos meses, a conquista que mais orgulha a dupla é a parceria com Bárbara Bandeira. Idealizaram com a cantora de 24 anos o vestido feito inteiramente de joias tradicionais portuguesas que a artista usou no videoclipe do tema “Marcha”. Criado por André Rodarts, pesa cerca de sete quilos e está avaliado em cerca de 90 mil euros.
Esta colaboração criativa tem marcado a nova era da artista portuguesa, sobretudo na promoção do mais recente disco, “Lusa: Ato II”, editado em maio. “Toda a visibilidade e a criatividade canalizada pela Bárbara, que nos continua a chamar para estes desafios, tem sido um ponto alto.”
Por detrás deste sucesso, está uma empresa que emprega cerca de 30 pessoas. Em 2025, a Portugal Jewels fechou o ano com um volume de negócios de cerca de quatro milhões de euros, o que representa um crescimento entre 50 a 60 por cento face aos 12 meses anteriores. “A nossa expectativa, para este ano, é continuar a crescer”, diz Joana.
Além disso, já estão a vender para mais de 50 países, embora Portugal, França e EUA sejam os principais mercados, representando 80 por cento das vendas. A internacionalização continua a ser uma das prioridades de uma marca cujo nome há muito começou a ser gravado fora de Gondomar, onde está a sede da empresa e todas as oficinas.
A história da marca
Em 1955, o avô de Joana e Alexandre, José Martins Barbosa, criou “uma das maiores oficinas de Gondomar”, ainda em funcionamento e gerida por um filho do fundador. Após vários anos a trabalhar em consultoria, os dois engenheiros — parte da terceira geração deste negócio familiar, onde se contam já 17 netos — decidiram continuar com este legado, em 2017.
“Nesta altura, identificámos uma oportunidade de preencher uma lacuna no setor, porque não havia marcas a trabalhar verdadeiramente a ourivesaria tradicional portuguesa e a contar as suas histórias”, confessa Joana.
A marca teve origem na empresa fundada pela mãe, a professora universitária Rosa Amélia Barbosa, em 1990. ”Como em muitos negócios familiares, não havia uma marca associada”, acrescenta.

Se, numa fase inicial, o crescimento da Portugal Jewels foi tímido, em 2019 começou o boom da marca. A dupla destaca a colaboração que fizeram com Ana Moura como “um momento de viragem” de um projeto ainda pequeno. “Abrimos, pela primeira vez, o processo criativo a pessoas de fora da marca e foi muito gratificante”, admite Alexandre.
Desde então, não pararam de trabalhar “com a curadoria do melhor que se faz neste setor em Portugal” e continuaram a procurar sair da zona de conforto.
A par da abertura de mais duas lojas em Portugal ainda este ano — mais uma em Lisboa e outra no Porto —, em 2017 têm o objeto de inaugurar um ponto de venda fora de Portugal. “Estamos a pensar numa pop up de dois ou três meses para testar o mercado. Talvez em Paris”, revelam.
Além da loja no Largo do Chiado e na Rua Áurea, as peças da Portugal Jewels estão disponíveis no site da marca. Os preços variam entre os 35€ e os 5 mil euros.
Carregue na galeria para ver mais imagens da loja e conhecer melhor o novo espaço. As fotografias são de Francisco Nogueira.







