Lojas e marcas

Sem salários nem respostas: o drama dos funcionários portugueses da Imaginarium

As lojas encerraram, os stocks foram resgatados para Espanha e de lá não há resposta. Os salários por pagar acumulam-se e o desespero também.
Um adeus triste.

Quando, em janeiro, centenas de caixas vazias começaram a chegar vindas de Espanha, os funcionários da loja da Imaginarium do Amoreiras estranharam. Já com salários em atraso e notícias de encerramentos vindas de outros países, a dúvida instalou-se. “As caixas chegaram primeiro ao Algarve, depois a Setúbal. Da sede diziam que tinha sido um engano. Nós desconfiámos que queriam fechar as lojas sem nos dizerem nada”, conta à NiT uma trabalhadora com mais de 10 anos de ligação à empresa espanhola.

O novo confinamento ditou o encerramento das lojas. Terá sido a oportunidade para a Imaginarium encher as caixas vazias e, de um dia para o outro, esvaziar a loja das Amoreiras. Os funcionários só souberam que o stock que ainda restava tinha sido levado, graças ao aviso de um segurança.

A suspeita confirmou-se e novidades vindas de Espanha só mesmo esta semana, quando o CEO da Imaginarium, Federico Carrilho Zurcher, confirmou os receios dos funcionários portugueses: “Em Portugal vamos fechar tudo, mas temos a esperança de voltar a ter uma loja própria e outra em franchise”.

Desde o início do ano que os funcionários portugueses da Imaginarium não conseguem obter respostas da sede. Nem respostas, nem salário. De acordo com os relatos obtidos pela NiT, ficaram por pagar subsídios de Natal e ordenados de janeiro. O de fevereiro, tudo indica, também não será pago. A estes valores acrescem retroativos que remontam até 2019.

O cenário foi ainda mais dramático na loja do GaiaShopping, em Vila Nova de Gaia. Encerrada em março, no contexto do primeiro confinamento, tardava em reabrir. Os funcionários foram chamados em julho, não para reabrir o espaço, mas para empacotar tudo, esvaziar prateleiras e encerrar de vez a loja. “Há mais de um ano que não pagavam as rendas ao centro comercial. Foi tudo desmontado e enviado para Espanha”, revela uma trabalhadora.

Sem posto de trabalho, a equipa tentou esclarecer a situação diretamente com os responsáveis dos recursos humanos. Sem sucesso. Acabaram por ficar em casa, a receber apenas o salário base, ao contrário de outros trabalhadores que terão, nas mesmas circunstâncias, sido transferidos para outras lojas.

As dívidas são, aliás, um denominador comum nos três relatos. Rendas por pagar aos centros comerciais — que, garantem, sucedia em todas as lojas no País —, dívidas a fornecedores, às transportadoras e até aos funcionários. “Chegávamos a ter mercadoria apreendida”, esclarece uma funcionária que trabalha na Imaginarium desde 2012.

A fachada de uma das lojas encerradas em Espanha

Os problemas terão começado no final de 2017, altura em que Felix Tena, fundador e então presidente da empresa, deixou a liderança da Imaginarium. A pasta foi passada a Federico Carrillo Zurcher — e a empresa recebeu uma injeção de capital para avançar com uma reestruturação.

“Desde que tomaram conta da empresa que os vencimentos começaram a ser pagos com atraso”, revelam sobre o “caos” que se instalou com a mudança. “A partir de 2019 os recursos humanos passaram para Espanha e foi uma confusão: salários errados; alguns eram mesmo pagos a pessoas que já nem trabalhavam na empresa. Eles nem sequer davam conta dos erros”, conta outra funcionária.

Nas lojas, a confusão também estava instalada. “A logística piorou. Ficámos sem produtos. O Natal de 2018 foi muito mau, até porque é nessa altura que vendemos mais. A empresa decidiu vender à consignação: vendíamos produtos de outras marcas, que não eram nossos. Pagávamos o IVA, a Imaginarium ficava com metade do valor e a outra metade ia para os donos dos produtos. Pelo que sei, nem esse valor foi pago”, relata uma funcionária.

A má gestão é apontada pelos trabalhadores como um dos motivos pelo descalabro financeiro da empresa. Como exemplo paradigmático, a loja mais rentável da cadeia em território nacional. “A loja do aeroporto de Lisboa era a galinha dos ovos de ouro. Em três ou quatro dias faturava o suficiente para pagar a renda. Não pagaram as rendas e fecharam-na no final de 2018.”

Outro caso dramático aconteceu em dezembro, na loja do Almada Fórum, onde o próprio centro comercial terá barrado a entrada aos funcionários da loja. A justificação: o não pagamento da renda por parte da Imaginarium.

Na mais recente entrevista, Federico Zurcher anunciou o encerramento das lojas próprias em todo o mundo — resistirão apenas duas em Espanha — e um reforço na componente de venda online dos produtos. Mas também o comércio online tem sido uma das falhas apontadas pelos trabalhadores.

“Há seis ou sete meses que começámos a ter problemas com as encomendas. Os clientes pediam os produtos que nunca chegavam, mas eram cobrados. Por vezes vinham, mas com defeitos”, contam. Foram, muitas vezes, as próprias funcionárias a terem que se deslocar em veículos próprios para levar as encomendas aos clientes.

“Recebíamos muitas queixas e íamos tentando resolver, mas era muito desgastante”, confessa uma das trabalhadoras.

O silêncio vindo de Espanha

Feitas as contas, uma das funcionárias revela que a Imaginarium lhe terá a pagar cerca de 11 mil euros, divididos entre salários em falta, subsídios e horas extra. Para outras funcionárias, as contas são difíceis de fazer, já que remontam a correções de vencimentos que desde 2019 nunca foram feitos, acrescidos de juros de mora. Os valores em dívida são, certamente, de vários milhares de euros.

“Eu tenho outro rendimento em casa, mas há pessoas que trabalhavam comigo, que eram independentes, e que agora estão novamente a depender da ajuda dos pais e em situação complicada. Esta também não é uma boa altura para encontrar emprego”, desabafa uma das trabalhadoras que desespera por uma solução.

A solução já nem é a prioridade. Pedem, quando muito, que haja uma resposta vinda de Espanha. A vontade parece ser pouca. Uma das trabalhadoras afirma ter enviado dezenas de emails, que ficaram por responder.

Numa mensagem enviada a 31 de dezembro, recebeu uma resposta, não da gerência, mas uma automática: “A sua mensagem foi bloqueada”. “Bloquearam o meu email para que eu não pudesse entrar em contacto com eles”, conta.

Federico Carrillho, CEO desde 2017

O final do ano trouxe a certeza de que teriam que lutar. O subsídio de Natal atrasou-se indefinidamente. Segundo o relato de uma funcionária, terá chegado a Portugal uma nota do departamento de recursos humanos em Espanha, que dava conta de que não só não teriam intenção de pagar o subsídio, como não iriam informar os trabalhadores. Pressionados, acabariam por comunicar que a situação seria regularizada até 15 de dezembro, conforme estipula a lei. Não foi.

“Diziam que não tinham dinheiro, mas era mentira. Só uma das lojas, a meio de dezembro, já tinha faturado 30 mil euros”, revela uma das trabalhadoras. “Queríamos uma palavra, mas eles nem se dignam a falar connosco. Queremos saber o que vão fazer. Nem a carta para o fundo de desemprego nos passam, para que possamos ativar o fundo de garantia salarial.”

A 21 de dezembro, num email enviado aos trabalhadores por Federico Zurcher a que a NiT teve acesso, o CEO da Imaginarium garantia que o salário de dezembro seria pago até ao final do mês — segundo as trabalhadoras, isso não aconteceu —, e justifica o atraso com a “não devolução, por parte do governo português, dos salários adiantados durante o tempo de encerramento por causa da pandemia” e, dessa forma, “não havia dinheiro suficiente”.

“Em janeiro teremos mais certezas sobre o que acontecerá com as nossas operações em Portugal, o que dependerá diretamente do desempenho do país durante estes dias (…) Encerámos Grécia e México por causa do desempenho pós-Covid; só depende de vós que consigamos manter a operação e crescer em Portugal, em prol de vocês e dos nossos clientes. Essa é a verdade: a situação futura da empresa só depende de vocês mesmos.”

Da representante portuguesa da empresa, nunca mais tiveram notícias. “Despediu-se em janeiro e nem sequer fomos informados disso pela empresa. Soubemos que ela já não estava a trabalhar pela transportadora”, recorda uma funcionária.

Outra, cujo posto foi extinto em julho, revela que nunca mais teve novidades. “Nunca fizeram as contas com as pessoas da loja porque não queriam pagar indemnizações. Eu tenho 10 anos de casa, outras colegas têm 20. Não querem pagar nada a ver se nos cansamos e nos despedimos por iniciativa própria”, conta.

Sem forma de obter respostas da empresa, alguns trabalhadores contactaram a Autoridade para as Condições do Trabalho. “Dizem que temos que esperar 60 dias para podermos despedir-nos por justa causa. Não consideram o não pagamento do subsídio de Natal um incumprimento grave”, relata uma funcionária.

Entretanto, sem perspetivas de emprego, sem salários e sem possibilidade de acederem aos apoios sociais, o desespero instala-se. “Não recebi subsídio, não recebi janeiro e não vou receber fevereiro. Tenho vencimentos retroativos em atraso, ando desde 2019 a receber um ordenado que não era o meu e agora não pagam. O que eu queria era que tivessem feito as minhas contas e me dessem a carta para o fundo de desemprego, para eu poder tratar da minha vida”, desabafa uma das funcionárias que está em casa desde março do ano passado.

“O que dizem da ACT é que temos que falar com a empresa. Como? Não há representante em Portugal, de Espanha não nos respondem aos emails. Ninguém faz nada e eu não tenho como resolver por mim própria esta situação.”

A NiT tentou contactar a Imaginarium, mas até ao fecho desta reportagem não obteve qualquer resposta.

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