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Quem é o Quim das Esfregonas, o homem que deixa os portugueses felizes

De repente, não há quem não queira ter em casa uma das suas esfregonas. A NiT foi desvendar o fenómeno com Joaquim Vilar.
Está tudo louco com a esfregona do Quim

“Eu já tive uma esfregona. Entretanto ela ficou para o ex-marido. Agora quero uma nova para mim (…) Sinto muito a falta dela”, revela uma cliente saudosa do objeto, nem tanto do antigo companheiro. O relato não é único. “Eu separei-me mas a esfregona veio comigo”, lê-se num dos muitos comentários na página de Joaquim Vilar.

O nome talvez não lhe diga nada, mas a coisa muda de figura se falarmos do Quim das Esfregonas, nome artístico do vendedor de 48 anos que tomou os grupos de Facebook de assalto — tudo graças a uma esfregona à qual todos gabam a eficácia.

O fenómeno vive do boca em boca, das recomendações de quem já experimentou e gostou. As redes sociais servem de rastilho e o Quim vai atrás. Nem sempre foi assim.

Habituado à ginástica oratória das vendas em feiras e exposições, demorou algum tempo até descobrir o potencial das redes sociais, mas assim que o fez, o cenário mudou. Vídeos com mais de 300 mil visualizações, uma página com mais de 27 mil fãs e, ainda mais vital, um nome famoso em qualquer recanto da Internet onde mulheres e mães se juntam.

Quanto mais se fala com Joaquim Silva, mais difícil é traçar a origem do fenómeno. Será a esfregona realmente fantástica? Será dom do vendedor? Ou uma tempestade perfeita de circunstâncias?

Quem é Quim?

Está perfeitamente à vontade de esfregona na mão. Vende-a há mais de 20 anos, tempo maioritariamente passado a viajar pelo País, de feira em feira. “Vendia a tal ‘banha da cobra’, como costumam apelidar os clientes”, confessa bem-disposto à NiT o antigo carpinteiro, forçado a deixar a profissão por causa de um acidente.

Começou a trabalhar por conta de outros. Foi vendedor comissionista desta mesma esfregona, até que a empresa fechou. “Comecei a trabalhar sozinho e a fazer compras da esfregona só para mim”, explica.

A carreira como vendedor prosseguiu até à inevitável chegada ao Facebook, onde a página do Quim das Esfregonas nasceu, sem aspirações megalómanas. A ideia era apenas a de publicitar onde iria estar com o seu stand. De repente, o cenário começou a mudar.

“Não ligava muito à página até que os clientes começaram eles próprios a colocar fotografias de agradecimento”, recorda. Quim pergunta-nos se reparámos em algo de particular no mural de críticas da página. Falava do padrão que se torna óbvio ao fim de 10 segundos: quase todas as imagens partilhadas incluem dois elementos, um animal de estimação e a famosa esfregona.

O Mercedes das esfregonas

Pode não parecer, mas o modelo, segundo Joaquim Vale, existe há 30 anos. Começou a ser vendida nas Televendas, foi evoluindo e hoje é uma estrela nas suas mãos.

Assim que se lançou por conta própria, tentou perceber se era capaz de a produzir sozinho. Rapidamente chegou à conclusão de que isso seria impossível. “Não há hipótese de as fazer em Portugal. Eu tentei, mas usa muitas pecinhas, muitas coisas pequeninas”, justifica.

A única alternativa passava por encontrar alguém que a fabricasse para si e encontrou a resposta na China. “O know how está todo lá e continua a ser mais barato fazer lá do que aqui”, conclui, acrescentando que “só lá é que elas são feitas” e que quem disser as suas não são “chinesices”, “é um mentiroso”.

Sem patente ou exclusividade, o que é que a torna melhor ou diferente dos modelos semelhantes vendidos pela concorrência? “Ponto assente é que toda a gente fala bem do Quim e da esfregona do Quim. Pode vir o Manel, o António, mas a minha é a melhor de todas. Ninguém compra uma esfregona ao preço que eu compro. Sempre me preocupei em ter um produto duradouro, que ao fim de três e quatro anos ainda funciona. É um dos segredos das muitas vendas, ter um produto bom e bem trabalhado”.

A longevidade, explica, pode ser ainda maior. Explica que há clientes com a mesma esfregona há seis e sete anos, que ainda não gastaram as três recargas que traz de origem. “A patente não existe, mas existe o nome Quim das Esfregonas”, contrapõe.

Confiante no seu produto, é igualmente exigente no que toca aos seus clientes. “A minha esfregona não é para todos”, frisa, “é para quem gosta de limpeza”. E diz que tem um dom para “perceber logo quem é que gosta de limpar”.

Daí até à descrição do perfil do seu cliente, vai um curtíssimo passo: “Quem gosta de limpeza não deixa um cabelo para trás. A senhora que não vai dormir sem limpar a cozinha e a casa de banho, gosta muito da minha esfregona. Quem não gosta de limpar, não tira uma cadeira do sítio, não gosta de coisa nenhuma. Passa uma badalhoca [nome habitualmente dado às esfregonas tradicionais] de qualquer maneira e está feito”.

Teorias? Quim tem o bolso cheio delas. Acredita que os homens, mais adeptos dos aspiradores, se adaptam mais facilmente aos movimentos que a sua esfregona exige. Mesmo nas mulheres, “cada uma limpa a casa à sua maneira”, o que influencia a penetração do produto, que até nem é muito caro: 28€ com três recargas. Caso precise de mais, são vendidas a 12€ o par.

À vista desarmada, não há segredos. A recarga esponjosa na ponta — que garante a absorção de líquidos e a recolha de pó e pêlos — pode ser enxaguada com o uso de um puxador manual e não há muito mais geringonças escondidas.

“Já reparou que os taxistas andam todos com Mercedes”, questiona de rompante depois de uma breve pausa silenciosa. Prossegue o raciocínio: “Eu para trabalhar com a minha página [do Facebook] tive que comprar um iPhone para ter um bom telemóvel. O mecânico também não vai a qualquer supermercado comprar peças”.

“A sua esfregona é o Mercedes das esfregonas?”, questionámos. “Já lhe chamaram o Ferrari das esfregonas, tanta coisa…”.

De olho nos cãezinhos

De volta ao mural de críticas e à avalanche de fotografias. Elas são mais do que muitas, com os animais de estimação a posarem sempre ao lado da famosa esfregona. Foi um pouco por acaso que Joaquim esbarrou com este público-alvo, aparentemente maravilhado pela capacidade do produto em limpar pêlos de cães e gatos.

“Há sempre quem tenha mais gosto nos cães do que na própria esfregona. Começaram a mandar essas fotos de agradecimento e eu comecei a partilhar. Percebi que funcionava e fiz anúncios com isso. Lá vai toda a gente ver a foto do cão: ‘Ai que cão bonito’. E acabam a olhar para a esfregona”, explica. Assim que arrancou com essa estratégia, “foi uma loucura”.

A dupla imbatível: esfregonas e cães

A esfregona do Quim também é um fenómeno nos diferentes grupos de Facebook maioritariamente frequentados por mulheres e mães. A equação de Joaquim Vilar é simples: “Uma mãe que tenha um bebé e um cão. O bebé vai começar a gatinhar, ela quer o chão limpo. Pronto.”

O segredo diz ser esse, o de chegar ao cliente certo com a abordagem certa. Garante que é melhor do que tentar chegar a muita gente, muito depressa. “Eu chego a dar-me ao luxo de olhar para uma mulher e perceber se ela limpa a casa ou não. Bastam-me um par de perguntas”, afiança. Depois, explica, não sabem usar o produto, nem sequer o queriam e só compram porque a amiga disse que era bom. Mesmo assim, o sucesso assenta na fama de boca em boca.

“Neste último mês tornei-me famoso. Todas as mães que pertencem a esses grupos conhecem o Quim das Esfregonas, são minhas fãs”, confessa.

Esfregona para quem pode, não para quem quer

A qualquer feira que vá, o painel no stand tem o seguinte aviso: “Se não prestar atenção à demonstação, por favor não compre”. A abordagem parece arriscada, mas também bem-sucedida. Garante que a sua principal preocupação não é o de vender a esfregona — é tentar perceber se o potencial cliente a vai usar. “Não é para que faça o que quiser com ela, é para fazer o que quiser mas à minha maneira, para ter a certeza de que fica satisfeito”, teoriza, embora admita que as suas estratégias possam ser “um bocado confusas”.

Sabe, contudo, que “o sucesso parte do feedback” e Joaquim Vale quer controlar todos os detalhes. Para que as críticas não sejam negativas, quer certificar-se de que a esfregona chega às mãos ideias e que estas sabem todos os truques para tirar partido dela.

Com a maioria das vendas a terem origem digital, essa estratégia encontrava uma barreira que não existia nas feiras, onde Quim podia dar todas as lições pessoalmente. Foi assim que surgiram os vídeos tutoriais, alguns com mais de 300 mil visualizações. O protagonista é o próprio, em diferentes cenários, numa edição caseira que procura simplificar o uso e as vantagens da esfregona.

Ciente do risco que corre com a massificação, teme que a euforia possa resultar numa compra desenfreada, mal-sucedida e com direito a críticas negativas. “Em vez de ser o meu público-alvo a comprar, compra toda a gente, e se a senhora errada comprar…”, pondera.

“Por isso é que não vou para a festa do Avante vender chá sem açúcar, ninguém o quer. Se eu lidar só com o meu público, com a senhora que tem crianças e cãezinhos, elas vão comprar e adorar.”

Tudo isto é muito bonito, mas quantas esfregonas é que já vendeu? Joaquim hesita, recua e não deixa cair qualquer número. “Eu não gosto de falar sobre isso, não quero publicidade, não quero nada”, confessa.

Apesar de revelar ter períodos de picos de venda, intercalados com alturas onde as vendas são residuais, diz que também não quer “enriquecer a vender esfregonas”.

O recente sucesso nas redes sociais é bem-vindo, claro, até porque com as feiras e exposições canceladas indefinidamente devido à pandemia, o caso poderia ser negro: “Se não fosse o Facebook, morria à fome”.

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