Durante a pandemia, numa altura em que tantos artistas perderam os estúdios e locais de trabalho, Jheni Ribeiro notou que o único serviço que não parou foi o da entrega de comida. Um dia, entre risos e conversas com amigos, levantou a questão: “E se a arte sobrevivesse da mesma forma, através do take-away?”
“Nós também nos alimentamos da arte e da cultura. Precisamos de tudo isso enquanto seres humanos”, conta à NiT a brasileira de 33 anos, que na altura trabalhava num espaço de brunch. Para ela, a reinvenção era a única forma de evitar que a vida destes criativos colapsasse.
Foi assim que surgiu a ideia de embalar prints, stickers e até pequenas peças de cerâmica em caixas de pizza, para entregar às pessoas. Podiam só chegar à porta e levar. “Quando precisamos de dividir um alimento, escolhemos quase sempre a pizza. É prática, fácil de comer e conseguimos dividir facilmente com a mão”.
A maioria dos artistas que Jheni e o companheiro, Mateus Vicário, juntaram, dedicavam-se às tatuagens. Mas eram, acima de tudo, “artistas multidisciplinares”, como a própria descreve. “Eram capazes de fazer outro tipo de coisas e, nesta fase, eram obrigados a recorrer a isso.”
Desta adaptação, surgiu a ideia da Stray Pepperoni, que abriu portas em setembro de 2021, quando o País voltava à normalidade. O que começou como um pequeno refúgio transformou-se num estúdio de tatuagens que, na verdade, é um ambiente criativo partilhado por mais de uma dezena de artistas e artesãos.
“Quando chegámos a este conceito, e pensámos na pizza, disse que [o projeto] era como um pepperoni perdido, porque saía fora da fatia”, explica-nos Jheni. “É inesperado e caótico, mas bem-vindo. E ficou assim.”
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Entre Amesterdão e Lisboa
Jheni e Mateus chegaram a Lisboa no final de 2019, um pouco antes de serem surpreendidos pela pandemia. Antes disso, estiveram durante dois anos e meio em Amesterdão, nos Países Baixos, onde o namorado teve a oportunidade de trabalhar pela primeira vez com tatuagens.
“Percebemos que a forma mais direta de pagar as contas com arte seria através da tatuagem”, recorda. A brasileira não se dedica ao mesmo ofício, mas viu o companheiro a aprender com vários profissionais e a treinar com amigos durante os primeiros tempos emigrados.
No final desse período, acabaram por vir para Portugal para terminar os estudos — ela em produção de moda, ele em motion design. Mais uma vez, os planos foram interrompidos pelo confinamento: arregaçaram as mangas e começaram a pensar em alternativas.
Assim nasceu um estúdio
Voltemos a 2021. Os lisboetas já estavam vacinados e os estúdios começavam a reabrir, mas muitos dos amigos do casal não se conseguiam levantar. Era o caso de uma artista que, ao ver-se obrigada a encerrar o estúdio que tinha em Odivelas, se juntou ao projeto e começou a receber algumas pessoas para tatuar.
“Todas as pessoas que estavam sem espaço começaram a ouvir falar sobre isso. Trouxemos algum material e eu disse logo que o espaço tinha de se tornar num estúdio a sério. Criámos uma página no Instagram, fizemos um open day para ver o que queríamos fazer e deu certo.”
A Stray Pepperoni começou num espaço na Rua da Madalena onde, durante quatro anos, viram milhares de pessoas a gravar memórias na pele. Quando o contrato chegou ao fim, e com um mercado imobiliário bastante diferente, mudaram-se para um espaço na Rua do Loreto, no Chiado, onde se mantêm.
É certo que a tatuagem continua a ser a porta de entrada, mas todos os artistas têm outros projetos que também coexistem ali. “Um deles faz upcycling e tem um atelier de moda mesmo à frente. Outra dedica-se à escultura. Temos quem faça design de marcadores de livros, cerâmica ou até latte art. Criam imensas coisas”.
A verdade é que quem entra pelo fascínio com tattoos nem sempre encontra o que espera. Em vez de um estúdio com uma aparência carregada e cheia de adesivos, há uma morada clean, luminosa e repleta de plantas. “É o oposto de intimidante, onde cada pessoa é convidada a conhecer os vários talentos dos nossos residentes.”
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Outro dos destaques são os workshops, sobretudo os de ioga, com sessões orientadas por uma professora que é amiga de Jheni e Mateus. “Na altura, foi ideia de uma colaboradora nossa. Estes artistas trabalham nas posições mais desconfortáveis durante horas. Fez todo o sentido.”
No espaço antigo, também houve iniciativas dedicadas ao upcycling ou à produção de acessórios. “A Stray é um ecossistema”, resume a fundadora.
Ao todo, contam com cerca de 18 artistas num ambiente que podem tornar inteiramente seu. “Não é para ser uma árvore, ser plantada e ficar ali. Colabora, conhece o espaço e cria algo que é seu.”
Esta liberdade aplica-se também aos estilos de tatuagem presentes. A fineline, por ser a mais procurada no mercado, é também a base da oferta no estúdio, mas muitos dos criativos dedicam-se ao mixed midea, caracterizado pela combinação de múltiplos estilos, texturas e técnicas artísticas opostas em uma única peça.
“As pessoas estão, cada vez mais, à procura de algo diferente. Daqui para a frente, vamos ver nascer estilos que são completamente diferentes do tradicional e queremos conseguir acompanhar isso”, garante Jheni. “As máquinas que temos conseguem entregar o potencial completo de cada um.”
Apostando nesta vertente multidisciplinar, a Stray Pepperoni tem em vista um mercado aberto de arte, em colaboração com outros artistas polivalentes. O plano passa ainda por aliar estas iniciativas a parcerias com estúdios internacionais, como os locais em Amesterdão com os quais colaboraram.
Por cá, o preço das tatuagens começa a partir dos 80€. As marcações podem ser feitas também online.








