Moda

Ari Seth Cohen: o fotógrafo que retrata o estilo único de mulheres com mais de 60 anos

Começou por criar um blogue em homenagem à avó, em 2008. Já publicou três livros e acumula quase 400 mil seguidores.
Desenvolve relações de amizade com as mulheres.

Milhares de mulheres com mais de 60 anos já foram fotografadas por Ari Seth Cohen. O criativo imortaliza o estilo ousado e singular de pessoas mais velhas com quem se cruza na rua com uma intenção — provar que a idade não impede ninguém de ser uma referência no streetstyle. Tendo em conta os 400 mil seguidores que acumula e os três livros publicados, é possível afirmar que a missão de Ari está a ser bem-sucedida.

“A minha avó era a minha melhor amiga e a pessoa que me fez sentir mais seguro para me expressar criativamente”, começa por contar à NiT .“Ela permitia-me vasculhar os armários dela e do meu avô e brincámos juntos a vestirmo-nos.”

Numa fase inicial do seu percurso, Ari, de 35 anos, trabalhou com vestuário. Geriu várias lojas e trabalhou em diversos departamentos. Desde os seis anos que desenhava imagens de pessoas a usarem roupas extravagantes. Uma das suas influências foi precisamente a avô, que trabalhava numa livraria. Nos livros, procuravam juntos imagens onde se inspirar e ficava espantado com a forma como mulheres dos anos 30 e 40 se vestiam.

As pessoas que mais o cativam são as excêntricas.

“A fotografia era um meio para a mensagem que eu queria transmitir. O meu primeiro trabalho em Nova Iorque foi num museu e uma colega que estudava fotografia ia-me dando umas dicas enquanto eu andava na rua a fotografar. Comecei a ter aulas e aprendi fotografia com pessoas diferentes.”

Nunca esqueceu a avó

Em 2008, quando a avó morreu, mudou-se de Washington para Nova Iorque. A cidade norte-americana foi onde a ascendente estudou e, aconselhado por ela, decidiu seguir o seu caminho. Ao explorar as ruas nova-iorquinas, começou a conhecer, falar e fotografar mulheres na rua, numa altura em que “se começava a escrever sobre streetstyle e eu nunca via nada sobre pessoas mais velhas”.

Ao mesmo tempo, queria voltar a aproximar-se dessa faixa etária geração, prestando um tributo à matriarca que perdeu. Começou o blogue “Advanced Style” no ano em que se mudou para a Nova Iorque, porque “sabia que era necessário mostrar outro lado do envelhecimento, que não estava a ser retratado na moda”.

Devido à sua infância, a sua visão divergia completamente daquela que os meios de comunicação também transmitiam. Olhava para o envelhecimento de forma positiva e sempre quis ser tão confiante quanto a avó. Só percebeu que nem toda a gente tinha uma relação fácil com a passagem do tempo quando os amigos em Nova Iorque começaram a mostra-se preocupados à medida que se aproximavam dos 30 anos.

Da fotografia à edição, sempre fez a maior parte do seu trabalho sozinho. A única exceção é o formato vídeo, onde conta com o apoio de uma amiga, Lenna, que o acompanha.

Um puzzle de estilos e identidades

“A primeira mulher que se tornou a minha musa em Nova Iorque, chama-se Mimi Weddell. Estava nos seus 90 anos e era muito elegante, usava sempre chapéu. Sempre adorei fotografar quem tinha peças que usava há 50 ou 60 anos”, adianta. Embora muitas das pessoas que fotografa tenham um visual pouco convencional, o seu foco é no estilo pessoal e na expressão: “Não se trata de teres ou não uma T-shirt branca vestida, é sobre a forma como a usas”.

Nas redes sociais, continua a receber comentários que afirmam que nada daquilo representa a moda. E, de facto, nunca foi essa a intenção do fotógrafo. O propósito foi, desde o início, fazer com que as pessoas se sentissem bem sobre o seu próprio envelhecimento e que se sentissem vistas, acima de tudo.

Por vezes, este olhar sobre a moda numa idade avançada, causa confusão até nas musas. Numa panóplia de memórias, Ari recorda uma mulher num casaco de leopardo e um chapéu que, quando convidada, questionou o motivo do artista a querer fotografar. “Sou uma mulher velha”, disparou, na altura.

“Estas mulheres tornaram-se nas minhas melhores amigas”

Ari recorda-se ainda de uma das maiores estrelas do projeto, que faleceu em 2021. Ilona Royce Smithkin foi-lhe sugerida como modelo por vários amigos, que trabalhavam na área da moda. Ao ouvir falar desta pessoa única com cabelo vermelho e enormes pestanas na mesma cor, decidiu que tinha de a conhecer: “Quando me cruzei com ela, pontapeou a perna para o céu, colocou o braço no ar e começou logo a posar para mim”.

“Estas mulheres tornaram-se nas minhas melhores amigas. Mantenho o contacto com mulheres que fotografei um pouco por todo o mundo”, acrescenta. Curiosamente, uma das suas modelos favoritas é portuguesa. Chama-se Nazaré, tem um estúdio de tatuagens em Sintra e faz parte do mais recente dos três livros que já publicou.

Embora tenha começado por ser um blogue, não demorou muito até o projeto se tornar mais sério. Ainda em 2008, enviou uma proposta para a imprensa onde apresentava a sua visão artística. Um ano mais tarde, foi convidado para uma entrevista pelo “New York Times” e surgiu a possibilidade de assinar um contrato para publicar o seu primeiro livro, “Advanced Style”, em 2012.

“Estava hesitante, mas tinha que lançar o livro antes que outra pessoa o fizesse. A minha avó era bibliotecária, então achei que seria a melhor forma de a homenagear.” Mais tarde, em 2016, publicou uma segunda verão. O último lançamento, “Advanced Love”, publicado em 2018, foca-se no amor e nos relacionamentos entre pessoas mais velhas.

“Atualmente, estou a fotografar para um projeto chamado “Advanced Pets” e é sobre donos de animais de estimação com estilo”, revela. “Estão acompanhados pelos seus animais e já enviei a proposta. Aguardo resposta de uma editora.”

Carregue na galeria para descobrir algumas das mulheres fotografadas por Ari Seth Cohen.

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