Lojas e marcas

SkyPro: a empresa nacional que veste as tripulações da Emirates começou pelos sapatos

Nasceu de uma marca falida, mas hoje trabalha para as maiores companhias aéreas e de cruzeiros do mundo.
O grupo tem uma forte presença no Médio Oriente.

Atualmente, “todos os funcionários no aeroporto de Doha, no Qatar, usam sapatos feitos em Portugal”. Tudo começou com um par de aspeto clássico, mas há muito que a maior fornecedora portuguesa de companhias de aviação foi além deste produto — e deixa a sua marca nos céus do mundo.

A SkyPro veste tripulações inteiras da cabeça aos pés. O currículo da marca inclui 30 das principais companhias aéreas internacionais. Das camisas aos acessórios, passando por roupa interior, trabalham com nomes como a Saudi Airlines, a Netjets, a Groundforce, a Austin Airlines, a Air Seychelles, a Flair, a Norse, a Royal Air Maroc e a Mystic Cruises, entre outras.

Em março deste ano, a empresa — com escritórios em Lisboa, Dubai e Atlanta — juntou ainda o maior nome deste segmento ao portefólio. Assinaram um contrato para se tornarem a nova fornecedora oficial dos uniformes da Emirates, após criarem amostras personalizadas para a gigante da aviação.

“Temos feito um trabalho de expansão com uma presença constante em feiras”, conta à NiT Jorge Pinto, diretor da SkyPro, que destaca o posicionamento geográfico. “Temos projetos com quase todas as companhias do Médio Oriente, dos Emirados Árabes Unidos ao Omã. O facto de termos conseguido a Qatar Airways foi outro dos momentos mais marcantes.”

A insígnia tem clientes de todas as latitudes, da Europa à América, passando pelo Norte de África, e adapta-se às necessidades locais: “Temos que respeitar os aspetos culturais. Uma companhia da Arábia Saudita tem necessidades diferentes de uma das Caraíbas e isso é determinante quando desenhamos um uniforme”, acrescenta.

Os uniformes são desenhados de acordo com os países.

A cada novo pedido, a equipa criativa da SkyPro desenha os esboços em conjunto com representantes das companhias aéreas. Nada é estandardizado, cada detalhe é personalizado para que o resultado se adapte às necessidades dos profissionais. Um método de trabalho colaborativo que começaram a desenvolver quando eram procurados apenas pelos sapatos.

“O grupo entrou em processo de falência”

A jornada “com muitas pedras do caminho” da SkyPro começou em 2004, há quase duas décadas, ainda com outro nome — chamava-se Abotoa. “Era economista e decidi sair da empresa onde trabalhava por problemas financeiros. A minha mulher tratava do nosso filho e dediquei-me, de forma temporária, às lojas franchisadas da Lanidor”, recorda.

Nesse ano, cansado da experiência anterior, começou por abrir novas lojas da Aerosoles e exportava 5 milhões de pares de sapatos por ano. As pessoas compravam os nossos modelos para levarem para o trabalho e, ao perceber que esse nicho estava por explorar, foi falar com os proprietários da marca para criar a AerosolesPro.

A ideia avançou. “Conseguimos alguns negócios interessantes e entrámos, entre outros locais, no Hospital da Luz e na TAP”, diz. “Contudo, decorrido um ano, o grupo entrou em processo de falência. Ficámos sem negócio.”

Então, Jorge entrou em contacto com a companhia aérea portuguesa para saber se estavam dispostos a mudar de marca — antes de ela existir. Ao mesmo tempo, foi falar com pilotos e tripulações para perceber que problemas tinham com os uniformes e o que gostariam de mudar.

O resultado foram sapatos que “não apitavam nos detetores de metais” e com os quais “podiam viajar de manhã para Moscovo e à tarde para Dubai”, porque a temperatura estava calculada. Com um aspeto clássico, podiam ser usados diariamente graças “às peles inócuas e sem toxicidade”.

Os sapatos flexíveis são uma das mais-valias.

Convenceram a TAP a integrar os modelos nos uniformes e, mesmo com dificuldades financeiras, criaram a atual SkyPro: “Fomos apresentá-los numa feira internacional, em Colónia (na Alemanha), e foi um sucesso. Conseguimos mais dois clientes e demos a volta à empresa. Os nossos sapatos tornaram-se uma referência”.

Nos primeiros quatro anos, passaram a estar ligados ao retalho e focaram-se cada vez mais, em propostas para a aviação, cruzeiros ou empresas privadas. Porém, só em 2017, quando já tinham uma presença sólida no segmento do calçado, é que passaram a fazer uniformes completos. Desenvolveram um projeto com a Citex, foram ver as necessidades das companhias e passaram a ter uma oferta total.

Nos anos seguintes, mudaram a estratégia. “A maioria das empresas distribuía mal os uniformes. Tinham milhões de euros em fardas que ninguém precisava, muitas vezes sem os tamanhos necessários”, explica. Para isso, criaram um sistema de informação para permitir o acesso fácil e imediato à requisição de peças. Este “match entre os inventários e a procura” passou a facilitar os processos de fardamento dos trabalhadores.

Como são desenhados os uniformes

“O nosso processo é diferente da maioria das empresas. Juntamos uma equipa de design de produto da SkyPro e convidamos o cliente a organizar uma equipa responsável pelo desenvolvimento do uniforme. Temos reuniões semanais e, com o briefing, apresentamos um conceito inicial.”

Em conjunto, debatem e alinham cores, comprimentos e grafismo, e só depois fazem o primeiro desenho. O objetivo é perceber como a companhia quer ser identificada em qualquer parte do mundo — e “como a autoridade se distingue no meio da confusão”.

A seguir, os protótipos são produzidos em várias fábricas nacionais. Não têm confeção direta, mas a SkyPro dá trabalho a mais de mil pessoas. O tempo de produção depende da complexidade de cada peça. Se for um casaco de piloto, por exemplo, conta com mais de 50 operações e requer 20 minutos em linha de fábrica.

“O uniforme é uma segunda pele para o trabalhador e a referência de segurança dos clientes”, reforça. Por isso, seja para aviões, cruzeiros ou empresas privadas, todos os materiais são estudados para serem “respiráveis e duráveis”, graças aos testes que realizam aos tecidos enviados pelos fornecedores.

Os materiais são escolhidos com muito cuidado.

Este rigor técnico é um dos motivos do crescimento astronómico do grupo, mesmo com as interrupções da pandemia. Em 2019, foram a empresa que mais cresceu no País, e assim que começaram os confinamentos reestruturaram imediatamente os quadros para proteger a tesouraria.

“Em 2021, quando tudo voltou a acelerar, estávamos em condições para conseguir cumprir com a rápida procura que tivemos”, frisa. Nesse ano, duplicaram a faturação, em 2023 conseguiram triplicá-la e o cenário está a repetir-se com os números do primeiro trimestre de 2023. “Temos vivido tempos áureos no período pós-pandemia.”

E pretendem continuar a voar alto nos próximos tempos. Planeiam reforçar a presença em vários países europeus — como Espanha, Alemanha, Escandinávia e Benelux —, e até 2026, querem que 80 por cento do negócio tenha por base a prestação de um serviço digital.

A pandemia levou Jorge a perceber que a SkyPro não pode ficar dependente da indústria da aviação. Equacionam trabalhar para outros nichos, mas continuam com os olhos postos no céu. A sabedoria popular diz que esse é o limite, mas a empresa está disposta a provar o contrário.

Carregue na galeria para ver imagens de alguns dos uniformes criados pela Skypro.

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