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Moda

A rainha gótica da ModaLisboa que tirou um curso de criminologia

Apesar da formação académica, Jéssica Gaspar desistiu de uma carreira rara para fazer vestidos à mão.

“Este é literalmente o primeiro vestido que fiz na minha vida”. Uma das primeiras frases de Jéssica Gaspar, quando a encontramos no Pátio da Galé, no Terreiro do Paço, é também uma das mais impressionantes, tal era o lado megalómano da peça. “Comecei a fazê-lo para ir ao baile de finalistas com a minha namorada.”

Foi precisamente por esse motivo que a jovem, de 27 anos, o decidiu trazer para o segundo dia de desfiles da ModaLisboa, este sábado, 14 de março. “Tem muita importância para mim porque foi a partir desse momento que descobri que aquilo com que queria trabalhar era, na verdade, a moda.”

Ao seu lado estava a namorada, Miranda Duarte, cinco anos mais nova, que veio desafiada pela companheira. Optou por um fato bordô e uma camisa preta com penas que combinava na perfeição com o look de Jéssica, deixando-a ser a estrela do dia.

Embora não consiga precisar o tempo exato, a criativa sabe que levou meses até o vestido estar concluído. Inicialmente, tinha apenas uma base de veludo vermelha, que comprou em segunda mão, à qual foi acrescentando pormenores, como as rendas nas mangas ou os adornos vermelhos que remetem para vitrais.

“Tenho um fascínio enorme por catedrais, daí ter sido a minha principal inspiração. Acho que é o que se adequa mais ao estilo gótico contemporâneo, que é aquele com o qual me identifico”, continua. “Desta vez, decidi trazer uma coisa mais fluida, mais feminina”. Mas ninguém ficou indiferente à crinolina que criou à mão.

O estilo gótico faz parte do guarda-roupa de Jéssica há mais de meia década, quando começou a explorar com mais atenção a subcultura. À NiT, explica ainda que existem vários subgéneros, que vão do estilo tradicional dos anos 80, com maquilhagens carregadas, ao cybergoth, marcado por todos os tons néon.

“Não tenho um definido, acredito que devemos ser multifacetados nesse aspeto. Vou variando entre eles, mas dentro do mais tradicional, costuma ser este mais romântico e vampiresco”, confessa.

Difícil também foi não reparar na carteira em forma de caveira. Essa, porém, não foi feita por Jéssica. Encontrou-a na Killstar, uma marca conhecida entre a comunidade gótica, e percebeu que seria o apontamento que faltava.

A relação da jovem com a moda começou há pouco mais de dois anos. Já tinha uma licenciatura e uma pós-graduação em criminologia e justiça criminal, mas percebeu que não era aquilo que queria fazer para o resto da vida. “Sempre fui uma pessoa muito criativa, muito artística”, diz.

De forma quase orgânica, deu por si a experimentar a moda, “a meter as mãos na massa”, como a própria diz, e foi quando decidiu, primeiro enquanto autodidata, dedicar-se à criação das suas peças.

A vinda à ModaLisboa é uma forma de mergulhar neste novo mundo que é tudo menos cor de rosa. Jéssica veio pela primeira vez em 2025, mas foi uma passagem mais rápida. “Só tinha feito uma saia preta e um casaco. Para ser sincera, não tinha conseguido acabar o look como queria.”

“Quem sabe, um dia, posso ser eu a trazer uma coleção minha para aqui. Espero que seja em breve”, conta-nos. E não há mistério quando ao ADN desse projeto: muito preto, vermelho e branco, com o máximo de adornos possível.

No entanto, tenta sempre sair da sua zona de conforto e é precisamente isso que está a retirar desta passagem pela ModaLisboa. “Gosto de admirar as silhuetas que os outros artistas utilizam. Ao vermos pessoas diferentes, conseguimos expandir a nossa visão um pouco mais. Sinto que já vou embora daqui com imensa informação.”

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