As tesouras eram praticamente proibidas em casa de Dora Henriques. Em criança, bastava conseguir apanhar uma para levar as amigas para trás de um cortinado e começar a cortar-lhes as franjas. A brincadeira acabou por antecipar uma carreira que, duas décadas depois, transformou a cabeleireira das Caldas da Rainha num fenómeno nas redes sociais e numa das hairstylists escolhidas por algumas das influencers portuguesas mais conhecidas.
Hoje, aos 30 anos, Dora está à frente de um salão de dois pisos no centro das Caldas da Rainha, recebe entre 400 e 500 clientes por mês, lidera uma equipa de seis pessoas e prepara-se para contratar mais quatro colaboradores. Pelo caminho, trabalhou em Lisboa e Bruxelas, passou pelas semanas da moda de Paris e Milão, entrou para a equipa artística da L’Oréal e viu vários dos seus vídeos ultrapassarem as centenas de milhares de visualizações.
O percurso profissional começou aos 18 anos, quando deixou as Caldas da Rainha, em 2014, para estudar cabeleireiro na Academia Lúcia Piloto, em Lisboa. Depois da formação, ficou cerca de seis meses a trabalhar no salão da marca nas Amoreiras. No final, regressou à cidade natal, onde trabalhou durante pouco mais de um ano.
Em 2016, voltou a fazer as malas. Os pais já viviam na Bélgica e Dora mudou-se para o país, onde conseguiu trabalho num salão ligado às instituições europeias. Ficou por lá cerca de um ano e meio, até perceber que queria construir um projeto próprio.
“Eu sempre tive um perfil muito de liderança e era difícil trabalhar para outras pessoas. Vestia muito a camisola, mas sentia falta de liberdade criativa. Precisava de poder experimentar e tomar as minhas próprias decisões”, conta à NiT.
Em 2017, deu os primeiros passos num projeto próprio, inicialmente partilhado com uma sócia. Dois anos depois, em 2019, quando tinha 23 anos, nasceu verdadeiramente o Pink Room, num espaço na Praça da Fruta, uma das zonas mais emblemáticas das Caldas da Rainha.
Foi também nessa altura que Dora percebeu que existia uma ferramenta que ainda estava longe de ser explorada pela maioria dos cabeleireiros portugueses: as redes sociais. Começou a fotografar e a filmar os trabalhos e a publicá-los regularmente, criando uma montra digital que rapidamente trouxe novas clientes.
“Já tinha a minha carteira de clientes, mas comecei a ficar mais reconhecida quando passei a mostrar o trabalho nas redes sociais. Na altura ainda havia muito pouco conteúdo de cabeleireiros e acho que me destaquei porque comecei a fazê-lo mais cedo. A grande abertura do setor para as redes sociais aconteceu sobretudo depois da pandemia”, explica a empresária.
No início de 2020 surgiu outro passo importante. Dora foi convidada para integrar a equipa artística da L’Oréal, passando a participar em projetos educativos e artísticos e a dar formação, trabalho que mantém atualmente.
Pouco depois chegou a pandemia. O timing dificilmente poderia ter sido pior: o Pink Room ainda não tinha completado um ano e Dora viu-se obrigada a fechar temporariamente um negócio que acabara de criar.
“Foi muito difícil. Tinha aberto há pouquíssimo tempo, tive de fechar o salão e as contas continuavam a chegar. Era um projeto ainda muito recente.”
Das redes sociais ao boom de clientes
Sobreviveu ao período e, em 2022, o crescimento levou-a a mudar-se para um espaço maior, na chamada Rua das Montras, também nas Caldas da Rainha. Foi aí que a presença digital deixou definitivamente de servir apenas para mostrar cabelos.
Dora começou a publicar também posts com momentos do quotidiano, para mostrar mais da própria personalidade. Em 2023, vários vídeos tornaram-se virais no TikTok, alguns com cerca de meio milhão de visualizações. O impacto passou rapidamente do telemóvel para as cadeiras do salão.
“Foi aí que aconteceu o grande boom. Chegaram muitas mais clientes e a equipa também teve de crescer”, recorda.
Ao mesmo tempo, a hairstylist começou a trabalhar fora de Portugal, incluindo nas semanas da moda de Paris e Milão. A exposição internacional e o crescimento das redes sociais trouxeram-lhe também uma clientela cada vez mais conhecida.
Entre as clientes estão influencers como Catarina Filipe, Adri Silva, Helena Coelho e Maria Rodrigues. Dora, porém, diz que essas relações surgiram de forma mais orgânica do que propriamente através de uma estratégia para atrair figuras públicas. Catarina Filipe, por exemplo, também é das Caldas da Rainha.
“Algumas começaram por ser relações profissionais e acabaram por se transformar em amizades. A Catarina é das Caldas e, através dela e da convivência, fui conhecendo outras pessoas, como a Adri. Muitas vezes conhecemo-nos em aniversários, viagens ou outros momentos pessoais e só depois passaram a fazer parte também do meu núcleo profissional.”
Em 2023, com a agenda cada vez mais preenchida, começou novamente a procurar instalações maiores. A mudança aconteceu em 2024, quando abriu o atual Pink Room na Avenida 1.º de Maio, uma das principais artérias das Caldas da Rainha.
O salão ocupa dois pisos e mantém o rosa como imagem de marca. A decoração junta sofás, espelhos e apontamentos LED à zona de lavagem e tratamentos, espaços de beleza, cafetaria e uma área exterior de lounge. A ideia é que uma visita, sobretudo quando envolve trabalhos de coloração que podem prolongar-se durante várias horas, não seja passada apenas em frente do espelho.
Atualmente, passam pelo Pink Room cerca de 20 a 22 pessoas por dia. São aproximadamente 100 clientes por semana e entre 400 e 500 por mês. A equipa conta com seis profissionais, mas Dora quer acrescentar mais quatro durante o próximo ano.
A procura também se reflete na amplitude dos serviços. Lavar, cortar e secar custa a partir de 45€, enquanto os preços das colorações começam nos 60€. Os tratamentos estão disponíveis desde 25€ e o Head Spa a partir de 80€. Já os trabalhos de balayage começam nos 150€, podendo o preço final variar consoante o cabelo e o serviço realizado.
O preço do sucesso
O crescimento, porém, teve um preço que não aparece nas redes sociais. Dora reconhece que passou praticamente toda a década dos 20 anos concentrada no trabalho. Enquanto vários amigos tinham mais tempo para viajar, sair ou simplesmente aproveitar essa fase da vida, a hairstylist estava frequentemente dentro do salão.
“Investi muito tempo entre os 20 e os 30 anos e perdi alguns momentos que os meus amigos viveram porque estava sempre a trabalhar. Hoje, com 30 anos, gostava de conseguir colocar-me noutra posição dentro do salão.”
O problema é encontrar quem possa ocupar parte desse espaço. Dora diz que existe muita procura, mas continua a ser difícil contratar profissionais qualificados. E estar dez horas seguidas a atender clientes torna o dia a dia particularmente exigente.
“É muito cansativo e acaba por ser exaustivo. Como temos muita procura e é difícil encontrar profissionais nesta área, continuo muito ligada à operação diária do negócio.”
O salão funciona habitualmente das 10 às 19 horas, embora existam dias com horários diferentes. Às terças-feiras pode prolongar-se até às 21 horas e aos sábados a equipa começa às sete da manhã. Dora prefere precisamente as primeiras horas do dia. “Sou muito mais uma pessoa de manhã. Gosto mais de entrar às sete e conseguir sair durante a tarde.”
Apesar do sucesso, a empresária garante que nunca imaginou que aquilo que começou nas Caldas da Rainha pudesse atingir esta dimensão. Ao mesmo tempo, quando olha para os últimos 12 anos, acredita que o crescimento dificilmente poderia acontecer sem os sacrifícios que fez.
“Não estava nada à espera desta dimensão. Mas, quando penso em todo o tempo que investi e em tantos anos em que praticamente me anulei para trabalhar, também sinto que só podia dar certo. Houve muito esforço. Hoje sinto sobretudo gratidão.”
O crescimento não terminou. Em 2025, Dora lançou a Academy by Dora, projeto de formação para profissionais da área que já contou com aulas presenciais e que pretende desenvolver nos próximos anos.
Para isso, terá primeiro de cumprir outro objetivo: deixar de ser indispensável em todos os momentos do salão. A prioridade passa agora por consolidar a equipa, contratar mais profissionais e libertar tempo para outras áreas, nomeadamente a criação de conteúdos e a academia.
“Quero ter uma equipa coesa e conseguir dedicar-me mais à criação de conteúdos. Este último ano foi muito virado para a casa e para o trabalho de salão. Sei que existe uma área que ainda posso desenvolver bastante, mas neste momento não tenho tempo para isso. Também quero trabalhar mais na Dora Academy, mas tudo vai depender de conseguir deixar de estar tão no centro da operação.”
Carregue na galeria para ver algumas imagens da cabeleireira e do Pink Room.








