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“Chamem-me vadia ou bruxa, mas não avó”. Aos 77 anos, Debra é um ícone de estilo

A influencer começou a brincar com roupa aos três anos. Agora, cria chapéus impressionantes e a criatividade é a sua maior aliada.
Debra soma mais de 40 mil seguidores.

A nossa visão artística flui em paralelo com a nossa experiência de vida. Aos 77 anos, Debra Rapoport tornou-se um ícone de estilo pela forma como reflete o seu vasto mundo interior numa estética eclética e divertida. Nascida e criada em Nova Iorque, foi-se mantendo fiel aos seus ideais e é considerada uma mentora por pessoas de todas as idades. A palavra de ordem, na forma como se apresenta, é a criatividade.

Mesmo nos dias frios, a influencer não abdica de pensar em todos os pormenores. “Tenho de sair de casa e, como está a chover, estou a usar um vestido quente e confortável. Vou colocar um casaco que adoro, porque o teci há 50 anos”, conta à NiT, antes de começar a contar a sua história. “Não coloquei o meu batom e devia tê-lo feito”.

Além do batom, falta ter um chapéu a ornamentar a cabeça. O acessório tornou-se na sua imagem de marca, uma vez que, através de materiais reciclados ou encontrados, é capaz de criar obras dignas de museu. E não tem dúvidas: “Tudo é um chapéu. Quando encontro algo nas ruas ou em minha casa, sei consigo sempre transformar aquilo numa peça”.

“Quando entramos num espaço, é preciso enquadrar o rosto. É isso que as pessoas vão ver. Não vão olhar logo para os sapatos de 20 mil dólares. O que vai fazer com que as pessoas queiram falar contigo é o teu rosto, o teu sorriso e a forma como os teus olhos se destacam”, refere, sobre o potencial daquele que se tornou o seu acessório favorito.

Um lar fértil para a criatividade

A relação de Debra com o guarda-roupa começou quando tinha apenas três anos de idade. Partilhava com a irmã a paixão por brincar com peças de roupa e, encorajadas pela mãe e pela avó, viram a sua criatividade cultivada. Exploravam com tecidos e, já nesta altura, percebia que uma lâmpada podia ser alterada, colocada na cabeça e resultar em algo deslumbrante.

Eu e a minha irmã éramos muito tímidas. Vestirmo-nos como queríamos permitiu-nos ser mais divertidas e genuínas. A nossa mãe adorava ir às compras e deixava-nos comprar o que queríamos. Podíamos expressar-nos sempre de forma não verbal”, explica.

Na escola, já era vista como excêntrica. Enquanto os outros alunos vestiam jeans, T-shirts e sneakers — o outfit que Debra menos gosta —, as cores e as texturas predominavam nos looks da norte-americana: “Reparei como as pessoas se conformavam, mas ser original é algo tão intuitivo. Não é um processo intelectual. Olho ao espelho, pergunto-me quem sou, como me sinto e sei logo o que colocar no meu corpo”.

Encontravam artigos interessantes que importavam de Itália ou de França, mas também usavam saias xadrez de lã e sweaters tricotadas pela avó. Como viviam uma vida muito saudável, nunca tinham dias em que ficavam em casa doentes. A mãe não achava justo e, em alternativa, deixava-as ter dias de bem-estar, onde iam a lojas de antiguidades.

Tanto a mãe, como a avó foram uma grande influência. Ainda durante a infância, iam para a máquina de costura da matriarca, pegavam na gaveta e atiravam todos os botões para o chão. Enquanto o avô as acusava de estarem a desarrumar tudo, a avó não hesitava: “Está calado, que elas estão a ser criativas”, dizia. “Essa ideia percorre cada célula no meu corpo. Não podemos ser originais sem um pouco de caos”.

Das aulas à horticultura

Formou-se no estudo de têxteis e, terminados os estudos, conseguiu logo um emprego numa universidade na Califórnia. Da tecelagem ao macramé e pinturas naturais, podia ensinar o que queria. Manteve-se na instituição durante oito anos, até que sentiu necessidade de mudar de vida e reformou-se do ensino aos 35 anos: “Não gostava das questões académicas mais administrativas. Desisti, divorciei-me e regressei a Nova Iorque”.

Nesta fase de transição, nunca deixou de fazer chapéus, uma arte que começou há cerca de cinco décadas. Usava materiais como fitas de cassetes, que tricotava. “Nunca me interessei por moda, mas pelo estilo pessoal. Moda para mim é sobre tendências, fazer compras e consumismo”.

Nunca vai encontrar Debra com um look preto.

Uns anos mais tarde, chegou a lançar um negócio de flores, mesmo não sabendo nada sobre horticultura. A verdade é que a criação de um arranjo floral, em grande parte, parece-se com a criação de têxteis. Durante 16 anos, desenvolveu um negócio ultrajante, porque numa altura em que o minimalismo dominava, optava pelo lado oposto. E as próprias flores acabavam, também elas, por resultarem em chapéus: “Muitas vezes usava folhas, pintava as pontas e construía algo”.

Debra Debris (que significa destroços, em português) — como é apelidada carinhosamente pelos seguidores, por usar materiais velhos e usados — tornou-se uma mentora para a comunidade que construiu. Também aceita o termo de influencer sénior, mas há um termo que está fora de questão: “Quando me chamam de avó, é quando enlouqueço. Não sou mãe e não vou avó. Chamem-me vadia, bruxa, mas não me chamem avó”.

Para todas estas pessoas, contribui com vários ensinamentos. O primeiro é de que o estilo é uma forma de cura. Ao contrário de uma ida ao shopping, estamos “a explorar o nosso interior numa forma de meditação. Encontras o que faz sentido teres no teu corpo e tudo funciona de forma harmoniosa”.

O lema dos quatro T

O principal mantra que tem difundido nas redes sociais consiste em quatro pilares. O primeiro passa por questionar qual é a nossa verdade (truth). “A nossa cultura nega-nos nisso e é empurrado para o fundo das nossas entranhas, então temos que perder tempo para ir à procura”. Segue-se a confiança (trust), algo necessário quando o nosso instinto nos diz que não conseguimos fazer algo que nos parece correto.

“O terceiro T é sobre ser tolerante e, então, embrulha-se tudo com ternura. As nossas vidas estão a ser ditadas pela publicidade e pelo materialismo e, por isso, estamos cheios de problemas”, desabafa.

Quando se sente deprimida, o efeito curandeiro do estilo volta a ser uma força motriz na sua vida. Olha para todos os jovens que conhece, que estão a fazer algo diferente e vai criando amizades com pessoas mais novas, que querem estar rodeadas de pessoas com experiência. Quando vão ter com ela, pára e fala — sobre o quanto gosta de se vestir com todas as cores do arco-íris ou sobre a importância de fazer as refeições também com cores.

“Todos somos criativos. Estarmos mais próximos do criador quando criamos”, conclui. “Um amigo meu diz que, se posso fazer uma sanduíche, isso é um ato criativo. Cozinhar, jardinagem, pintar a Mona Lisa. É apenas energia, vem do meu interior e não importa se estou a fazer um chapéu com um saco de papel ou a pintar uma tela com tinta a óleo”.

Carregue na galeria para ver mais imagens de Debra Debris, incluindo os seus chapéus mirabolantes.  Leia também outras histórias inspiradoras de mulheres mais velhas como a da portuguesa Nazaré Pinela, da estilista Linda Rodin ou da antiga professora Laura Braz.

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