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Cuscuz: o projeto português de pai e filha está a conquistar o mundo da moda lá fora

Aos 25 anos, Ana Mendes é uma das jovens mais talentosas do País — e uma das 10 finalistas do concurso New Talent. Conheça a sua história.
Amâncio tem 62 anos e está ao lado da filha no projeto.

Ana Mendes fala do seu pai com um orgulho que poderia comover até os corações mais duros. Quando a designer de 25 anos estava na faculdade e lhe pediram para fazer o seu primeiro trabalho de Marketing, encontrou em Amâncio Neves, de 62, a inspiração para criar o seu projeto. Nessa altura, estava longe de imaginar que essa pequena tarefa académica no meio de tantas outras a iria levar, uns anos mais tarde, a apresentar a sua marca na Semana da Moda de Paris.

Agora, a Cuscuz passou de um projeto original de faculdade a uma marca procurada lá fora, que até lhe valeu a nomeação para finalista da segunda edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, a TVI e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e que elege os melhores jovens talentos do País na área do lifestyle com menos de 27 anos, O vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal. 

Comecemos pelo princípio. A história de sucesso de Ana teve início muito antes de nascer, quando o seu pai era apenas um miúdo de 14 anos e começou a experimentar sozinho a fotografia e as artes gráficas, num passado distante e analógico em que tudo era manual. Sem qualquer formação na área, foi um autodidata sem medo de se atirar a diferentes artes ao longo dos anos e transformou-se naquilo que a filha descreve como um “canivete suíço” — já fez de tudo. No entanto, as a dificuldades em ganhar uma vida através da paixão pela arte levaram-no, nos anos 70, a encontrar uma alternativa de trabalho enquanto motorista de transporte de medicamentos urgentes em várias zonas de Portugal e Espanha.

A culpa é das paletes

Na empresa onde seguiu a carreira atrás do volante, Amâncio começou a aproveitar as paletes de madeira que eram descartadas no armazém para ir para o lixo e a usá-las para construir tudo lá em casa, desde os móveis da sala às camas onde dormia a sua família. Quando estava a tirar o curso de Design de Multimédia na Universidade da Beira Interior, várias décadas mais tarde, Ana foi desafiada nessa fatídica aula de Marketing a criar um projeto visual para o desenvolvimento de uma marca — e foi aí que os skills de carpintaria do seu pai entraram em cena.

Em vez de apresentar a tarefa num formato tradicional, decidiu criar mesmo uns óculos de sol verdadeiros, feitos em madeira reaproveitada pelas mãos talentosas de Amâncio, e que acabaram por se tornar também na base dos seus projetos para as cadeiras de Programação, Gestão e Laboratório, em que desenvolveu conteúdos de vídeo e de fotografia.

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Qualquer pedaço de madeira transforma-se em matéria-prima.

No meio de tantos trabalhos, foi-lhe pedido pelos professores que criasse páginas de Facebook e Instagram como parte integrante do marketing de uma empresa, e quando deu por si tinha em 2015 uma marca montada, quase por acaso. “Nem estava a penar nisto como um negócio mas, três meses mais tarde, recebi uma mensagem de uma designer para fazermos uma colaboração”, recorda. Essa designer era a conceituada criadora portuguesa Catarina Oliveira e a colaboração de que falava tratava-se, nada mais, nada menos, do que uma parceria onde poderia apresentar a sua coleção de óculos de sol na ModaLisboa, em outubro de 2015, como um complemento à apresentação da criadora.

“Foi logo um dos desfiles principais do evento, com a TVI em direto, e eu com 18 anos a levar com isto tudo e sem fazer ideia do que se estava a passar à minha volta”, recorda Ana divertida. Hoje, as colaborações com designers de renome estão longe de ser algo estranho na sua vida e a Cuscuz já participou em desfiles de criadores como Eduarda Amorim, Fora de Jogo e Hugo Costa, em eventos que a levaram desde o Portugal Fashion até à Semana da Moda de Paris, uma experiência que recorda com grande entusiasmo.

Na realidade, este pequeno projeto artesanal foi até selecionado pela curadoria da influencer espanhola María Bernad — com quase 400 mil seguidores no Instagram — para ser uma das 16 marcas à venda numa plataforma exclusiva que lançou oficialmente em julho deste ano chamada Les Fleurs Studio, e que surgiu como mais uma prova de que o talento nacional está vivo e recomenda-se lá fora. “Somos um pai e uma filha sem financiamento algum, tudo é feito por nós”, sublinha Ana.

A sustentabilidade espontânea

“Como estamos num momento tão saturado na indústria de produção em massa, perdemos o gosto pelos processos manuais, pela tradição. A Cuscuz também traz um pouco de volta essa parte do antigamente positiva, que não vende apenas produtos de consumo, mas um bocadinho de história”, começa por explicar Ana sobre aquilo que caracterizou como a “sustentabilidade espontânea” do projeto. 

Todo o espírito da Cuscuz traz consigo um cuidado ambiental que é garantido pelos processos de fabrico tradicionais, que existiam muito antes do conceito de sustentabilidade ser uma tendência na indústria da moda. Os materiais que a marca usa são inteiramente reutilizados de restos de madeira de paletes, que vão recolher a oficinas de serralheiros e carpinteiros ou que lhes são entregues por pessoas da sua cidade, Coimbra, que já conhecem a dupla e a procuram para doar sobras que, de outra forma, seriam descartados.

“O meu pai sempre reutilizou, foi o meu avô que lhe passou isso. Nós queremos mesmo deixar essa mensagem de criar hábitos de consumo mais responsáveis e passar às pessoas essas práticas de reutilização”, continua. A Cuscuz é inteiramente produzida pelas mãos de Amâncio, numa garagem que foi transformada em atelier e que faz parte da casa dos pais. Ana desenha todos os modelos e o pai transforma-os em óculos de sol originais e sempre únicos, feitos inteiramente à mão, por vezes até com restos de portas ou de móveis de casa de banho — bastam 15 centímetros de madeira para produzir uma peça exclusiva. 

Um processo totalmente manual

Com o desenho de Ana, o pai constrói um molde em pinho e corta um pedaço de madeira onde demarca tudo a lápis, recortando-o depois à mão, com uma serra, sempre com a energia do seu próprio corpo. “Tudo o que temos de máquinas depende do nosso movimento”, explica a criadora. Até as lentes dos óculos são cortadas pelo pai individualmente e fornecidas em bruto por um produtor português do norte. Para criar um único par de óculos através deste processo inteiramente artesanal, precisam de um dia inteiro, que se traduz em dois de trabalho. A Cuscuz também não acumula stock, o que significa que os óculos que vendem são pedidos por encomenda, através do site, e feitos à medida de cada pedido específico.

“Cada peça é única já por si, porque cada madeira é única”, acrescenta, explicando que até numa tábua individual há partes que são trabalhadas de uma forma, respeitando as suas características naturais, e outras que exigem um tipo de técnica diferente. No fim, adicionam tintas à base de água, sempre com produtos vindos da natureza.

Com o passar do tempo, foram introduzindo também outros materiais, como a iúca, uma raiz tuberculosa comestível, extraída dos arbustos e usada para para fazer, por exemplo, pão e tapioca. A esta, adicionam resina, para lhe dar resistência sem recorrer a químicos. Também as borras de café que sobravam das refeições lá de casa são agora uma matéria-prima da empresa e as pequenas sobras de madeira que restavam dos óculos inspiraram a criação de brincos, uma opção que Ana explica ter surgido quando muitos fãs do projeto lhe pediram alternativas mais acessíveis ao produto principal.

A candidata ao New Talent precisa do prémio de 10 mil euros para poder promover o projeto e conseguir chegar além fronteiras, numa fase em que o reconhecimento internacional já começa a pedir mais tempo livre — é que Ana ainda não tem recursos para abandonar o seu trabalho como designer gráfica freelancer de forma a conseguir dedicar-se inteiramente à marca e fazê-la crescer à velocidade a que já é procurada.

O que também a preocupa — a si e ao ao seu pai — é a perda daquele carinho tão antigo que as pessoas tinham quando compravam algo especial. “É momento de se investir no produzido em Portugal, em projetos como a Cuscuz, em constituir um presente e futuro onde consigamos agir de forma a que a reutilização seja a palavra de ordem e tudo o que seja desperdício seja resgatado e receba uma nova vida”, apela a jovem portuguesa.

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Amâncio com os óculos e Ana com os brincos.

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