Moda

A bailarina portuguesa “orgulhosamente cigana” que se tornou musa de Gaultier

A artista é a única portuguesa no espetáculo "Fashion Freak Show", do designer francês, e já desfilou para a Louboutin.
Kali na estreia do espetáculo.

Kali Musa teve o maior choque de realidade da sua vida no final de 2022. A artista — que adotou um novo nome — estava a dançar no topo da Torre Eiffel, em Paris, para a marca Christian Louboutin. Já sentia curiosidade em trabalhar com moda, no entanto, tinha dificuldade em ver-se como modelo. “Não sabia qual era o meu lugar, porque me faltava um sentido de identidade”, começa por contar à NiT.

Após várias audições, foi escolhida para fazer parte do pequeno grupo escolhido pela etiqueta francesa para uma apresentação na semana da moda de Paris. “Estava a fazer um espetáculo com drag queens, em Viena (Áustria), e a assistente de coreografia disse que faltava uma pessoa. Fui à audição, sem preconceito, só para ver como era.”

A bailarina e modelo portuguesa tem 28 anos, e estudou em Nova Iorque, nos EUA. Nesse período, começou a ganhar confiança em cima dos palcos e nunca mais parou. A paixão pela dança levou-a a fazer parte do musical de Jean Paul Gaultier, “Fashion Freak Show”, que passou por Portugal entre os dias 8 e 18 de novembro.

“Uma colega contou-me da audição em Londres, mas era só para pessoas britânicas. Enviei o vídeo e expliquei que não era de lá, mas fui pré-selecionada”, recorda. “Havia pessoas a tentar há muitos anos e não sabia o que estava à procura. Só no segundo dia, quando estava lá o designer, é que percebi: queriam uma expressão estética e um estilo diferente.”

No caso da artista, essa identidade levou anos a construir e reflete-se também no nome. “Não é um nome artístico. Decidi ser tratada assim”, afirma. No entanto, prefere não revelar o significado por trás da escolha, devido à ligação significativa com a cultura romani.

O gosto pela dança já estava presente na sua vida durante a infância. No entanto, em Viana do Castelo, onde nasceu, não existiam escolas próprias, e andou em academias mais informais onde aproveitava para “aprender o máximo que conseguia”.

Acabou por seguir um percurso tradicional e formou-se em design de produto. No final, percebeu que era em cima do palco que se sentia bem e decidiu mudar de carreira. Apesar do receio, os pais apoiaram a decisão e ajudaram-na a pagar vários workshops pela Europa.

Tudo começou com a dança.

Os dias em Nova Iorque

“Percebi que não fazia sentido investir para estar em locais onde não ia ficar. Queria ir para Nova Iorque. Se fosse preciso esperar 10 anos, seria paciente”, recorda. E mudou-se para os Estados Unidos em 2017, motivada por um vídeo da bailarina Danielle Polanco, com quem teve aulas mais tarde.

Durante a pesquisa, cruzou-se com vídeos de voguing, entre “outros estilos comercializados que vêm de subculturas”. Até porque o género não começou com a famosa música da Madonna, ao contrário do que muita gente ainda acredita. É um verdadeiro estilo de vida.

O ballroom surgiu na década de 1920, precisamente em Nova Iorque. Naquela altura, segundo a ideologia da época, as pessoas negras e latinas eram afastadas dos locais de diversão noturna frequentados, na sua maioria, por homens caucasianos. Quando podiam entrar nestes locais, esperava-se até que se maquilhassem de forma a parecerem mais pálidas.

Então, criaram um movimento ativista é também uma competição na qual pessoas trans negras e latinas, assim como drag queens, que se juntam nas chamadas “casas” e se submetem aos aplausos e às luzes da ribalta. E tornou-se um dos símbolos das comunidades LGBTQIA+, embora nem todos os membros da comunidade frequentem esse meio.

“Diziam-me que tinha uma maneira de dançar muito feminina. Tive aulas de hip hop e viam o meu estilo como inferior”, avança. “Inspirei-me em pessoas com um movimento especial, porque seguiam o seu corpo. E sentia-me conectada por ser uma comunidade que aceita pessoas marginalizadas.”

 

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Esta ideia de família foi ainda mais importante num período de dificuldades. Era a primeira vez que estava a viver sozinha e o dinheiro tornou-se um problema. “Comecei num quarto normal e acabei numa sala, num meio-sofá, em casa de amigos”, conta. Porém, sentia que não podia mostrar fraqueza e tentava encontrar trabalhos online na área do design.

Em 2019, depois de uma breve passagem por Los Angeles, foi obrigada a voltar a Portugal. Uma lesão, que foi o acumular de vários golpes, levou-a pausar a carreira. E, entre a pandemia e problemas pessoais, o desejo de regressar aos Estados Unidos acabou por ficar em stand-by.

No mesmo ano, criou um grupo chamado Kiki House of Musa no nosso País. Ajudou a cultivar a cultura do ballroom em Lisboa “de forma natural”, criando uma comunidade com pessoas a quem dava aulas e com quem tinha uma ligação. Juntas, apresentam-se em várias partes de Portugal. “Algumas pessoas não compreendem por ser um conceito exportado, mas somos uma verdadeira família.”

Musa de Gaultier

Graças a este género de dança, confessa, passou a rever-se “dentro da identidade cigana”, que demorou muitos anos a assumir. “É o que sou e o que represento, mas a história foi apagada para os próprios ciganos. Temos uma linguagem própria que fomos proibidos de usar. Há médicos e advogados que nem dizem que o são”, acrescenta.

Além disso, começou a questionar a sua própria identidade de género. Uma questão que ainda está a desbravar. “Cresci neste corpo e tenho traumas de mulher. A criação influencia como vejo a vida e como sou vista, mas, dentro de mim, sei que não me identifico com o conceito de género.”

Quando começou a refletir sobre estas questões, sentiu-se mais segura “a ocupar espaços” na indústria da moda. E a confiança com que surge no palco, durante o “Fashion Freak Show”, de Gaultier, é uma prova disso. Já passou por três países — Japão, Alemanha e Portugal — e quer continuar na estrada.

“Nunca tinha feito uma tour. Os bailarinos são pessoas únicas e, no início, estava sempre a questionar-me. Era a única portuguesa a li e via a quantidade de pessoas que lá estavam, em cada espetáculo. Parecia irreal.”

É uma experiência desgastante física e mentalmente. São precisas várias horas diárias de ensaios para aperfeiçoar cada cena, além das semanas de preparação. E a parte mais complicada, revela, é a troca entre roupas que “são complicadas de vestir”.

“Diziam-nos para sermos nós próprios, mas representar a vida do Jean Paul ao mesmo tempo. Nas palavras dele, somos nós que vestimos as peças que ele cria.” E tudo tinha que acontecer de forma fluida.

Sobre o contacto com o estilista, explica que é uma pessoa “muito humana” fora do palco. “Havia momentos em que aparecia no ensaio geral e sempre foi uma pessoa muito querida. Mas nunca foi um contacto muito direto, porque sou tímida e gosto de dar espaço às pessoas.”

Kali sentiu-se particularmente emocionada na primeira digressão, pelo Japão, em maio. O espetáculo passou por Tóquio e Osaka. Era um dos destinos de sonho da artista e, sem dar por isso, passava lá um mês com um trabalho que nunca se imaginou a fazer. Curiosamente, não estava selecionada para fazer esta parte da tour, até que teve de substituir uma pessoa no elenco.

Outra experiência emotiva, já em Portugal, foi o momento da despedida de duas pessoas, que já faziam parte do circuito há cinco anos. “Trabalho com talentos que me inspiram muito, então o abraço, quando percebemos que não vão continuar connosco, é sempre mais apertado.”

O “Fashion Freak Show” chegou ao fim e, até novas datas, Kali vai continuar a ter projetos em Lisboa. Neste momento, está dedicada a fazer uma peça sobre a discriminação contra os ciganos em Portugal, chamada Homo Sacer, que estreia a 24 de novembro. O objetivo é “ganhar mais consciência sobre a sua ancestralidade”, no entanto, não recusa que possam surgir mais oportunidades no mundo da moda.

“As coisas vão acontecendo a seu tempo. E esta oportunidade apareceu num momento ideal na minha vida. Quero poder dizer ‘sim, sou orgulhosamente cigana’ e navegar outros mundos, ser vista,” conclui. “A arte sempre teve e terá o poder de gerar evolução — individual e coletiva.”

Aproveite e carregue na galeria para ver mais imagens de Kali Musa dentro e fora do palco.

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