Moda

Ágatha Ruiz de la Prada: a aristocrata rebelde que se revoltou contra a ditadura

A criadora espanhola celebrou 40 anos na indústria da moda. A mãe era deprimida e o pai um mulherengo que nunca a apoiou.
Fez parte da Movida Madrileña.

Há poucos designers com uma estética tão distinta como a de Ágatha Ruiz de la Prada. Ver um desfile da criadora espanhola é viver por alguns minutos num mundo de cores vivas, berrantes, exageradas, onde os corações, os olhos e as bocas passam de símbolos do nosso imaginário a formas materializadas em peças de roupa. Nada é razoável. É a vida transformada num desenho animado. 

Em março de 2021, Ágatha Ruiz de la Prada celebra 40 anos na indústria da moda. Olhando para o seu percurso, encontramos no movimento contracultura da Movida Madrileña, nos anos 80, algumas das influências que marcaram a construção do seu estilo, quando os desenhos de pop-art da criadora quiseram transformar Madrid num recreio cultural.

Foi nessa cidade que nasceu, em 1960. Era também lá que se encontrava a sede de Francisco Franco, ditador de Espanha durante 36 anos cinzentos, que já foram descritos por Ruiz de la Prada como “vazios de cultura”. Foi nessa época que muitos artistas fugiram do país e acabaram por criar alguns dos seus melhores trabalhos em exílio.

Apesar do clima político e social, a criadora sempre soube que queria dedicar a sua vida à moda. À “PBS” disse que escolheu esta área por ser “a forma mais rápida de deixar as pessoas felizes”. Depois da morte de Franco, o cinzento de Madrid transformou-se na sua tela enquanto estava a estagiar para o designer espanhol Pepe Rubio, que a levou para a Movida Madrileña. 

“Era uma explosão de liberdade depois da era triste de Franco”, contou à “Culture Trip“. Ruiz de la Prada e outros artistas proeminentes, músicos e realizadores como Pedro Almodóvar começaram a explorar tópicos que costumavam ser tabu, desde a sexualidade aos direitos das mulheres. Foi uma era de expressão artística como Espanha não via há décadas.

Numa entrevista publicada pela “Vogue” espanhola esta terça-feira, 23 de março, contou que foi a trabalhar com Pepe Rubio que decidiu que queria lançar a sua própria marca. Um dia perguntou ao pai se ele por acaso não teria um estúdio que lhe pudesse emprestar. Ele sugeriu que fosse visitar uma tia ao Escorial, nos arredores de Madrid, e lhe fizesse a mesma pergunta. 

Ágatha Ruiz de la Prada
Os bastidores do seu primeiro desfile.

Foi isso mesmo que fez. Encontrou-se com a tia Conchita, apresentou-lhe a ideia e foi-lhe cedido um apartamento muito velho com mais de 250 metros quadrados e casas de banho a apodrecerem. “A sua única condição era que deixasse entrar um grupo de pessoas todas as quartas-feiras para irem rezar o terço”, recorda.

Pouco tempo depois, o pai fez obras noutro apartamento mais pequeno do mesmo prédio. Ficou como novo e ela mudou-se para lá. Juan Manuel Ruiz de la Prada era um arquiteto bem sucedido que Ágatha descreve como um “mulherengo tremendo”. Apesar de remodelar o estúdio, nunca se interessou verdadeiramente pelo seu trabalho e apenas foi ver um desfile seu. “A única coisa que importava eram as senhoras. Era o típico homem atraente, muito bom arquiteto, mas não compreendia o conceito de família. Acho que foi muito mau pai”, disse à “Vogue”.

Ainda assim, o trabalho do seu pai acabou por ter uma grande influência nas suas criações. O primeiro desfile que apresentou foi em 1981, no pico da Movida. O otimismo da sua estética surrealista e irreverente ajudou a quebrar o espírito pesado de uma era pós-Franco — e continua a representar a sua marca em pleno século XXI. É o vestuário a celebrar a liberdade e a experimentação artística.

Depois do sucesso do primeiro desfile, transformou o pequeno estúdio remodelado numa loja. Nas horas vagas, era nesse espaço que recebia outros artistas e organizava grandes festas. Ao mesmo tempo, o reconhecimento internacional foi crescendo ao longo dos anos 80 e os convites para expor no estrangeiro continuavam a chegar.

No entanto, a passagem para o mainstream deu-se apenas em 1992, quando percebeu que só conseguiria pagar as contas todas ao final do mês se assinasse um contrato com um grande retalhista. O plano era levar a sua marca ao mundo inteiro e a parceria que acabou por fechar com o El Corte Inglés veio acompanhado por uma explosão nas vendas.

“Num ano estávamos a vender 100 [peças], no outro 500, no outro 12 mil”, contou à “BBC“, acrescentando: “Foi como um milagre”. Seguiram-se parcerias com marcas multinacionais como a Swatch, Kleenex ou a Disney e a marca Ágatha Ruiz de la Prada iniciou uma expansão para outras categorias de produto, como acessórios, cosméticos, decoração e viagens.

Ágatha Ruiz de la Prada
As influências da pop-art e do surrealismo são visíveis.

A 25 de março de 2011, para celebrar 30 anos na indústria, criou a Fundación Ágatha Ruiz de la Prada com o objetivo de documentar toda a história da marca e o seu legado. É um arquivo documental que junta as peças mais icónicas da criadora, mas também recortes de imprensa, desenhos e cartazes.

“Teve muito a ver com a história de Cristóbal Balenciaga, que para mim é um dos criadores mais importantes, ao lado de Yes Saint Laurent”, explicou à “Vogue” espanhola. Depois de morrer, foi feita uma fundação em homenagem ao designer espanhol e, segundo Ágatha, “notava-se a sua ausência”.

“Quando vejo as fotografias da fundação penso que Balenciaga não teria gostado nada. Não é o seu estilo, nem a sua época, nem compreendes nada dele ao estar ali. Assim, pensei que se ia fazer uma coisa assim, melhor fazê-la e ordena-la eu mesma, ao meu gosto. Que não venha depois outra pessoa dizer: ‘A Ágatha era assim’. Também me deu muito jeito para desanuviar a minha casa”, acrescentou.

Já a sua flagship store, um prédio com vários andares na Calle Serrano, uma das mais luxuosas de Madrid, mostra o longo caminho que percorreu desde o pequeno estúdio de 49 metros quadrados. Apesar da grandeza, o espaço que ocupa hoje mantém o espírito eletrizante dessa época, onde artistas e a criatividade são expostos ao lado das suas próprias coleções.

Ruiz de la Prada é uma das grandes famílias nobiliárquicas espanholas. Rebelde e irreverente, Ágatha foi educada num meio onde as mulheres não deviam trabalhar, mas antes ficar em casa a cuidar dos filhos e das tarefas domésticas. Em 1996, a aristocrata conheceu Pedro J. Ramírez, fundador do jornal espanhol “El Mundo”. Casaram e tiveram dois filhos — Tristán e Cósima — e separaram-se em 2016.

Refletindo sobre as quatro décadas de trabalho, diz que nunca ponderou parar, nem quando se ofereceram para lhe comprar a empresa. “A minha mãe nunca trabalhou e estava sempre muito deprimida. Sempre pensei que o trabalho era bom para tudo, mas sobretudo para a cabeça. Se te dói muito um pé, começas a trabalhar e esqueces-te. Por outro lado, se estás em casa convertes essa dor num problema que não é.”

Não faz ideia do que lhe reserva o futuro. A pandemia veio mudar tudo e acredita que um dos maiores ensinamentos a retirar é que não devemos viver em antecipação. “O que tenho muito claro é que há que trabalhar a 100 por cento e mais do que nunca. Se não tivermos vontade, se não tivermos energia, nenhum projeto vai em frente.”

Ágatha Ruiz de la Prada
Nasceu em 1960.

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