Pedro e Flávia Dantas decidiram mudar de vida após o nascimento da filha, Benedita, em 2024. Queriam mais liberdade de horários e tempo de qualidade com a pequena, tornando-se difícil conciliar a vida profissional e familiar que tinham até então. Foi o mote para criarem um projeto que recupera um gosto antigo de Pedro, que cresceu no meio de uma pequena fábrica de cerâmica dos pais, em Vila Verde, Guimarães, onde a produção das peças era feita manualmente.
O pai, Manuel Dantas, é oleiro e trabalha diretamente com a matéria-prima, enquanto a mãe, Lucília Dantas, está responsável pela pintura. Em 2025, o casal fez nascer a marca de cerâmica Tia Cila, com produção no espaço da família. O nome é uma homenagem à sua mãe, carinhosamente tratada por Cila pelos amigos. Foi ela, aliás, quem começou por transportar para a cerâmica desenhos relacionados com os lenços dos namorados, um bordado tradicional da região.
Ali, cada peça é moldada, gravada e pintada à mão e pode ser personalizada. Pedro, de 41 anos, quis adaptar a atividade que conhece desde sempre a uma nova geração, investindo também numa nova forma de chegar aos clientes. “Não há nada melhor do que aproveitar toda esta experiência”, conta à NiT.
A diferença está na forma de comunicar. O casal começou a mostrar o processo de criação das peças nas redes sociais. Flávia, de 31 anos e licenciada em Comunicação, ficou ligada a essa componente, enquanto Pedro, assumiu uma parte importante da produção e da personalização. A Tia Cila junta assim o conhecimento familiar a uma abordagem mais contemporânea.
O resultado são peças pensadas sobretudo para serem usadas no dia a dia. Copos, chávenas, canecas, conjuntos, tábuas de tapas ou sushi, jarras e tigelas fazem parte da oferta, a par de peças para ocasiões especiais e lembranças para casamentos, batizados e outros eventos.
Há artigos que começam nos 15,95€, para alguns copos personalizados, e chegam aos 74,95€ na Tábua Benedita, por exemplo. A loja online inclui ainda artigos em madeira, embora a cerâmica continue a ser uma das imagens de marca do projeto.
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A componente emocional é outro dos pontos centrais. Cada peça de cerâmica tem o nome de uma mulher importante da família. “Quisemos representar a qualidade que as mães, que as mulheres, têm no seu dia a dia”, explica Pedro. Assim, surgiu o conjunto Maria, composto por um copo de café e um pires decorado com três corações, associados à mãe de Flávia e às duas irmãs. “Colocamos todo o nosso carinho e cuidado em cada uma das peças, porque são sempre peças feitas para nós”.
É essa ideia de transformar um objeto quotidiano numa memória que também explica a aposta na personalização. O cliente pode contactar a marca através do Instagram e escolher uma frase, um nome, símbolos ou outros elementos, que são gravados diretamente no barro ainda húmido. Não se trata, por isso, de pegar numa peça já acabada e acrescentar-lhe um desenho no final: os detalhes começam logo durante a construção.
Depois de moldada e personalizada, a peça precisa de secar naturalmente antes da cozedura. Tentar encurtar esta etapa pode fazer com que o barro rache, obrigando a repetir todo o trabalho. É precisamente por isso que, na Tia Cila, existe uma regra que se sobrepõe aos prazos: “A cerâmica tem o seu tempo e tem que ser respeitada”, resume Pedro.
A produção continua a ser familiar. O pai de Pedro é responsável por moldar as peças em barro e a mãe acompanha todo o processo. Depois da primeira cozedura, as peças são pintadas e vidradas. A Lucília utiliza grés nacional, um tipo de argila resistente, adequado a peças utilitárias. O vidrado utilizado é certificado para contacto com alimentos e, depois de aplicado, a peça regressa ao forno a alta temperatura. Só depois desta segunda cozedura fica pronta para ser embalada e enviada.
O nome da insígnia surge da forte relação maternal, pois Lucília é conhecida conhecida pelos amigos do filho como “tia Cila”, uma alcunha que aproveitaram para homenagear a mulher que lhes ensinou tudo sobre cerâmica e pintura. “É um tributo à minha mãe, que hoje nos acompanha e nos ensina tudo sobre a produção, é uma referência a toda esta experiência e passado que ela tem”, explica Pedro à NiT.
Uma encomenda personalizada demora normalmente cerca de quatro semanas, embora o prazo possa variar consoante a peça e o volume de trabalho. Para quem precisa de um presente com alguma urgência, a Tia Cila criou um segundo caminho. Algumas coleções ficam disponíveis em stock e podem ser enviadas em 24 a 48 horas. São peças que não têm uma personalização feita exclusivamente para cada cliente, mas mantêm a lógica da marca através de frases e mensagens pensadas para diferentes pessoas e ocasiões.
É aí que entram, por exemplo, os copos com mensagens para mães, educadoras ou outros destinatários, mas também a coleção “Sem Filtros”, com frases mais atrevidas e pensamentos que normalmente ficam por dizer. A ideia surgiu depois de o casal perceber que muitos clientes só procuravam presentes quando faltavam poucos dias para uma data especial, quando quatro semanas já não eram uma possibilidade.
A Tia Cila acabou, assim, por encontrar um equilíbrio entre duas velocidades: de um lado, a cerâmica personalizada, feita praticamente desde o início para cada pessoa; do outro, peças já produzidas, também artesanais, mas prontas para seguir viagem. No fundo, a Tia Cila é uma continuação daquilo que Pedro conheceu desde criança, mas com uma nova linguagem. O barro continua a passar pelas mãos da família, só que agora chega a outras casas com nomes, frases e histórias que não pertencem apenas a quem o produz.
Carregue na galeria para conhecer algumas das peças e a família que dá forma a este negócio.








