“As roupas podem fazer de nós felizes ou infelizes”. Inimiga autoproclamada do preto, Ágatha Ruiz de La Prada escolheu sempre o caminho a dopamina. Deste otimismo incurável da designer espanhola, já vimos nascer saias em forma de cupcake, brocados de smarties, xailes de gomas ou vestidos de donut.
Ao longo dos últimos anos, a criadora tem trazido um pouco desse universo cheio de cor até ao nosso País, através de exposições, desfiles ou espaços pop-up. Desta vez, é a protagonista de “Évora Luz”, uma exposição que pode ser visitada a partir deste sábado, 10 de janeiro, no Palácio Cadaval, em Évora. Fica disponível até 8 de março.
Foi a propósito desta mostra, com uma curadoria “onde cor, criatividade e identidade dialogam”, que a NiT falou com a estilista que passou as duas quatro décadas de carreira a ignorar regras e tendências — não só na roupa, mas também através de joias, perfumes ou estacionário.
É preciso recuar até movimento contracultura da Movida Madrileña, nos anos 80, algumas das influências que marcaram a construção do seu estilo, quando os desenhos de pop art da criadora quiseram transformar Madrid num recreio cultural. Na altura, com apenas 20 anos, já era uma viciada em cor.
Rebelde e irreverente, Ruiz de La Prada foi educada no meio de uma família aristocrata espanhola, onde as mulheres não deviam trabalhar, mas antes ficar em casa a cuidar dos filhos e das tarefas domésticas. Ela, por sua vez, escolheu transformar a vida numa espécie de desenho animado. Ainda pensou ser pintora, mas foi na moda que encontrou a resposta a uma sociedade cinzenta.
Neste regresso a Portugal, a estilista fala o que mais a inspira atualmente e sobre como a moda também pode (e deve) ser vista como uma forma de arte, dentro e fora de palácios e museus. Sobre o futuro, não esconde o apreço pela IA nas suas recentes coleções e a ambição de, para já, não querer parar.
Nos últimos anos tem regressado várias vezes a Portugal. O que a continua a trazer cá?
Já fiz exposições em vários locais, como na Triennale di Milano ou na Cordoaria de Lisboa. Também já tinha feito uma em Cascais, mas é a primeira vez que faço uma segunda exposição no mesmo lugar. A primeira vez [no Palácio do Cadaval] foi em 2017 e, desde então, muitas coisas mudaram. Viajo muito, mas considero que Portugal é um País muito importante para mim, porque mais ou menos 80 por cento do que produzi na minha vida foi feito cá. Parece-me importante continuar essa relação. Como quando temos um amigo e é importante vê-lo de vez em quando. Se não o vemos, não é um amigo.
Como foi pensada a curadoria desta exposição? Qual foi o ponto de partida?
O regresso deve-se a uma ideia que ocorreu à Duquesa do Cadaval, que queria fazer uma exposição com peças inspiradas no Natal. Como tenho muitas, pediu-me uma série de coordenados que lembrariam a época, algumas marcadas pelo brilho e que transformámos para captar o espírito. Foi por isso que decidimos chamá-la de Évora Luz. A verdade é que, quando vim cá, em julho, estava um calor que nunca senti na minha vida e vir no inverno muda muito a forma como vemos a seleção.
As suas peças estão cada vez mais presentes em museus e palácios. Sempre olhou para o seu trabalho como algo que poderia viver fora da passarela?
É algo muito importante para mim. Queria ter sido pintora e, pessoalmente, encanta-me o mundo da arte e dos museus. A moda tem muito a ver com o mundo da arte, então há anos que ando também por este circuito. Ainda esta semana, estive a almoçar com a Joana Vasconcelos, que vai inaugurar esta semana um espaço em Roma, com a Fundação Valentino. São dois mundos que estão sempre cada vez mais próximos e essa relação tem sido um elo condutor.
Em 2011, cumpriram-se 30 anos desde o meu primeiro desfile. Nesse dia, criei a minha Fundación Ágatha Ruiz de la Prada, dedicada aos meus arquivos, a um pouco de tudo o que faço, desde exposições a livros, artigos de imprensa ou objetos. Vou guardando tudo para estas oportunidades de as expor. E faço muitas, em todo o mundo. Vão-me pedindo sempre uma foto ou um fato para uma nova exposição. Há uma em Paris, no Museu das Artes Decorativas, outras em Nova Iorque.
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É considerada como “a designer da alegria”. Alguma vez sentiu que isso fazia com que fosse levada menos a sério no mundo da moda?
Acredito que choque como continuo a ficar chocada com o quão sério é Portugal. Quando chego cá, conheço senhores muito importantes e vejo-os vestidos de forma tão séria como via em Espanha, há 40 anos. O mesmo acontece com alguns hotéis onde fico, são muito frios e sérios. Gosto muito do design português, adoro os grandes arquitetos, como Álvaro Siza, mas a verdade é que pode ser muito frio. Graças a Deus, cada vez mais se usa cor.
Olhando para trás, essa alegria era uma escolha puramente estética ou também uma forma de marcar uma posição na indústria?
É uma parte da minha personalidade. Odeio a tristeza, detesto o preto. Quando me dizem que o preto é a cor da elegância, digo que não preciso de mostrar a ninguém que sou elegante. Já sou elegante o suficiente e não tenho qualquer insegurança com esse tema.
Quando começou a criar, o que mais a ajudou a chegar a esta identidade? O contexto em que cresceu influenciou?
Nasci em Madrid, mas a minha mãe era de Barcelona. O meu pai era um arquiteto, um dos mais modernos de Espanha e vivíamos numa casa super contemporânea. Ele era um grande colecionador de arte contemporânea, então sempre vivi muito na modernidade. Não me interessa viver no passado, mas sim no futuro.
Nesta fase da carreira, o que mais a inspira enquanto criativa?
Vivemos um momento de grandes mudanças. Há quase dois anos que tenho um diretor criativo [Javier Carrera Acosta] que é absolutamente genial. No último desfile que fiz em Madrid, começámos a trabalhar com inteligência artificial. Se a distribuição e a perceção da moda está a mudar, na minha idade, é importante entender o que está a acontecer e a adaptar-me. O meu primeiro desfile foi em 1981, já passaram os anos 80, 90 e 2000. Agora quero ver se sou capaz de me continuar a divertir e a trazer propostas que funcionem com esta idade. Ao mesmo tempo, estou a mudar muito a minha vida. Quando se é mais velho, não queres ter tantas lojas ou tantas coisas. Não podes ter tantas coisas. Vou, a pouco e pouco, reduzindo as minhas coisas, mas é muito difícil fazê-lo de um dia para o outro.

No caso da inteligência artificial, o que é que a entusiasma?
Nessa coleção, pedimos para a IA idealizar um desfile de Ágatha Ruiz De La Prada. Em três minutos, estava um desfile feito que serviu de ponto de partida para o processo criativo. Gostei muito do que fiz. Estamos a tentar usá-la de mais formas, em coisas mais comerciais. Vamos ver se somos capazes de aproveitá-la para vender mais e para produzir melhor.
Costuma dizer que “as roupas podem fazer-nos felizes ou infelizes”. Que tipo de peças infeliz e infeliz enquanto criadora e enquanto mulher?
O que me traz felicidade é, por exemplo, o algodão. Não te sujas facilmente com o algodão, não cheira mal e não te pica. Sou infeliz com produtos artificiais a tocar-me na pele, não gosto nada. Irrita-me qualquer peça que me atrapalhe, que seja desconfortável. Há uns anos, escrevi um livro sobre a moda cómoda, porque para mim é muito importante. Há estilistas que fazem conjuntos que são uma autêntica tortura para as mulheres.
Já afirmou várias vezes que nunca faria algo preto. Em 2026, mantém essa posição?
Sim, de momento não. Provavelmente nunca. Sou muito triste com roupa preta. Quando a minha fila era mais pequena e se chateava comigo, dizia aos jornalistas, durante os desfiles, que, quando a empresa passasse a ser dela, mandaria fazer todas as coleções em preto.
Com mais de 40 anos de carreira, como olha para a indústria da moda atual?
Ninguém sabe bem o que está a acontecer. O tema da Covid marcou muito a indústria e agora, por exemplo, vemos referências como a Saks perto de entrar em falência, com suspensão de pagamento. A indústria do luxo está num momento de muita crise e a indústria do fast fashion está cada vez maior.
Qual poderia ser a solução?
As pessoas precisam de entender que não têm de ter tanto, de comprar tanta roupa ou objetos. Estamos num momento muito interessante, a nível criativo, mas também muito difícil.
E no caso da Ágatha , como olha para o futuro da sua marca? Que projetos se seguem?
Como disse, temos o novo diretor criativo e estamos a fazer muitos produtos novos. Temos dezenas de desfiles por ano, muitas exposições e partilhamos tudo o que vamos fazendo nas redes sociais. Ágatha Ruiz De La Prada não vai parar tão cedo.
Portugal continuará a estar nesses planos?
Faço sempre um esforço por voltar. Dentro de três semanas, vou vir aqui para apresentar o meu livro, a história da minha vida, que está traduzido para português [“Ágatha Ruiz de la Prada – A Minha História”]. Sempre que posso e tenho a oportunidade, venho a Portugal. Não quero que os portugueses se esqueçam de mim.

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