Moda

Ayres Gonçalo: o talentoso alfaiate português que já vestiu o Rei Carlos III

Aprendeu tudo o que sabe com o avô, trabalhou em três continentes e abriu o seu próprio atelier. Tem uma carreira impressionante.
Ayres começou a trabalhar aos 16 anos.

Ayres Gonçalo cresceu no seio de uma família tradicional de alfaiates. Se uma considerável percentagem da nossa personalidade depende do ambiente em que crescemos, a infância do criador foi crucial para a carreira de sucesso. Depois de ter trabalhado em três continentes, em 2011, instalou-se num atelier no número 22 da Praça D. Filipa de Lencastre, no Porto.

Porém, antes de se tornar num nome requisitado em todo o País, começou por ser um dos alfaiates mais jovens do Porto. O seu avô, Ayres Carneiro da Silva, era dono da loja Ayres Alta Costura e foi mesmo considerado um dos melhores alfaiates portugueses, com uma carreira de 70 anos. Agora, ainda vivo, Ayres continua a fazer parte da vida do neto.

“Quando eu era pequeno, a minha mãe trabalhava na loja do meu avô. Depois do infantário, tinha que ir para lá esperar que ela terminasse o trabalho”, conta à NiT. Naquela altura, ganhou uma verdadeira paixão pelo ofício. Entre tecidos, agulhas e tesouras deixou-se envolver pela forma como os materiais se transformavam numa peça de vestuário.

Além disso, “estava permanentemente ao pé dos alfaiates e das costureiras e gostava de os ver trabalhar” e tinha “liberdade para fazer o que queria”. Em vários momentos, pegava em alguns restos de tecidos de fatos e começava a riscar com giz, traçava um colete e pedia às costureiras para concretizarem a ideia.

Um colete foi precisamente a primeira peça que fez, quando tinha sete anos. Já não o tem, mas foi um momento que marcante. “[Estar no atelier] era um ritual para mim e para o meu irmão. Vivi muito a época da loja”, explica. Mais tarde, com 15 anos, vendeu a sua primeira peça, um par de calças que fez a pedido de uma amiga.

Apaixonado por cor e bastante observador, começou a gostar cada vez mais de moda. Percebeu que gostava tanto de um estilo clássico, como do streetwear. A sua capacidade de conjugar ambos fê-lo perceber que era o caminho que queria seguir. Por volta dos 16 anos, começou a trabalhar quase a tempo inteiro com o avô, que já tinha uma vasta clientela.

“Não havia Internet. O meu avô sempre assinou a revista L’Uomo e o que me chegava era através da publicação. Queria muito conhecer a alfaiataria internacional e desprender-me da imagem de ser o neto do patrão. Queria conhecer a realidade para um dia vir a ser patrão”.

Ayres Carneiro da Silva, a figura responsável pela carreira do neto.

A experiência com o Rei Carlos III

Foi numa passagem por Madrid que descobriu uma escola de alfaiataria. Mudou-se para a capital espanhola, em 2004, e dividiu o seu tempo entre os estudos noturnos, na Escuela Superior de Sastrería, e o trabalho com Pedro Muñoz, um dos melhores alfaiates madrilenos: “Fui bater à porta e pedi trabalho”. Assim tão simples.

Terminado o curso, estava certo de que queria trabalhar em Inglaterra. Em três semanas, conseguiu arranjar uma experiência na Gieves & Hawkes, situada no número 1 da Savile Row, a famosa rua londrina onde em cada porta encontramos uma alfaiataria. “Quando cheguei, não tinha nada a ver com Portugal e estavam um passo à frente de Madrid. Os fatos, já na altura, tinham preços a partir de 5 mil libras (aproximadamente 5700€) e o tipo de cliente era completamente diferente”.

Alguns dos membros da família real estavam na lista dessa clientela. Faziam uniformes militares para o príncipe Phillip, assim como para Harry e William. Em 2009, para comemorar os 300 anos da marca, recebeu uma visita do rei Carlos e da rainha Camilla, que decidiu fazer um fato. “Era eu quem estava ao seu lado, tinha uma fita métrica e tirei-lhe logo as medidas”, diz. Recorda-se da simpatia e da conversa com Camilla Parker-Bowles, que notou na sua pronúncia e mostrou o seu encanto pelo Douro.

Tratou-se de um conjunto completo azul escuro e xadrez. “Curiosamente, nunca o vi numa fotografia ou revista com o fato vestido até que um dia estou em São Paulo, entro numa galeria de arte e encontro uma imagem do atual rei com esse fato vestido”, recorda.

Sobre Isabel II, teve a oportunidade de fazer almofadas. No entanto, nunca a conheceu pessoalmente. Ayres explica: “Há muito tempo que a rainha não saía para fazer visitas, estava na vida dela. Uma pessoa chega aos 70 anos e perde a genica”.

Depois de uma temporada em Londres, entre 2006 e 2010, foi convidado para mudar-se para Nova Iorque. Com um certificado da Savile Row Bespoke, que o intitulou como alfaiate de rua, o alfaiate — na altura com 29 anos — queria uma nova aventura. Passou a trabalhar com a insígnia Michael Andrews Bespoke. Enquanto estava em Nova Iorque, a produção era feita em Hong Kong, pelo que passou este período a viajar entre a América do Norte e a Ásia.

O regresso a casa

A minha intuição era regressar a Portugal, porque queria dar continuidade à marca do meu avô. Ele já tinha fechado, mas reabri o negócio”, revela. No entanto, sentiu necessidade de abrir o seu próprio atelier, onde trabalha para todo o mundo a partir não só do País, mas da cidade que o viu crescer. A segurança e a qualidade de vida não foram os únicos fatores em conta: “Acima de tudo, [pensei na] família. Eu nasci no Porto e sinto as ruas da cidade como se fossem minhas”.

Desenhou o seu próprio site, escolheu a música e escreveu o texto de apresentação. Inaugurou no número 22 da Praça D. Filipa de Lencastre, no Porto, onde os tons de verde escuro se misturam com o aspeto natural da madeira. Destaca-se ainda a vista privilegiada sobre a cidade.

Neste espaço, as peças distinguem-se pela criatividade. Mas o resultado final depende sempre de cada cliente, sendo que há pessoas com gostos “extremamente clássicos, outros mais atrevidos”. Porém, dá sempre o seu toque pessoal com mão de obra qualificada. O casaco de trespasse, com apenas um botão, e os forros coloridos tornaram-se muito característicos no trabalho do alfaiate.

Além da localização nortenha, Ayres conta com outro atelier em Lisboa. Situado no número 19 da rua Rodrigues de Sampaio, na Avenida da Liberdade, tenta estar próximo das pessoas que o procuram na capital. Basta subir até ao andar 2-C e descobrir o universo de corte e costura que o alfaiate construiu.

Carregue na galeria para conhecer um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido por Ayres Gonçalo. Os preços oscilam entre os 2500 euros, no caso de um fato de duas peças, e 3800 euros, para um fato completo.

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