Moda

Alves/Gonçalves: “A pandemia foi horrível para todos. Perdemos a sensação de liberdade”

A dupla de criadores vai encerrar a segunda parte da edição no sofá do Portugal Fashion na noite deste sábado.
Desfile em março de 2019.

Em tempos de pandemia, o Portugal Fashion reinventou-se e regressou para uma segunda parte da “The Sofa Edition” entre os dias 22 e 24 de abril, depois de uma primeira leva de desfiles entre os dias 18 e 20 de março. O Take 2 desta edição no sofá está a chegar ao fim e vai caber à dupla Alves/Gonçalves fechá-la com um desfile virtual que será transmitido em live streaming através da PF Digital TV, no site oficial da organização.

Pelas 20 horas deste sábado, poderá acompanhar em estreia absoluta a apresentação da nova coleção dos criadores portugueses para o outono/inverno de 2021/22. As gravações, no entanto, aconteceram na passada quinta-feira, 15 de abril, no exterior da Alfândega do Porto — o espaço onde, habitualmente, se centra toda a ação do Portugal Fashion.

Para José Manuel Gonçalves (que compõe metade da dupla ao lado de Manuel Alves), este intervalo de tempo deu-lhe demasiado tempo para repensar os moldes das gravações e questionar o resultado final. “Estou habituado a apresentar logo e pensar depois no que pode ser melhorado no futuro”, conta em entrevista à NiT.

Foi tudo feito com os meios que tinham disponíveis e o conceito acabou por se formar com essa consciência. O desfile foi gravado de noite, junto ao rio, e a luz futurista, misteriosa, vem refletida da água, mas também de Gaia, do lado de lá, e dos faróis dos carros que estavam parados por detrás dos modelos enquanto estas desfilavam as peças.

 
 
 
 
 
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“Queria que o desfile tivesse um ar de videoclipe ou de filme publicitário e que fosse um bocadinho dark. Nada muito alegre ou romântico, quis cortar essas coisas todas e que a luz intensificasse isso tudo, daí haver a iluminação dos próprios carros e de luzes laterais”, continua o designer. O conceito nasce de uma visão futurista que tem vindo a ser trabalhada por Alves/Gonçalves, de pensar no futuro sem refletir imagens recicladas do passado. 

Já sobre as peças da nova coleção, conta que foram construídas com círculos e semicírculos que se unem uns aos outros para resultar em propostas que fujam à regra normal. Os fios que são montados nessas estruturas, explica José Manuel Gonçalves, dão uma ideia de “centros e alvos” misturados com vários materiais.

Malhas de algodão, lãs, nylon, acolchoados e crepes de seda foram trabalhados de uma maneira tecnológica e futurista. No processo de criação, há sempre um trabalho posterior, carregado, que transforma as matérias-primas em algo maior, que as tira de um espaço redutor e reflete um certo brilho, uma certa carga.

“A pandemia foi horrível para todos nós, perdemos uma sensação de liberdade. Fomos educados, ou pelo menos eu já fui educado, com a liberdade de fazermos o que queremos e nos apetece”, comenta o criador sobre o último ano marcado pela Covid-19.

No entanto, acredita que não vale a pena baixar os braços. “O ser humano tem de ter sempre a capacidade de se adaptar, não é a chorar que vamos resolver nada. Prefiro pensar ‘ok, isto existe, mas somos muitos mais os que não têm Covid do que os que têm. Vamos lá avançar’.”

Como tantos outros criadores, acabou por descobrir áreas que, de outra forma, nunca teria explorado. Desenvolver mais a área do online, trabalhar as coleções com filme, apostar nas fotografias. “Não estou a lamentar assim tanto a falta do público, não vou chorar essa parte porque estive sempre a funcionar e a fazer coisas. Descobri áreas que, se calhar, nunca iria descobrir de outra forma”.

“Tenho imensas saudades dos desfiles, sou um defensor acérrimo dos desfiles, mas acho que não podemos estar toda a vida fechados nisso. Abrirmos as portas para reinventar as coisas é fundamental. Espero que, futuramente, venham novas ideias e outras maneiras de apresentar sem ser por causa da pandemia.”

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