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Arte D’Nox Crioulo: o cabo-verdiano da Praia que transforma sneakers em obras de arte

Marilson trabalha como jardineiro para pagar os materiais de pintura. Tudo começou com um favor a um amigo.
Personalizou os primeiros sneakers aos 18 anos.

Aos 7 anos, Marilson Pereira começou a fazer desenhos realistas na escola. Quando era apanhado nas aulas, os professores ficavam boquiabertos com o talento do miúdo. Se “alguns não acreditavam” no seu potencial, ainda fala com uma docente que continua a depositar confiança no seu sonho: tornar-se o melhor pintor de Cabo-Verde.

O jovem de 20 anos, que assina como Arte D’Nox Crioulo, tem ganho popularidade online a restaurar e personalizar sneakers. Os modelos gastos transformam-se em obras de arte, graças a retratos que vão de Cesária Évora, a voz da morna, às personagens de banda desenhada que todos conhecem.

Natural da Várzea, um dos bairros centrais da Praia, começou a personalizar sapatilhas em 2021, como autodidata. A ideia surgiu a partir de um amigo que queria um par exclusivo. Como já sabia das capacidades de Marilson, procurou-o para materializar o que tinha em mente: uma pintura do personagem Joker num modelo branco da Nike.

“Aos poucos começaram a aparecer mais clientes e percebi que podia investir neste sonho e mudar de vida”, explica à NiT. Quando terminou o 12.º ano, começou a trabalhar como jardineiro no Parlamento de Cabo Verde. É assim que continua a ganhar dinheiro para pagar os materiais que usa para personalizar as sapatilhas, mas quer fazer da arte a sua prioridade.

Para aperfeiçoar a sua técnica, em 2022, inscreveu-se numa formação em desenho e pintura, que acabou por não conclui. A falta de rendimentos para pagar as propinas e as deslocações levou-o a desistir do curso, mas não do seu objetivo. Em casa, continuou a praticar e a aprender sozinho.

Ao mesmo tempo, começou a ser incentivado pelos amigos a personalizar roupa e sapatos, usando as redes sociais como mostra. Quando publicou os primeiros resultados, as fotografias passaram a acumular likes, comentários e partilhas de utilizadores um pouco por todo o mundo. E já não eram só pessoas conhecidas a pedir.

De Cize a Amílcar Cabral

No já extenso portefólio de Marilson destaca-se uma gravura da cantora Cesária Évora (ou Cize, como é carinhosamente apelidada) que deu novos contornos ao seu trabalho — é, até ao momento, o seu projeto favorito. “É muito importante para mim, porque é a nossa musa e rainha. Já fazia desenhos dela há muito tempo e, quando um amigo teve a ideia, fiquei muito feliz”, acrescenta.

Já pintou também Amílcar Cabral, fundador da independência de Cabo Verde, mas nem só de ícones cabo-verdianos é feito o seu trabalho. Num par branco, pode pintar um simples girassol, por exemplo, ou figuras de anime. Para os mais novos, também já ilustrou Pikachu.

Arte D'Nox Crioulo: o cabo-verdiano da Praia que transforma sneakers em obras de arte depois
Arte D'Nox Crioulo: o cabo-verdiano da Praia que transforma sneakers em obras de arte antes

Para dar vida a cada par, o artista usa tintas acrílicas à base de água e pincéis, que encontra em papelarias locais. Um dos maiores desafios é que o stock destes espaços esgota rapidamente, complicando o seu trabalho.

Usa ainda uma airbrush (nome dado a uma máquina de pintura que distribui tinta a jato) para criar alguns efeitos, como o brilho ou o degradé. Por fim, aproveita o secador de cabelo para aperfeiçoar o resultado e otimizar o tempo de secagem.

Atualmente, o feedback é maioritariamente positivo, mas nem sempre foi assim. “No início, muitos clientes não ficavam satisfeitos com os desenhos mais realistas. Como não tinha dinheiro para comprar os equipamentos, era ainda mais desafiante”, conta.

Admite, porém, o resultado de algumas personalizações fica aquém do que gostaria. “A parte mais difícil é conseguir fazer uma imagem fiel das pessoas que me pedem. Desenhar a cara é, sem dúvida, a parte mais difícil, sobretudo se não tiver os materiais com a qualidade necessária.”

Marilson demora, em média, quatro horas a terminar cada modelo. Num dia, consegue transformar cerca de cinco pares e, se não existirem obstáculos, chega aos 15 por semana. Ainda assim, não consegue viver deste passatempo, que se tem tornado sério.

Desde que se lançou oficialmente, em maio, já começou a receber encomendas de outras ilhas de Cabo-Verde e até além-fronteiras, de países como Portugal. O custo de uma personalização, com os portes incluídos, é de 30€, sendo que o jovem quer “ir para outros países” e “mostrar esta habilidade nas artes”. Os interessados podem enviar as sapatilhas que querem transformar.

O artista conta ainda o apoio da mãe, com quem vive e onde encontrou sempre o incentivo que precisava para não desistir. Mesmo quando era avisada de que o filho passava as aulas a desenhar, Marília percebia que o miúdo tinha um sonho: comprou-lhe as primeiras tintas e não se inibe partilhar o que pensa sobre cada nova obra.

Para conhecer melhor o trabalho do artista, mais conhecido como Arte D’Nox Crioulo, pode seguir a sua página de Instagram. Carregue também na galeria para ver algumas das personalizações que já fez.

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