Lojas e marcas

Sara é surda, lançou uma marca de joalharia e quer provar que nada é impossível

Sofreu de bullying durante a infância. Na adolescência, tapava o aparelho auditivo com o cabelo. Agora, lançou a Hoyara Jewellery.
Tem 26 anos.

Durante a adolescência, tinha vergonha de usar aparelhos auditivos e deixava o cabelo solto para ninguém os ver. Sara Inês Serafim, de 26 anos, sofreu de bullying e discriminação por ter nascido com surdez profunda bilateral.

“Diziam que o meu lugar era entre os surdos, usavam-me por pensarem que era demasiado ingénua e que não tinha capacidades. Fui muitas vezes alvo de chantagens psicológicas, pois sabiam como era importante para mim ser aceite nos grupos“, conta em entrevista à NiT. “Nesses tempos eu sofri mesmo, mas sempre fui pessoa de dar a volta por cima e tentar ignorar aqueles que me faziam sentir mal.”

O seu refúgio era em casa, onde vivia rodeada de pessoas que a amavam. Conviver com os familiares ouvintes ajudou-a a não se focar apenas na língua gestual, o que a levou a esforçar-se para desenvolver a oralidade. No entanto, quando entrou na escola primária ainda não falava. Era a mãe quem lhe servia de intérprete — traduziu-lhe todas as aulas desde o ensino básico até ao nono ano.

“Durante a primária também deu aulas de língua gestual aos outros meninos para que pudessem comunicar comigo mais facilmente e, assim, eu me sentisse integrada”, recorda. Foi este apoio incondicional que a levou a lançar um projeto especial para o Dia da Mãe de 2021. Através da marca de joalharia que lançou em 2017 — a Hoyara Jewellery — convidou quatro famílias que vão falar sobre as suas histórias e relações.

 
 
 
 
 
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Nesta iniciativa, também Sara se vai juntar à mãe para contar como a ajudou a ultrapassar as dificuldades da surdez. “Queria dar a conhecer deste modo a minha história, também para motivar pessoas que tenham passado ou estejam a passar por algo semelhante”, acrescenta.

No verão de 2017, esteve durante um mês no Algarve e visitava todos os dias a Praia da Coelha. Foi lá que se apaixonou pelo mar e por tudo o que o rodeia. Começou a apanhar conchas e búzios e teve a ideia de lançar uma marca de joalharia que se focasse nas temáticas do oceano, nas texturas da natureza, na terra e nas flores.

A Hoyara Jewellery foi criada nesse mesmo ano no Porto, com um nome que resulta da junção entre a planta Hoya Carnosa com o seu primeiro nome — Sara. Todas as peças são produzidas em prata e ouro de 24 quilates, com preços que variam entre os 35€ e os 120€. Estão à venda através das contas de Facebook e Instagram da marca. No entanto, também é possível fazer pedidos exclusivos e personalizados, feitos por encomenda e sob orçamento.

Sara Inês Serafim começou a estudar artes no 10.ª ano. Mais tarde, inscreveu-se em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, mas acabou por se formar em Design de Interiores na ESAD. Ao mesmo tempo, foi sempre estudando joalharia na Escola de Joalharia Alquimia-Lab, no Porto.

Quando estava no 11.º ano, começou a assumir a sua diferença. “Fui-me libertando aos poucos e poucos”, recorda. “Foi uma grande conquista para mim porque finalmente tinha ultrapassado aquele obstáculo. A minha família e alguns amigos meus sabem falar língua gestual, mas sinceramente eu até prefiro que falem normalmente comigo para me habituar e para conseguir ser mais independente com os outros.”

Durante a faculdade, apesar de ter um intérprete em algumas cadeiras, a vida não foi fácil. A surdez, explica, tem a “particularidade de ser invisível” e embora os professores soubessem que não os podia ouvir, por vezes esqueciam-se. Sentiu-se perdida.

 
 
 
 
 
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“Muitas vezes passava por desinteressada. É muito duro para um surdo ter de estar sempre a lembrar às pessoas que não podem falar de costas porque precisamos de fazer leitura labial e que, mesmo assim, muita coisa falha. É algo parecido com sentirmo-nos estrangeiros no nosso próprio País. Às vezes é complicado, mas tenho-me safado relativamente bem.”

Ainda assim, a pandemia veio apresentar um novo obstáculo sem precedentes: o uso obrigatório de máscara. “Não consigo fazer leitura labial e é muito complicado. As pessoas com quem tenho de contactar, clientes e fornecedores, compreendem isso e muitas vezes afastam-se mais ainda para poderem tirar a máscara, mas claro que em muitas situações isto se torna uma prática perigosa. Seria tão mais fácil se todos pudéssemos usar máscaras transparentes”, desabafa.

Em relação ao negócio, Sara aproveitou esta altura para o equacionar e descobrir novas estratégias que pudesse seguir com a Hoyara Jewellery. Uma delas é a coleção Amor Incondicional, o lançamento especial que chega a tempo do Dia da Mãe.

Tudo se torna mais fácil ao lado de bons amigos e de uma família que a apoiou desde o início. “Foi com a ajuda deles que hoje sei falar e aprendi que é preciso muito esforço para alcançar os nossos objetivos”, diz. 

“A mensagem que vos posso passar com a minha experiência é que todos os dias nos vamos deparar com novos problemas e nunca iremos saber o que a vida nos reserva, mas seja qual for o caso temos de ter força de vontade e acreditar em nós próprios, porque nada é impossível.”

 
 
 
 
 
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