Moda

Frederico Santos: o fotógrafo prodígio que quer realizar os sonhos dos outros

Com 22 anos, este finalista do New Talent tem um portefólio impressionante. E frisa: os sonhos têm o tamanho que lhes damos.
Um dos seus trabalhos.

Diz que encara cada fotografia da mesma maneira que olha para um quadro ou uma escultura: existe a arte, a técnica, mas o que torna aquela imagem verdadeiramente única é o facto de mostrar a visão de quem a tirou. O mundo como é visto pelos olhos daquele artista.

O mundo visto pelos olhos de Frederico Santos parece ser um lugar incrível. Tem apenas 22 anos mas uma clarividência da vida muito acima da sua idade. Já viveu muito, trabalhou muito, até já conquistou muito, mas nem por isso perde a humildade e a gratidão — e sobretudo a ambição.

Cada sonho ou meta que cumpre é logo substituído por outro: a fasquia vai sempre subindo, e ao falar com ele fica-se com a sensação de que será sempre assim. É um perfecionista, admite, na sua arte e na vida.

Cada pessoa que o ajudou e que viu algo nele, um potencial quando ainda nem ele sabia bem que o queria, tem um lugar especial, é um nome recorrente na história que nos conta do seu percurso. Reconhece que teve alguma sorte, mas parece começar a sentir que também tem talento e a saber muito bem o que fazer com ele. Spoiler alert: em grande parte passa por ajudar todos aqueles que querem seguir o mesmo caminho, mas não tiveram oportunidade ou nem sabem por onde começar.

Nascido em Lisboa, o agora finalista dos prémios New Talent — concurso organizado pela NiT, pela Media Capital Digital e pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa — mudou-se cedo para Carcavelos e foi lá que cresceu. “Fui criado principalmente pelos meus avós porque a minha mãe teve uns problemas de saúde complicados”, explica-nos. Viver com os avós, e por causa da educação que teve daí, foi uma experiência que claramente o marcou, apesar das circunstâncias, pela positiva.

A fotografia chegou aos 16 anos, numa aula de Biologia, ironicamente. A professora Manuela David, da Escola de São João Estoril, enviou uma foto sua para um concurso de Jovem Repórter do Ambiente, parte da Associação Bandeira Azul. A professora disse então a Frederico que achava mesmo que havia ali qualquer coisa de especial; e que acreditava que ele podia ganhar.

O finalista do New Talent.

Em criança, sempre gostara de fotografia “mas nunca nada sério”. Pensava, já então, ser uma boa forma de se expressar, como um pintor quando pinta um quadro. Acabou por ganhar o prémio nacional de fotoreportagem e foi convocado para um prémio europeu semelhante — que também ganhou.

A imagem era de uma mina de Estremoz e mostrava o desgaste que acontece pela retirada do mármore e os danos causados aos lençóis de água. Tinha ido lá numa visita de estudo, com a mesma professora. Foi Manuela David a primeira a acreditar fervorosamente nele, quando ele ainda não o fazia. “Foi sempre a professora que acreditou em mim. Eu via aquilo como mais um hobby e ela disse: ‘tens um olho para fotografia que é teu e é isso que te vai levar longe'”.

Ainda hoje, Frederico fala regularmente com a professora, mas desta experiência guarda sobretudo “a importância de uma formadora ver algo em nós, e nos incentivar”, explica. Apesar do impulso e reconhecimento, esta foto e o concurso nada tinham a ver com moda. Mas o sonho, quando surgiu, veio claramente para aí virado.

“Com 17 anos comecei a pensar na fotografia de moda e a trabalhar com agências como a Central Models e comecei a desenvolver shoots para praticamente todas as agências nacionais”, explica-nos. “Foi também a primeira vez que fiz a ModaLisboa e até guardo com carinho isto: não se devia dizer mas falsifiquei um passe para entrar nos bastidores, porque era muito novo, era um bocado o outsider e só tinha credencial para os primeiros dias.”

O bichinho da fotografia de moda ficou e já não parou. “Comecei a propor-me para ir aos eventos, através de blogues de moda; e acabei a trabalhar diariamente em todos os eventos da ModaLisboa, por exemplo”. Com 18 anos desenvolveu o primeiro editorial para uma revista internacional, a Kaltbut Magazine. O trabalho foi publicado: “propus, fiz, entreguei e para minha surpresa foi publicado”. Foi aí que começou a sua paixão pelo editorial de revista.

“É uma coisa incrível: cada um de nós tem a capacidade de desenvolver toda uma cena, ser encenadores, criar um espaço”, diz sobre os editoriais. Começou a trabalhar com revistas internacionais, fez editoriais para a “Lux Woman”, entre outras. Vamos recordar este facto: tinha apenas 18 anos.

Pouco tempo depois, fotografou a primeira capa da “Parq”, um editorial da New Balance com o apoio do Francisco Vaz Fernandes, diretor da revista que diz ser outro dos seus anjos da guarda. “Ele também apostou muito em mim e eu sou da opinião que não se chega a lado nenhum sem apoio, sobretudo nesta área”, diz. E acrescenta: “e sem equipa, maquilhadores, diretores”.

A primeira exposição e a Cruella de Vil

Começou a trabalhar com modelos, cantores e a desenvolver os seus trabalhos internacionais. Aos 19 anos foi convidado por António Custódio, da ModaLisboa, para fazer parte da Work Station, uma plataforma de apoio a jovens talentos. Teve aí a oportunidade de fazer uma exposição de fotografia nos dias do evento. “Expus, no fundo, a minha visão da moda.”

A partir dai trabalhou com designers e marcas, entre os quais João de Sousa e Fairytale, entre tantos outros, enquanto continuou a desenvolver o seu trabalho na área de marca, no editorial, com a Central Models, mas sobretudo como diretor criativo. “Há fotógrafos que gostam de ter o seu diretor criativo, alguém à parte, mas eu não”, explica. “Eu gosto de mostrar a minha visão do mundo.”

E dá um exemplo, de um trabalho que fez na “Flame Magazine”, que é uma metáfora da Cruella de Vil, de os “101 Dálmatas”. Uma representação de como por vezes uma mulher é insegura e procura algo que não tem; e tenta mudar isso com roupa e adereços. Na sua produção, os 101 dálmatas eram as pérolas: começa com uma mulher muito organizada e bonita e acaba desleixada. “Era bonita antes da obsessão pela perfeição que a levou a criar um caos psicológico”, frisa.

Diz que grande parte do seu trabalho é caracterizado pela ideia que tem da mulher: de como o seu poder é, ainda hoje, muitas vezes subestimado. “Uma mulher não serve para as obras porque não lhe dão oportunidade. Há um poder na mulher, muito mais do que no masculino, porque o masculino já nasce [com o poder] ou é-lhe atribuído à nascença e nas mulheres é conquistado. Há mulheres com muito mais poder, muito mais fortes.”

Tal como a sua mãe, que, após a avó morrer, criou três filhos sozinha, sem o pai. Ou a própria avó. Não esconde que tudo o que faz é uma homenagem a elas e a todas as mulheres. “Elas [mãe e avó] são a personificação de como uma mulher é forte; e são a coisa mais bonita da minha vida.”

Por enquanto, está a trabalhar numa seguradora enquanto desenvolve a carreira, precisamente para poder ajudar a sua família “nesta altura de layoffs”. Também queria poupar dinheiro para o sonho de abrir, finalmente, o seu estúdio. Explica-nos que, ao longo dos anos, a cada grande trabalho investiu muito mais do que ganhou, já que tem sempre de contratar um espaço, material, equipa. Com o seu estúdio, onde “só o material custaria cerca de 2.500€”, podia desenvolver o seu trabalho e prosseguir o seu próximo sonho: ajudar outros como ele.

“Nós jovens, cá em Portugal, em termos de novos talentos na área de fotografia, temos uma tarefa difícil porque há alguém que vai chegar e fazer de graça. Já estive em França uns meses, consegui até o orgulho de trabalhar lá e há um investimento muito maior na qualidade: cá acaba muitas vezes por importar mais o que se pede pelo trabalho”, explica. É um mundo difícil de furar.

Diz que queria, por isso mesmo, ajudar a lançar novos jovens, como o ajudaram a ele. Frederico deixa bem claro que é preciso trabalhar muito, que fez e lutou por tudo o que conseguiu até agora. Mas sublinha que teve sorte e frisa: “sei que há vários jovens que precisam e nem sabem por onde começar”. Torna-se claro que quer ser a sorte deles.

“Não importa como começamos mas como acabamos, não interessa se entramos pelo porta ou janela, o que interessa é o objetivo ate porque a idade é um número e um fotógrafo pode, com 18 anos, ter mais qualidade ou até portefólio do que outro mais velho.”

Se vencesse o New Talent, investia no tal estúdio próprio, pois deixaria de ter de investir tanto em cada produção: e isto também lhe permitiria ajudar os restantes jovens a poder trabalhar. “No futuro gostaria de abrir pequenos cursos de fotografia mais baratos e direcionados à área de moda, os que há são muito técnicos”, diz. Não que tenha tirado algum. “Estudei tudo em casa, os livros da Annie Leibovitz, do Tim Walker.”

Mas é esse o plano: o seu estúdio, complementado com pequenos cursos mais práticos de como criar uma ideia, um mood board, como abordar um cliente. “Falta experimentação, há jovens que não sabem como abordar uma agência, arranjar um maquilhador, um modelo, stylist. Eu comecei com base numa interajuda e agora quero fazer isso também, criar oportunidades para os jovens. Uma sociedade devia ser interajuda, e as pessoas pensam muito no seu umbigo ou têm medo da concorrência”, frisa.

Os outros sonhos passam por fotografar para a “Vogue Portugal”, por exemplo; ou vão até já sendo realizados, como trabalhar com a maquilhadora Antónia Rosa, que tanto admira, e ter sido por ela elogiado. Ou com Helena Vaz Pereira: “São oportunidades que nunca vou esquecer na vida porque foram pessoas que me abriram a mão e que com menos idade, menos experiência, consegui criar algo que fica e que elas dizem ‘ok, está lindo’. E isso para mim é tudo.”

Diz que o estúdio seria no Porto, cidade que adora e onde está grande parte do mundo da moda. E apesar de tudo o que conquistou, garante que é inseguro na fotografia, e que nem sempre gosta do que faz. “Eu tenho noção que vou aprender o resto da minha vida mas uma coisa é certa: a minha perspetiva é diferente de todos os outros, simplesmente porque é a minha visão do mundo.” Sobre a insegurança, considera que até é bom. “Porque enquanto não estamos satisfeitos estamos sempre à procura de melhor. E é isso que nos torna criativos.”

Se vencesse o New Talent, além de conseguir concretizar os sonhos, viveria em nome de todos os artistas da moda que tentam entrar neste mundo e criar carreira. Diz que é um enorme orgulho o simples facto de ser finalista, até porque tem criadores, maquilhadores amigos que também tentaram concorrer. Se vencesse, venceria com eles: “Não seria pelo valor, seria pelo facto de poder provar que nós conseguimos”.

Dê por onde der, a fotografia vai sempre ser o seu refugio, o local onde se encontra com o mundo. E nunca vai deixar de sonhar. Até porque, frisa, “os sonhos só tem o tamanho que a gente lhes dá”.

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