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Moda

Como as roupas baratas e descartáveis estão a ajudar a destruir o planeta

Feitas de têxteis sintéticos, são responsáveis pela disseminação de microplásticos. Mas o problema também está em nós.
A culpa também é nossa

Está quase sempre presente na maioria das roupas que agarramos na febre dos saldos, escondido no rótulo da composição — sobretudo nas tentadoras pechinchas das marcas de fast fashion. Chama-se poliéster e guarda, em parte, o segredo do sucesso destas roupas.

As coleções renovam-se a uma velocidade estonteante. As tendências também. Os preços baixos ajudam a torná-las ainda mais rapidamente obsoletas. Para quê usar o mesmo velho cachecol da estação passada quando há um novo e mais giro ao preço de um par de cafés?

O surgimento destas marcas que produzem coleções a um ritmo frenético — e as vendem a um ritmo ainda maior — coincide com a explosão na produção destas fibras sintéticas que hoje roubam o espaço aos tecidos mais nobres. Mais baratos, mais fáceis de produzir, são a arma secreta dos preços competitivos.

Apesar de terem surgido com os nylons na década de 30, no caso concreto do poliéster, ele só é inventado na década seguinte, no Reino Unido. E desde os anos 80 que a produção do material multiplicou-se por dez. Representa hoje 51 por cento de toda a fibra produzida, duas vezes mais representativa do que a produção de algodão.

Em tempos a fibra natural mais popular em todo o mundo, o algodão foi assim atirado para um segundo plano. Não é fácil competir com um material barato, fácil de combinar com outros têxteis e que permite reduzir os custos de produção e de venda.

A tendência ditou assim que caminharíamos para um cenário onde as nossas roupas passariam a ser feitas de plástico. Poliéster, nylon, acrílico, poliamida, elastano. De vez em quando, a ocasional percentagem de lã ou algodão.

O poliéster é e continua a ser rei — famoso também por estar na origem do politereftalato de etileno, presente na maioria das garrafas de plástico que usamos diariamente. Derivado do crude, é uma substância viscosa que é depois transformada em pequenas e longas fibras que, quando entrelaçadas, formam o têxtil que hoje conhecemos.

Entre 1980 e 2007, a produção anual disparou de 5 milhões de toneladas para 30 milhões. Estima-se que esse número possa atingir os 90 milhões em 2025.

Prático e barato, o que há para não gostar? À partida nada. Contudo, na última década, estudos provaram que estes plásticos se tornaram numa espécie de inimigos invisíveis, causadores de uma catástrofe ambiental de proporções que ainda estão por desvendar.

O inimigo invisível

O poliéster está longe de ser o único super-vilão nesta história, embora seja o principal. Estudos recentes indicam que o impacto ambiental de produção de algodão, entre uso de pesticidas e de fertiliantes, pode até ser superior ao do poliéster. O problema vem depois. 

Em 2016, um estudo da Universidade da Califórnia revelou que em média, os casacos de tecido polar feitos em poliéster libertam 1,7 gramas de microfibras de plásticos a cada lavagem. 

Noutra investigação, levada a cabo pela Universidade de Plymouth, procurou-se quantificar as microfibras de plástico libertadas nas lavagens de roupa domésticas. Os resultados foram esclarecedores.

Descobriram que, numa carga média de roupa de seis quilos, podem ser libertadas mais de 130 mil fibras de mistura de poliéster e algodão, mais de 400 mil de poliéster e acima de 700 mil de acrílico.

Uma carga média pode libertar meio milhão de fibras de poliéster

“Nem toda a gente sabe que muita da nossa roupa é feita de plásticos como poliéster e acrílico”, revela Imogen Napper, investigadora do estudo e doutoranda na universidade britânica. 

Esta acumulação de partículas é substancialmente responsável pela poluição dos mares e das águas. Um relatório da IUCN, citado pela Greenpeace, estima que 15 a 30 por cento da poluição marítima provocada por plásticos possam ter origem nos microplásticos libertados no uso doméstico e industrial, por oposição às fibras que se libertam pela degradação de objetos de plástico na água.

O mesmo relatório aponta para a lavagem de têxteis sintéticos como a origem de 35 por cento de todos os microplásticos que poluem o oceano. 

Derivados sintéticos do petróleo, são um recurso não-renovável que necessita de cerca de 70 milhões de barris por ano para serem produzidos. Tempo de decomposição na natureza? 200 anos.

O problema somos nós

A ciência não mente: em média, 12 por cento das roupas que fazem parte do guarda-roupa das mulheres, não são usadas. Foi isso que concluiu um estudo sociológico da Universidade de Manchester. 

Esse dado, embora não ofereça uma visão panorâmica do problema, é revelador do consumismo que leva a que, todos os anos, milhões de peças sejam produzidas, à medida que outros tantos milhões vão para o lixo ou permanecem por usar. Afinal, são baratas e descartáveis.

Os números mais recentes indicam que a indústria da moda é responsável por cerca de 10 por cento das emissões de gases de efeito de estufa e por 20 por cento do desperdício de água global. Só a produção têxtil liberta anualmente 1,2 mil milhões de toneladas. 

Toda esta indústria existe para alimentar um espírito de consumo que não parece querer abrandar. O mundo compra mais roupas do que nunca. Mais de 50 milhões de toneladas de roupa são compradas anualmente em todo o planeta e o comprador médio adquire, hoje, mais 60 por cento de peças do que há 15 anos. 

Em média, compramos 60% mais roupa do que há 15 anos

As tendências que duram um par de semanas e a natureza descartável da fast fashion são o motor desta máquina. E apesar das peças poderem durar muitos anos, quando bem cuidadas, a verdade é que ao fim de um ou dois anos passaram a habitar o recanto escuro dos guarda-roupas, ofuscadas pelas estrelas das novas coleções.

A que não fica esquecida é atirada para o lixo, por já não servir, por estar estragada ou simplesmente porque passou de moda. Todos os anos, descartamos cerca de 50 milhões de toneladas de roupa, sendo que cerca de 75 por cento acaba numa lixeira. Apenas um por cento da roupa descartada em 2017 foi reciclada. 

É certo que muitas marcas de fast fashion lançaram nos anos mais recentes campanhas que promovem produtos feitos através de práticas sustentáveis, com fibras sintéticas recicladas. O problema é que esse esforço é residual.

A maioria das peças vendidas nestas marcas não usam apenas uma fibra. Optam quase sempre por uma combinação de fibras naturais e plásticos, que tornam a reciclagem impossível.

“Uma t-shirt de 100% algodão contém outros componentes como etiquetas e costuras que normalmente são feitas de materiais como poliéster. Da mesma forma, um par de jeans pode ser feitos com algodão que é habitualmente misturado com elastano; e tem componentes como as braguilhas e botões e fios de costura de poliéster; além de serem pintados com tintas”, revela à “BBC” Chetna Prajapati, investigadora da Universidade de Loughborough.

Esta combinação complexa é um quebra-cabeças para o processo de reciclagem. Uma reciclagem eficaz exige que estes elementos sejam todos separados, o que muitas vezes se torna impossível de fazer.

O problema reside, em parte, na forma como consumimos este tipo de produtos. De qualquer forma, não podemos esperar que uma revolução subitamente interrompa o uso de fibras sintéticas — “isso é irrealista”, afirma a Greenpeace.

A organização ambiental avança, contudo, algumas soluções para o problema. “[As roupas] devem ser criadas com a durabilidade em mente, para que possam ser recicladas ao fim de vários anos de uso. E nós como consumidores temos um enorme papel a cumprir na prevenção da poluição por microfibras, basta que compremos menos.”

Também a Greenpeace tem os seus números. Num inquérito feito em 2015, concluiu-se que cerca de 40 por cento das roupas são raramente usadas. E em alguns casos, nuca lhes era retirada a etiqueta.

“Podemos mudar isso. Podemos comprar roupa vintage ou em segunda mão, fazer trocas de roupa ou renovar peças antigas que temos guardadas. A roupa não tem que ser novinha em folha para estar na moda”, advertem.

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