O estudo da psicologia da maternidade levou Kate King a sentir-se alertada para a solidão que muitas mães sentem. Enquanto “há 100 anos tinham as tias e as avós por perto”, hoje em dia a realidade é outra e muitas delas sentem-se isoladas após o nascimento dos primeiros filhos.
Esta realidade levou a norte-americana a criar um projeto que, mais do que uma loja, fosse uma comunidade. “Dizem que, hoje em dia, tudo funciona online, mas sentia o contrário. Estamos fartos de comprar online. Não há humanismo”, começa por explicar à NiT.
Após vários espaços temporários, concretizou esta ideia com a inauguração da Arco Preloved, um ponto de venda na Marina de Lagos, no Algarve, que junta peças de roupa em segunda mão, livros e brinquedos. Vende artigos infantis, mas é dedicado às mães que têm ali um ponto de encontro.
Kate deixou o estado da California, onde nasceu, há quase 20 anos. Começou por ir viver para Angola com o parceiro da altura, de origem portuguesa, e a partir daí viveu em vários pontos do globo. Nunca mais voltou a fixar-se nos EUA e viu a sua família a espalhar-se também pelo mundo.
“Estive muitos anos na Suécia, tive os meus filhos lá e foi quando comecei a pensar na psicologia da mãe”, recorda. Apesar dos seus estudos na área ambiental, com mestrado em ciências ambientais, sentiu-se cansada do trabalho da altura, onde o impacto era “mais abstrato”, e começou a idealizar outras formas de ajudar.
Quando chegou a pandemia, veio com a família para o Algarve para dar início a um projeto que descreve como “um startup puro”. “Convidei umas amigas para fazer beta testing, melhorei e conceito e fui criando estas pop ups para me estabelecer. Criei a minha clientela.”
Há uns meses, com milhares de mulheres atentas, teve a oportunidade de levar o conceito para um espaço permanente. Abriu portas no início de janeiro com uma programação para todas as mulheres.
Kate explica que não trabalha com fornecedores. “Trabalho a nível local porque, muitas vezes, estas lojas vão a armazéns enormes, em Portugal ou Itália, compram em massa e enviam para aqui, onde vendem com uma margem de lucro enorme. Isso não é o mais importante.”
A Arco funciona através de venda por consignação (quando uma pessoa entrega um bem para que outra venda), sendo que mais de 90 por cento dos consignantes são mães da região. “Lavam as roupas, selecionam as melhores e faço uma seleção do que consigo vender. Quando as outras clientes vêm, sentem que há mais credibilidade.”
O nome reflete esta circularidade. “Um arco é algo que começa e acaba na terra. Há esse sibmolismo, de voltar. Tal como os artigos de uma mãe voltam para a loja e passam para as mãos de outra.”

Desde o primeiro dia, soube que queria ter mais do que roupa. Juntou os livros, cuja oferta, ao contrário do que viu lá fora, ainda era escassa em Portugal, e brinquedos de tecido ou em madeira. “Como sou mãe de pequenos, sei que queremos sempre acrescentar um livrinho”, confessa.
Com cerca de 35 metros quadrados, o ponto de venda reflete um “look and feel” muito específicos, nas palavras de Kate. A sensação é de calma, pois a sua prioridade é o bem-estar das mães, conseguido através de muita madeira e de tons como terracotta, bege e amarelo.
“Sou uma pessoa sociável. Quando criei o conceito da Arco, convidei as minhas amigas todas. Funcionou rapidamente e percebemos que as mães querem e precisam de encontrar-se”, continua, acrescentando que rapidamente surgiu a necessidade de ter storytimes ou workshops.
A pensar nisto, criou um o Arco Collective, uma iniciativa comunitária, gerida por uma amiga de Kate, que está repleto de encontros de mães e bebés, aulas de ioga e até jantares, muitas vezes com o objetivo de integrar mulheres estrangeiras. Chegou a receber uma professora para dar aulas de português. Pode saber mais sobre as iniciativas online.
“Precisamos de crescer, estabelecer o negócio e continuar a trazer novos projetos para a comunidade. Queremos que todas se conheçam, participem e sintam bem-vindas”, conclui. E, no futuro, talvez possa abrir mais pontos da marca.
Carregue na galeria para ver mais imagens da loja e conhecer melhor o conceito. As fotografias são de Nikola Senne.

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