Moda

Ana Salazar, 81 anos, a mulher de cabelo vermelho que nunca se rendeu ao peso do apelido

No dia em que a criadora celebra o aniversário, a NiT falou com a filha, Rita Salazar, sobre o pioneirismo da mãe na indústria.
Foi um nome crucial para o desenvolvimento nacional.

Ana Salazar foi uma das pioneiras da moda nacional, definindo os contornos da indústria no País. A mãe da moda portuguesa, como é conhecida, abriu caminho para os acontecimentos de moda — ou seja, os atuais desfiles —, e deu início à noção de design neste segmento. No dia em que a designer cumpre 81 anos de vida, a filha Rita Salazar, de 57 anos, recorda a carreira da mãe.

“[Ela] foi verdadeiramente visionária e inovadora”, começa por dizer à NiT, revelando que se sente orgulhosa pelo epíteto que lhe foi atribuído. Afinal, no período ditatorial, com Portugal isolado do resto do mundo, a estilista foi capaz de trazer novas tendências para Lisboa. Tudo começou com a abertura da loja Maçã, nos anos 70, primeiro em Alvalade e depois no número 87 da Rua do Carmo, no Chiado.

“Na época da Maçã, tinha apenas 10 anos, mas recordo-me perfeitamente desse tempo. Havia uma energia criativa muito forte e uma forma de estar diferente”, explica Rita. Todas as peças eram importadas de Londres e destacavam-se estilos como “as gangas délavé extremamente justas em cima e muito largas em baixo, os vestidos compridos com flores, as túnicas oversized, tops curtos e muito justos e os sapatos plataforma”.

O desejo de adquirir tudo o que, até então, não se vendia em Portugal atraía muita clientela ao espaço. “Recordo-me muito bem que, sempre que chegavam peças novas, formavam-se filas à porta da loja”, sublinha Rita. E acrescenta: “O ambiente era muito agradável, porque a minha mãe preocupava-se não só com a roupa, mas também com a maquilhagem e os cabelos que sugeria às colaboradoras e que as clientes adoravam. Acabavam por seguir as mesmas ideias”.

Um novo olhar sobre a moda

Num período de transição, com a queda do regime, Ana Salazar deu início à noção de design de moda em Portugal. Rompeu com a tradição do recurso a modistas e costureiras, desenvolvendo uma identidade reconhecível fundamental para que as suas peças de autor conquistassem um público mais alargado. O alcance das suas criações chegou, inclusive, a França.

“[Ela] sempre encarou a moda como uma área da cultura, em que há um design, uma funcionalidade e um conceito. As senhoras pediam às modistas para realizar os modelos que viam nas revistas e a minha mãe rompe de uma forma determinante com isso. Começou a criar as suas próprias coleções com um conceito, uma imagem, uma criação e um universo muito próprio”.

Entre Lisboa e Paris

De seguida, veio a internacionalização inevitável e foi dado um passo muito importante para a cultura de moda portuguesa. No ano de 1985, já com a marca em nome próprio, instala-se em Paris aconselhada pelo marido, Manuel Salazar, que fazia a gestão da insígnia. Rita explica as dificuldades sentidas: “Foi quando surgiu esta ideia que começo a trabalhar com os meus pais. Pode-se dizer que foi extremamente difícil por ter sido numa época em que a burocracia relativa à exportação era muito pesada, exigia-se um investimento financeiro gigante e havia uma enorme competitividade”.

No entanto, o esforço realizado levou à colocação de Ana Salazar ao lado de nomes como John Galliano, Helmut Lang, Vivienne Westwood, Romeo Gigli, Sybila, criadores emergentes na altura. E não se ficou por aí: “Em Paris, vestíamos atrizes, modelos e pessoas ligadas às artes e à cultura. Eram nomes que admirava enormemente e, de repente, começo a vê-las com as nossas coleções”.

A criadora construiu a imagem de uma mulher urbana, cujo guarda-roupa se revelava sensual e arrojado. Explorava drapeados e plissados, utilizava fechos de forma única e o vestido preto era reinterpretado a cada estação. A sensualidade discreta do seu vestido camiseiro, que surgiu na coleção primavera—verão de 1988, tornou-se uma peça icónica no seu trabalho e representava o equilíbrio entre o conforto e a irreverência.

O design era, de acordo com a filha, “uma estética de vanguarda e inovadora, em que o papel criativo era fundamental. As cores, formas e detalhes inusitados eram incorporados em peças intemporais. O preto marcou sempre muito as suas coleções e os acessórios eram marcantes”.

A criadora voltou a ser pioneira ao tornar-se na primeira estilista a pisar a passarela da ModaLisboa. Na edição de estreia, em 1991, Ana Salazar estava longe de ser um nome desconhecido. No Teatro São Luiz, consolidava este destaque ao elevar a apresentação das suas coleções através da sua atenção ao mise-en-scène e à forma de comunicar o vestuário.

“Para além da coleção, havia o espetáculo com a música, a história, a teatralidade das modelos que interpretavam o conceito e a imagem de cada desfile. Desta forma, entende-se o lado lúdico, imaginativo e sonhador da minha mãe”.

Ao “Diário de Notícias”, no dia do evento, Salazar afirmou: “A grande indústria segue tendências internacionais, cingindo-se a elas. Eu parto de um dado qualquer do quotidiano que me inspira no desenho a imprimir no meu vestuário”. Jogava pelas suas próprias regras, uma estratégia que a levou a construir um legado incontornável.

Ainda assim, seguia os calendários de moda internacionais e durante muito tempo foi a única criadora portuguesa a apresentar duas coleções anuais. De seis em seis meses, provava ser uma visionária com propostas de inesgotável criatividade. Manteve-se uma presença assídua na ModaLisboa até 2011.

A mulher Ana Salazar é uma mulher com atitude, que sabe o que quer e gosta”, conclui. “Como muitas vezes a minha mãe diz, [ela] é uma mulher que traduz o ser e não o parecer”.

Rita Salazar, que começou cedo a trabalhar com a mãe, como referiu, já está na área da moda há mais de 20 anos. Atualmente, tem uma loja na Avenida de Roma, em Lisboa, e, no passado dia 16 de maio, abriu a Rita Salazar Store, outro espaço em Setúbal, na Rua Augusto Cardoso.

Carregue na galeria para ficar a conhecer melhor o estilo arrojado de Ana Salazar, sempre com o seu icónico cabelo vermelho.

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