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Antes, durante e depois. Como é um desfile de Gonçalo Peixoto na ModaLisboa?

O designer apresentou a nova coleção este sábado, 9 de março. A NiT acompanhou tudo o que aconteceu nos bastidores.
O designer mostrou um lado mais maduro.

Faltava pouco mais de uma hora para o início do desfile de Gonçalo Peixoto quando a fila se começou a formar no recinto do Pátio da Galé, em Lisboa. Todos queriam um lugar na plateia habitualmente sempre lotada do designer de 27 anos. Contrastando com o frenesim que se vivia à entrada, o criador estava tranquilamente sentado nos bastidores, a fazer scroll no telemóvel.

À sua volta, as modelos e a equipa de styling preparavam os últimos ajustes nas peças. Os charriots, repletos de propostas marcadas por uma paleta em tons de vermelho, branco e rosa, decoravam o pequeno espaço — e nada disto é uma coincidência. As tonalidades românticas lançavam o mote para a nova coleção.

Gonçalo Peixoto encerrou o segundo dia da 63.ª edição da ModaLisboa, que decorreu este sábado, 9 de março. O desfile, intitulado “For Love”, é “uma carta de amor às mulheres” que fazem parte da vida do criador. É graças à influência destas figuras femininas que tem amadurecido pessoal e profissionalmente.

“Quem costuma acompanhar o meu trabalho, vai notar que há uma rutura em relação ao que costumo fazer”, explica à NiT o designer que cria moda “sem imposição temática ou conceptual. “Comecei muito novo e nota-se um crescimento pessoal. É quase como se fosse também uma forma de comunicar com o meu ‘eu mais novo’”.

Uma a uma, as modelos desfilavam com os visuais enquanto o stylist, Nelson Vieira, apontava o que era preciso melhorar: ajustava um cinto, compunha a bainha de uma saia ou dava um toque aos casacos. O ritmo aumentava à medida que os minutos avançavam, sobretudo com a chamada de presença.

Durante as provas.

“Há sempre muitos ajustes a fazer e hoje tivemos que fazer mais do que o habitual. Fizemos várias mudanças de última hora, mas é algo normal. É como andar de bicicleta”, referiu o responsável, que trabalha com Gonçalo desde o início da sua carreira, há cerca de 12 anos. 

Ainda assim, o ambiente estava “mais calmo do habitualmente”, revelou a aderecista Diana Cardoso. Até houve tempo para Gonçalo trazer seis caixas de pizza para dividir com a equipa — apesar de terem ficado intactas em cima de uma cadeira. No momento, estavam todos a pensar no desfile que já estava fora de horas.

Ali não há pudores, nem timidez. As manequins vestem e despem os conjuntos numa questão de segundos, sem prestarem atenção ao que as rodeia. Afinal, não há tempo a perder e a nudez faz parte do dia a dia de quem trabalha nos bastidores desta indústria. “Não te preocupes, não vais nua”, brincou o stylist durante o ensaio.  

“A mulher Gonçalo Peixoto cresceu comigo”

Entre as modelos que iam aparecendo aos poucos, encontrava-se Nina, de 27 anos. A ucraniana, que nunca tinha tida trabalhado com o designer, estava apaixonada pela peça transparente com detalhes bordados que tinha no corpo. “Sinto que até era capaz de comprar o vestido para mim”, confessou.

A opinião é partilhada pelas clientes que acompanham a carreira de Gonçalo desde o início. “Estas mulheres cresceram comigo e havia necessidade de um guarda-roupa menos juvenil. Há um lado sexy, mas também mais adulto e virado para alguém independente.”

A mudança traduz-se numa estética que o designer começou a idealizar no ano passado — e que agora cumpriu. O protagonismo virou-se para o trabalho manual com bordados à mão e aplicações nos tecidos. “São peças criadas como obras de arte. Há casacos com centenas de missangas que levaram mais de 300 horas”, explica.

Apesar da evolução, não faltaram as habituais transparências e rendados que fazem parte do ADN da marca. Ainda assim, num dos poucos momentos em que esteve nos bastidores, o criativo apresentou à NiT um bestseller que foge a esta regra: um vestido vermelho, curto e com dezenas de cristais. 

“Só encontrámos a peça viral cinco dias antes de finalizar a coleção”, admite. Normalmente, o processo criativo só termina quando encontra uma proposta com maior valor comercial ou potencial para gerar hype nas redes sociais.

Gonçalo destacou o mini vestido vermelho.

O público faz parte do desfile

Sabe-se que estamos prestes a assistir a uma apresentação do trabalho de Gonçalo Peixoto quando a primeira fila está repleta de figuras conhecidas vestidas com as últimas propostas criadas pelo estilista, e com o telemóvel pronto a filmar. Madalena Aragão, Mariana Machado, Rita Pereira, Bárbara Bandeira e Isaac Alfaiate são apenas alguns dos nomes que marcaram presença nos lugares mais cobiçados.

No dia anterior, o criador aproveitou para assistir aos desfiles dos colegas e avaliar onde iria sentar cada convidado. “É tudo muito pensado e temos uma primeira fila muito forte. É algo que faz parte do meu negócio e que nos aproxima do público. Não podem estar sentadas num ponto de viragem, porque precisam de ferramentas para criar conteúdos.”

Sabe que o rótulo “designer das influencers” nem sempre tem um significado positivo, algo que não incomoda Peixoto. “Tenho muito orgulho no meu caminho profissional. Não sou nada elitista e só consigo sobreviver porque elas existem. Não faz sentido afastar-me de uma fatia tão grande da faturação da minha marca.”

Mesmo com o planeamento feito ao pormenor, os contratempos são inevitáveis. A poucos minutos do desfile começar, o criador percebeu que existiam lugares trocados. O descontentamento era notório quando pediu a várias pessoas que saíssem da sala e ficassem apenas os aderecistas e as modelos — que aproveitaram os últimos momentos para tirar selfies.

Quando a música começou a tocar, antes da grande entrada, estavam alinhadas e começaram a dançar. Ao som de Rosalía — “A Palé” e “BIZCOCHITO” foram os temas escolhidos —, as manequins estavam prontas para apresentar as novas propostas de Gonçalo Peixoto.

Momentos antes da grande entrada na passarela.

Por volta das 23h15, quase uma hora depois do previsto, as luzes apagaram-se para dar início ao momento mais esperado da noite. Durante cerca de 15 minutos, os brilhos e as transparências foram alternando com os casacos de fazenda e os sobretudos mais estruturados.

Pelo meio, havia também saias mais compridas. Uma delas era tão justa que a própria modelo teve dificuldade em manter o passo ao ritmo desejado. Já na segunda volta, um membro da equipa alertou: “Ou ela corta a saia, ou não passa”. O desfecho não foi tão trágico: bastou levantar um pouco o tecido para transmitir a habitual magia do estilista. 

“Podem surgir imprevistos, claro, mas fazemos muito bem o nosso trabalho de casa. O ambiente é super tranquilo”, sublinhou. “Costumo dizer que tenho a melhor equipa comigo. Se trabalham para mim, é porque são os melhores. Quem está aqui, sabe quem é o Gonçalo Peixoto enquanto indivíduo e enquanto marca.”

Não foi possível cumprir tudo o que estava previsto. “Para contar esta história, queria ter água na passarela e chuva a cair dentro do edifício, mas havia um risco associado. O sítio não é meu, haviam muitos designers a apresentar antes e temos que gerir as expetativas com a realidade”, confessa. 

No final, faz-se a festa

As reações não deixaram margem para dúvidas. Quando apareceu para fazer a vénia, o protagonista da noite foi recebido na sala principal do Pátio da Galé com uma ovação em pé. O mesmo aconteceu com as modelos quando chegaram novamente aos bastidores, com um sorriso na cara, e foram recebidas de forma calorosa por parte da equipa. 

O designer, por sua vez, mostrou-se grato. “Obrigado do fundo do coração”, repetiu, com a satisfação espelhada no rosto. “Correu super bem e o feedback está a ser muito positivo. Acredito que consegui passar a minha mensagem”, revela à NiT, em retrospetiva. 

A euforia após o sucesso do desfile.

No final, os bastidores ficaram repletos com as musas de Peixoto. Houve fotografias com Mariana Machado, abraços fortes a Madalena Aragão e uma troca de elogios com Bárbara Bandeira. “Quando estou a desenhar e faço os fittings, penso nelas. Já as conheço bem, sei o que gostam e o que querem usar”, acrescenta.

A prova disso é o momento em que Rita Pereira finge que vai roubar as peças todas. Pelo meio, a atriz aproveitou para fazer alguns comentários divertidos. “Você arrasou, mas vou dar nos cornos à modelo que usou aquela saia e não a puxou para baixo”, disse, em tom de brincadeira. “Agora, vamos beber?”

O pedido, como acabámos por perceber, era irrecusável. A pequena sala nas traseiras do Pátio da Galé começou a ficar cada vez mais vazia, porque os festejos não terminaram ali. Quem o disse foi o próprio Gonçalo Peixoto no momento da despedida. “Agora vamos celebrar e beber muito álcool.”

Carregue na galeria para ver as imagens dos bastidores do desfile de Gonçalo Peixoto na 63.ª edição da ModaLisboa.

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