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De São Tomé à ModaLisboa: como Roselyn Silva está a redefinir o luxo africano

A criadora levou o público para um desfile no MUDE onde a “beleza étnica” se pintou de preto e branco. A marca já brilha lá fora.

Há dez anos, Roselyn Silva era um dos nomes que se apresentavam na primeira temporada da versão portuguesa do “Shark Tank”. Perante os tubarões que tinha à sua frente, surgiu convicta de que o luxo africano sempre existiu e que também tem espaço no mercado nacional. A prova disso é que, desde então, nunca mais parou.

Depois de se ter estreado na ModaLisboa no ano passado, em outubro, a criadora de origem africana está de volta ao calendário oficial do evento. Para arrancar o último dia de desfiles este domingo, 15 de março, levou o público para uma apresentação off location no MUDE – Museu do Design.

Com a coleção “Find Love”, a criativa propõe uma reflexão sobre dualidade. “No meio de tantas diferenças, peço ao público que encontre o amor no meio deste caso todo. Entre tantos contrastes, entre todo o preto e branco, as pessoas deviam procurar a união entre dois opostos. Trago essa celebração do amor, sem opostos”, conta à NiT a estilista natural de São Tomé e Príncipe.

Feitos a partir de tecidos africanos raros, combinados com sedas e rendas, os coordenados arrancaram com a aposta na camisaria. Seguiram-se várias propostas de alfaiataria clássica com mangas marcantes. Aos 41 anos, Silva exprime a sua origem através de silhuetas refinadas, afinal, as formas fazem parte da experiência desta engenheira civil de formação.

Ainda assim, admite: “Desta vez, à medida que ia tendo o meu processo criativo, não olhei tanto para as formas. Olhei mais para as emoções. É uma coleção extremamente emocional. Queria que as pessoas olhassem e, além da estética, se questionassem sobre o que estou a tentar comunicar.”

Foi isso que a levou a optar pelos dois tons mais neutros da moda. “A melhor forma de não distrair as pessoas é concentrar-me apenas em duas cores. Se usasse muitas, podiam dispersar-se”, continua a designer, conhecida pela elegância tradicional.

Quanto à localização, explica que “estar no Mude é uma oportunidade incrível”. “Enquanto criadora, poder partilhar o espaço com uma casa que recebe tão bem a parte é muito importante. É um espaço que visito, que gosto e que tem tudo a ver comigo enquanto criativa.”

Há 10 anos no mercado, a etiqueta homónima de Roselyn já tem um ADN bem vincado. Por isso mesmo, quis que esta coleção fosse além da marca e se tornasse numa celebração pessoal da criadora. “Trago orgulhosamente os padrões africanos, mas quem sou eu além de todas as cores?”, questionou-se.

À NiT, fala também sobre o impacto da participação da ModaLisboa, onde se apresenta pela segunda vez. “Há uma projeção internacional. Enquanto criadora, integrar a Lisboa Fashion Week é um desejo e, desde que recebi o convite, encarei como uma responsabilidade e uma missão.”

Acima de tudo, tentou procurar resposta a uma questão que tinha há muito tempo: como é que uma mulher negra, a trabalhar maioritariamente no mercado europeu, podia atrair esses dois públicos?

Ao que parece, encontrou a resposta. A marca já chegou a cidades como Nova Iorque e Paris e defende que, nos outros mercados, a sua definição de beleza étnica, com uma leitura mais ocidental, está a ter uma aceitação nas grandes capitais internacionais. “Sou uma voz onde outros ainda não são e acho que estou a fazer um bom trabalho. Estou feliz.”

O percurso de Roselyn Silva

Nascida em São Tomé e Príncipe, Roselyn Silva emigrou para Portugal aos quatro anos de idade. Nas décadas seguintes, dividiu o seu tempo entre o atletismo, tendo sido campeã nacional e ibérica, voluntariado e os estudos — primeiro, de engenharia de higiene e segurança e, só depois design e moda. Só parou aos 21 anos.

Antes de participar no programa “Shark Tank”, a criadora teve um pequeno atelier no Areeiro, no centro de Lisboa, onde criava peças exclusivas. Com um trabalho centrado nos tecidos africanos, a criadora consolidou aquela que é a primeira marca de luxo detida por pessoas negras em Portugal.

Durante a pandemia, desenvolveu também uma coleção de cariz social onde produziu batas hospitalares e impermeáveis produzidas pelas costureiras de São Tomé e Príncipe. Mais tarde, promoveu uma Campanha Solidária da Embaixada do país onde nasceu com a criação de máscaras.

Com mais de uma década de evolução criativa, trabalha atualmente na Praça da Alegria, tem outras lojas em Portugal e conseguiu internacionalizar a marca. Já foi destaque em diversas publicações nacionais e internacionais e passou a integrar o calendário oficial da ModaLisboa em outubro de 2025.

Carregue na galeria para ver imagens do desfile de Roselyn na ModaLisboa.

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