Moda

Diana Pereira, modelo dos anos 90: “A moda perdeu o glamour”

Tinha apenas 14 anos quando começou na indústria, mas causou logo furor. Em conversa com a NiT, fala sobre as suas experiências e a moda atual.
Trabalha como apresentadora.

Associamos imediatamente a palavra supermodelo a nomes como Naomi Campbell, Cindy Crawford, Claudia Schiffer e Linda Evangelista, que ajudaram a escrever uma página importante da história do mundo da moda. Os anos 90 foram, sem dúvida, o momento em que a indústria — incluindo a portuguesa — sofreu um boom. Diana Pereira foi um dos talentos emergentes que surgiram nessa mesma década.

Na altura, o processo para conseguir integrar a indústria era bastante distinto da atualidade. No caso da modelo nacional, foi através de um concurso beleza, o Supermodel Of The World, realizado em 1997. Tinha apenas 14 anos quando venceu a edição portuguesa. A adolescente de Coimbra, que se revelou um diamante em bruto, acabou por sair vencedora da final internacional do mesmo certame.

Optou por ficar em Portugal, apesar da possibilidade de ir viver para Nova Iorque, e construiu uma carreira que chamou à atenção do grande público e dos meios de comunicação social. Após várias décadas de sucesso, afastou-se da moda, focando-se em outros ofícios como o automobilismo, a apresentação televisiva e o design.

Devido ao seu legado na moda, Diana Pereira tem uma perspetiva da indústria única, baseada na sua experiência. Em conversa com a NiT fala sobre a forma como viveu esses anos e aponta as principais diferenças entre ao que se assistia nas passarelas nos anos 90 e como os desfiles e as modelos evoluíram.

Começou muito cedo na moda, numa altura em que a indústria explodiu. Como é recorda a sua entrada neste meio?
Lembro-me de olhar para a moda e o que gostava mais era a parte do estilismo. Tinha uma avó que trabalhava no Parque Mayer e tinha uma paixão enorme por tudo o que ela fazia. Depois, lembro-me que foi a época das supermodelos. Existia uma loucura com as top models internacionais e, de vez em quando, também vinham a Portugal, quando o País começou a ganhar espaço no mundo da moda.

Para mim, não surge como uma paixão. Quando pensei no concurso [Supermodel of the World], olhei para aquilo como uma oportunidade de conhecer o meio em si. Uma semana depois, tinha a Central Models a ligar-me, mas tinham receio, por eu ser tão nova. Passado algum tempo, fui a um concurso internacional em Los Angeles, ganhei, e foi aí que aconteceu o boom. Era uma coisa completamente diferente dos dias de hoje.

Fale-me dessas diferenças. Quais eram os principais desafios que uma modelo enfrentava?
O facto de estarmos num país novo, tínhamos que ter um mapa para cada sítio que fossemos. Andávamos carregadas com as fotografias para os castings, ou seja, tudo era à moda antiga. Desde 1997, para cá houve uma evolução enorme.

Existiam muitos obstáculos, claro, mas eu tive muita sorte em ganhar o concurso, porque era bastante protegida. O facto de apenas ter 14 anos levou a agência Ford a precaver-se, ao contrário de miúdas que andavam sozinhas e perdidas. Viviam em apartamentos de agências com pessoas que não conheciam. Eu estive numa redoma até ser maior de idade.

Até porque era um trabalho desgastante não só a nível físico, mas também emocional.
Muito. Estás a trabalhar com o teu corpo, a expor uma parte de ti muito importante. As horas de trabalho são imensas e as pessoas não fazem ideia do que é fotografar para o verão em pleno inverno. As viagens, andar de um lado para o outro, os castings, estar sempre a conhecer pessoas novas. E, se há sempre alguém simpático, também há muita gente que dá cabo de ti.

Nesta altura, os desfiles eram espetáculos muito teatrais. Exigiam muitos ensaios?
Sem dúvida. Hoje em dia, mandam-te entrar e sair. Antes era inacreditável, porque havia coreografias que tínhamos de apontar para cada entrada e cada saída. As poses também eram estudadas, mas era muito divertido.

Sente falta dessa performance coreografada na moda atual?
O espetáculo em si é uma coisa que os grandes designers ainda fazem lá fora. Vês cenários, orquestras e toda a produção. A manequim ter de acompanhar isso, sim, faz falta. Deve encarar a personagem em que o designer se inspirou, com a expressão e a maneira de caminhar. Atualmente, vejo praticamente toda a gente com a mesma expressão em todos os desfiles. Acho que é giro interpretar o que o estilista quer demonstrar, às vezes é alegria, e é raríssimo ver alguém a sorrir.

Passaram várias décadas desde que vimos Cindy Crawford ou Claudia Schiffer na passarela. Nota uma diferença muito grande entre os desfiles dessa época e os atuais?
Sem dúvida. Mesmo em relação aos corpos com que elas desfilavam. A minha fase foi a pior em termos de moda, no final dos anos 90, porque eram muito magras e pareciam todas doentes. Antes de mim, foi a fase mais bonita em termos de sensualidade e pela maneira como olhávamos e víamos um sorriso e um ar saudável. Era giro voltar a esse glamour, porque acho que a moda perdeu o glamour.

A ModaLisboa e o Portugal Fashion são os principais palcos, em Portugal, para os talentos nacionais. Que impressão tem dos jovens que desfilam nestas apresentações?
Não tenho acompanhado muito, mas faz-me uma confusão enorme, sempre que vou aos bastidores, ver que as modelos da nova geração não convivem entre si. O próprio bastidor é um silêncio total. Não há aquela animação que havia antigamente, em que alguns faziam ginástica e falávamos muito. A parte da preparação era muito interessante. Agora, por outro lado, também vês uma maior variedade de pessoas e isso é muito bonito de ver.

Diria que é mais fácil entrar no meio atualmente do que era há 20 ou 30 anos?
Sem dúvida. Tens uma exposição maior nas redes sociais e há facilidade em comunicar uns com os outros. Tive que mandar uma carta, por correio, com as minhas fotos. Tinha de fotografar, revelar as fotografias, mandar por correio e esperar que chegasse. Hoje vais ao Instagram e consegues entrar em contacto direto e imediato com a agência.

Acredita que, se tivesse começado nos dias que correm, teria voltado a conseguir as oportunidades que teve?
Acredito, claro que sim. Não sei se ainda existe concurso, nem sei se seria da mesma maneira. Sou daquelas pessoas que, quando quer, luta. Vivo muito “go with the flow”[ir com o fluxo].

Consegue imaginar-se a voltar às passarelas?
De maneira nenhuma. O trabalho como apresentadora é muito mais recompensador, porque estou ligada a um meio que adoro, o desporto automóvel. O afastamento [das passarelas] foi acontecendo naturalmente.

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