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O presépio de Natal gigante mais famoso do País já chegou às Amoreiras

A NiT falou com Cláudia Perdigão, a designer que levou o conceito para o centro comercial há mais de dez anos.
Cláudia Perdigão, a designer, está em Portugal há 34 anos.

Todos os anos, o ritual repete-se. No final de outubro, centenas de shoppings por este País fora começam a encher-se aos poucos de pinheiros, luzes que piscam, bolas coloridas, pais natais com barbas farfalhudas e mensagens que avisam os seus visitantes que o Natal está mesmo chegar. Quem gosta da época mais festiva do ano sente logo aquele formigueiro de emoção mal se depara com a azáfama decorativa e o som das músicas natalícias a sair das colunas. Quem a adora, faz mesmo questão de visitar o icónico presépio das Amoreiras.

Ao longo da escadaria principal que preenche dois pisos do centro comercial, um presépio que atinge cerca de dez metros de altura conta a história da natividade com um autêntico puzzle de casinhas, lagos, moinhos, pinheirinhos e bonecos mecânicos em miniatura, tudo montado milimetricamente sob as instruções de Cláudia Perdigão, de 58 anos. Foi esta designer que, mais uma vez, imaginou e desenvolveu a árvore gigante e o presépio do centro este ano, que ficaram oficialmente prontos esta segunda-feira, 26 de outubro, e cujas luzes vão ser acesas no primeiro dia de novembro.

Num ano tão diferente, também o tema se afastou do normal. Em vez das típicas paisagens nevadas, Cláudia teve a ideia de contar a história verdadeira do nascimento do menino Jesus, com casas tipicamente árabes, paisagens mais áridas da Palestina e um projeto que quer representar a cidade de Belém como ela era. “As pessoas vão notar que é diferente. Este ano contamos uma história que começa em baixo e acaba em cima”, explica à NiT a designer.

Se começar a subir a escadaria pelo primeiro degrau, vai ver José a puxar um burrinho que carrega Maria grávida, enquanto sobem a Galileia para fazer o recenseamento em Belém, onde ele tinha nascido. “Como a cidade de Belém fica a 770 metros de altura, é perfeito nas Amoreiras, porque está numa escadaria”, continua Cláudia. Cada degrau tem um novo detalhe da história, que é contada em várias placas espalhadas nas laterais do presépio e que acaba lá em cima, com a sagrada família na cena do nascimento. É a primeira vez que os elementos são representados mais do que uma vez.

Cláudia e as decorações de Natal

Em 27 anos de trabalho, Cláudia Perdigão afirma com orgulho que nunca repetiu uma decoração de Natal. Nascida no Rio de Janeiro, viveu alguns anos da sua infância com a família em Portugal por causa do pai, que era piloto na TAP. Em 1974 regressaram para o Brasil e foi lá que se licenciou em Comunicação Visual na Faculdade da Cidade. Numa viagem aos Estados Unidos da América, conheceu o marido, belga e piloto na TAP como o seu pai. Como tinha família portuguesa, concordou em vir morar com Cláudia para o nosso País há 34 anos, e por cá ficaram até hoje.

A designer explica que sempre teve uma forte ligação às artes e começou desde nova a fazer decorações. Primeiro eram as montras e vitrines e mais tarde vieram as decorações de Natal, que desenvolveu cá pela primeira vez no Cascaishopping, em 1992. A sua carreira em Portugal cresceu rapidamente e passou por todos os grupos de shoppings nacionais, chegando mesmo a decorar 30 centros comerciais num único mês, sempre com decorações exclusivas e que saem inteiramente da sua cabeça, apoiada por equipas que podiam chegar a 90 pessoas para montar toda a operação.

Quando começou nas Amoreiras há mais de 20 anos, desenhava a decoração da fachada, os aéreos, a árvore de Natal gigante, as ilhas de Pai Natal, os cenários, e aquilo que define como “cenografia pesada”. “Coisas que os portugueses nunca tinham visto, fui totalmente pioneira em decorações de Natal neste País”, acrescenta. 

No seu armazém com mais de 3500 metros quadrados, acumulou ao longo dos anos coisas que nunca mais acabam. Apesar de não repetir um único plano, estas peças vão sendo reaproveitadas e a designer já conta com um acervo decorativo enorme e incomensurável, que inclui árvores de Natal de dois, cinco, 12, ou 15 metros, além de stock de tempos que já lá vão, quando os centros ainda encomendavam trabalhos temáticos para o Dia dos Namorados, Dia da Mãe e tantos outros que deixaram de receber investimento.

presépio
As casas de Belém.

Quando começaram os presépios?

Há cerca de 12 anos começou a fazer — para os centros comerciais — presépios fixos com casinhas típicas portuguesas. Procurava artesãos nacionais e misturava as peças deles com as coisas dela, colocando moinhos que rodavam e imagens em barro. Com o passar do tempo, foi incluindo também os famosos bonecos mecânicos. Nessa altura, o presépio das Amoreiras só ocupava os primeiros degraus até ao patamar central e a cada ano ia conquistando e descendo um pouco mais aquela escada. Hoje, ocupa a escadaria principal inteira. 

“É um grande puzzle”, revela Cláudia. São precisas duas madrugadas inteiras e 11 pessoas para juntar todas as peças, descarregadas depois de os clientes saírem pelas 23 horas de sábado de um camião TIR de 14 metros, lotado de cima abaixo com os materiais, que são levados em várias viagens para cá e para lá até à praça central. Depois, é preciso colocar a base que dá estrutura a tudo, composta por vários cubos de madeira que são montados sobre os degraus para nivelar o presépio gigante.

Por cima da base são postas as casinhas, seguindo plantas com uma numeração que indica o lugar de cada uma. Tudo tem a sua ordem — os bonecos mecânicos, por exemplo, só entram no fim e é Cláudia quem dá os toques finais, ajeita pedacinhos de musgo e muda pedrinhas de sítio. “Sou uma pessoa muito minuciosa. Fico lá de domingo para segunda só a pôr pequenos detalhes, realizo-me a curtir aquele momento.”

Na segunda madrugada, a dos acertos de detalhes, são também colocadas as luzes, que só serão ligadas alguns dias mais tarde, quando tiverem a certeza de que está tudo a funcionar corretamente. “Este meu trabalho é muito focado e concentrado em mim. Por mais que eu tenha pessoas que trabalham comigo há muitos anos, aquilo é uma coisa que vem do meu interior e da minha criatividade. As pessoas só conseguem ver quando já está pronto”, conta a designer, que monta sempre uma réplica no armazém antes de ir para as Amoreiras, para ter a certeza de que não há uma única falha.

Madeira, cortiça, fibra de vidro, tapetes de natal e papel de pedra são alguns dos materiais que tem de unir para dar forma ao presépio. Já os bonecos mecânicos são todos encomendados de fábricas específicas, às vezes com pedidos feitos especialmente para um ou outro projeto, como a Virgem Maria em cima do burrinho, para o presépio deste ano.

Um ano diferente

“Há muitas diferenças este ano. É importante porque o mundo está a abrir os olhos e a ver que realmente somos uma globalização geral. Não adianta ser pobre ou rico, o problema que estamos a viver é para todas raças, todas as cores, é global. Temos de olhar com amor uns para os outros e por isso mesmo pensei: ‘porque não contar a verdadeira história?'”.

O presépio que se inspirou na cidade real de Belém ficou oficialmente pronto na madrugada desta segunda-feira, 26 de outubro, na escadaria central do Amoreiras Shopping Center. A data oficial para ligar as luzes chega já no próximo domingo, 1 de novembro, para encher o centro de espírito natalício mais um ano, num momento em que estamos todos, mais do que nunca, a precisar de um bocadinho de magia.

A seguir, carregue na galeria para ver algumas imagens do presépio.

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