Moda

A nova coleção da H&M foi feita neste atelier que explodiu em Beirute

Ainda assim, e por milagre, as peças da primeira parceria entra a marca sueca e uma designer árabe ficaram intactas.
A jovem libanesa Sandra Mansour.

Chama-se Sandra Mansour e desenha vestidos de sonho cujos preços podem aproximar-se ao valor de entrada para uma casa. Na loja online desta designer de origem árabe — mas nascida na Suíça e baseada em Beirute, no Líbano — há peças cujos valores chegam perto dos 10 mil euros.

É aqui que entra a cadeia de fast fashion sueca H&M, que todos os anos lança coleções cápsula de edição limitada em colaboração com alguns dos mais prestigiados criadores de moda do mundo, uma lista que inclui por exemplo Karl Lagerfeld. Estas parcerias são uma forma de a marca aproximar os seus clientes dos grandes designers, ao disponibilizar peças com o carimbo de casas exclusivas a preços acessíveis.

Para a linha deste ano, a H&M tinha encomendado a Sandra Mansour — a primeira designer árabe a colaborar com a cadeia — uma linha de nove peças que levasse as suas texturas em tule ao alcance de milhões de clientes. Com o nome “Fleurs de Soleil” (ou “flores do sol”, em tradução livre), o lançamento desta coleção está marcado oficialmente para 27 de agosto. 

No entanto, a ideia inicial seria lançá-la a 6 de agosto, um plano que foi adiado por causa da devastadora explosão em Beirute, no Líbano, que abalou a cidade no dia 4 de agosto, deixando centenas de pessoas desalojadas e destruindo por completo a casa de Mansour, que tem 36 anos.

“Estava em Geneva na altura”, explicou à revista “Elle” norte-americana. “Nasci e cresci nessa cidade, mas a minha família estava em Beirute quando aconteceu. Eles estão bem, graças a Deus, mas é difícil contactar as pessoas. Quero ir para casa e ver a minha família, os meus amigos, as pessoas com quem trabalho, mas não posso entrar num avião até receber o resultado do teste à Covid-19. Tem sido obviamente um pesadelo”.

A criadora, que começou a trabalhar nesta coleção em novembro de 2019, garantiu um donativo de quase 100 mil euros por parte da H&M à Cruz Vermelha libanesa. “Os donativos ajudam. Muitos dos nossos hospitais estão sem as necessidades básicas, neste momento. Os meus amigos dizem-me que é difícil encontrar vacinas para o tétano e que a comunidade médica em Beirute precisa de todos os recursos que lhes pudermos dar. Por isso, por favor doem se puderem. Especialmente a organismos não-governamentais que estejam a ajudar a reconstruir”.

O apartamento e atelier de Sandra Mansour também vão precisar de ser reconstruídos, mas a expressão popular “uma mulher prevenida vale por duas” não podia encaixar melhor nesta história. “Tenho um pouco de transtorno obsessivo compulsivo”, conta. “Embrulho tudo, mesmo os tecidos, em plástico, porque Beirute é uma cidade próxima de desertos onde há muito pó. Para ser honesta, sou uma maníaca no que a isso diz respeito”.

“Eu insisto que embrulhemos tudo — arquivos, rascunhos, tudo — em papel e depois em plástico. Então depois de acontecer a explosão, havia vidros partidos por todo o lado mas ‘voila’: como sou uma maníaca, não perdemos a maior parte do trabalho no nosso arquivo. Estou tão grata. E agora talvez deixe de me sentir mal por ser tão organizada”.

Segundo Mansour, a H&M também foi “tão organizada” que ajudou a coleção a estar preparada muito antes daquilo que tinha antecipado. “Eu desenhei, escolhi tecidos e eles fizeram uma linda colaboração. Adorei realmente trabalhar com eles, mas sempre fui uma fã. Mesmo na escola, lembro-me de quando fizeram a primeira colaboração deles [com Karl Lagerfeld]. Pensei, ‘uau. Estamos mesmo a ter uma pequena ideia do que poderia ser comprar esta marca a que normalmente não temos acesso. Isto é tão especial’. E eu queria garantir de que conseguia manter esse sentimento”.

A criadora acredita que a esperança é o único sentimento que pode salvar os habitantes da cidade que tanto adora. “Precisamos disto agora porque é assim que escapamos. É uma maneira de ultrapassarmos o que está a acontecer. Precisamos de poucas coisas que nos façam felizes e completos — um pouco de poesia, um pouco de arte, um pouco de cor nas nossas vidas “.

Assim, a linha Fleurs du Soleil faz referência ao sol e às flores, porque, acredita, são “um pouco do céu e um pouco da terra”. “São vestidos bonitos e também um hoodie. São brincos chuncky e anéis muito boémios. Qualquer rapariga devia poder divertir-se com ela, independentemente do seu estilo”.

Além disso, há uma T-shirt que Mansour jura usar “todos os dias”. “Lavo-a e visto-a de novo. Não vou tirá-la. Esta colaboração, esta ideia de que a moda tem um futuro, é o que me agarra”.

A linha foi lançada mais cedo em Beirute, para celebrar a primeira colaboração da H&M com uma marca libanesa. Muitas mulheres fizeram fila à porta da loja para comprar as roupas e a criadora confessa ter recebido muitas mensagens de agradecimento no Instagram. “Elas dizem, ‘a minha casa está destruída, eu ia morrer. Sobrevivi porque estava a comprar a coleção”.

Esta linha vai vai ser lançada mundialmente nas lojas físicas e online da H&M a partir da próxima quinta-feira, 27 de agosto.

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