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Este “Macho Men” das agulhas quer pôr todos os homens a tricotar

Frederico Cardoso usa o tricô para combater a ansiedade e quebrar tabus. O seu trabalho já chegou a bibliotecas, escolas e às ruas.
Frederico anda sempre com as agulhas atrás.

Quando Frederico Edvardsen Cardoso, de 49 anos, começou a tricotar em público, as reações foram mistas. Ainda se recorda de estar numa padaria, em Alvalade, e ver o senhor ao seu lado a mudar-se para a esplanada, num dia de chuva, quando o viu tirar o material de costura. “Deve ter achado as agulhas muito grandes”, brinca.

Nas redes sociais, é conhecido como o Macho Men das agulhas. Filho de pai português e mãe norueguesa, Frederico fez da sua missão incentivar os homens da sua geração a manusear as linhas — os que não o fazem ou os que o fazem às escondidas. E a mensagem tem sido ouvida.

Tudo começou com a vontade de fazer gorros para os quatro filhos, antes de uma viagem para a neve, há cerca de uma década. Queria que as peças fossem inspiradas no estilo nórdico, mas não tinha tias ou avós por perto que pudessem criar os acessórios.

“Na mesma altura, conheci um surfista alemão na praia [do Amado] que fazia tricô com agulhas enormes”, recorda à NiT o diretor financeiro de uma imobiliária. Nesse dia, deixou a longboard de lado e passou a tarde a tentar não perder o fio à meada.

Até então, nunca tinha pegado em agulhas para tricotar. Valeram-lhe as experiências como velejador federado, durante cerca de 10 anos, e como escuteiro, onde aprendeu a fazer nós. Contudo, viria a perceber que era uma tarefa bem mais árdua do que esperava.

Frederico demorou dois anos a concluir os gorros, após muitas horas a ver vídeos no YouTube, a entrar em grupos nas redes sociais ou a participar em encontros com especialistas nesta arte. Em pouco tempo, já fazia outras peças, como camisolas.

“Houve bastante desconforto da minha parte para partilhar este gosto em público”, confessa, reforçando que é um hobby associado à homossexualidade. No entanto, explica, os homens sempre fizeram tricô: dos mineiros das Minas de S. Domingos, em Mértola, aos pescadores da Nazaré e do Algarve, que faziam os seus próprios gorros e cachecóis.

Decidiu brincar com o preconceito e, em 2014, criou a página Knitted by Macho Men. O objetivo de Frederico era mostrar que o homem “pode beber a cerveja e levantar o comando”, mas também tem o direito de tricotar, por mais que o hobby ainda esteja “associado às avozinhas”.

“Uma vez, recebi um email de um norte-americano que pediu para trocar o nome porque, nos EUA, a palavra ‘macho’ tem outra conotação. É um homem violento, que menospreza as mulheres”, diz. “Expliquei-lhe que no sul da Europa, nomeadamente em Portugal, também é usada de forma irónica.”

Uma arma contra a ansiedade

Quando começou a partilhar o seu trabalho — não só peças de roupa e acessórios, mas também quadros e esculturas — começou a ganhar mais mediatismo e a normalizar o hobby. Se, no início, a esposa, os pais e os sogros não gostavam que Frederico se dedicasse ao tricô, atualmente são todos fãs e são eles que lhe apresentam as novas tendências.

Há 15 anos, o Macho Men começou a sofrer ansiedades de ansiedade e pânico. Notou melhorias quando começou a pegar nas agulhas, a dispersar a mente para a malha e a tirar o foco da falta de respiração ou no aceleramento do batimento cardíaco. Tornaram-se uma forma de terapia.

“Há ferramentas ancestrais, como dois paus e um fio, que têm resultados positivos. Tenho pena que não se invista mais nisso”, afirma. “Considero-me uma pessoa cheia de sorte por descobrir isto de forma espontânea. Achei que era só um hobby e já não consigo viver sem isto.”

O tempo que leva a terminar uma peça varia consoante o tamanho das agulhas. Já consegue fazer um gorro em menos de três horas, porém, também pode levar até 15 dias quando cria um desenho mais elaborado e com agulhas mais finas. É sempre muito subjetivo, segundo o próprio.

Em 2018, tricotou um casaco para a cantora Blaya com agulhas de 25 milímetros, que o contactou através das redes sociais. Conseguiu fazê-lo numa tarde e a resposta da artista, e dos seguidores da antiga bailarina dos Buraka Som Sistema, não podia ter sido mais positiva.

Entre as peças que recorda com carinho, está um candeeiro branco que se torna verde-fluorescente devido a um refletor. “É importante explicar às pessoas que estes materiais foram mudando com os anos e há novas formas de os usar”, explica.

Frederico tentou, por várias vezes, ser um pioneiro. Em 2019, tornou-se o primeiro homem do mundo a fazer uma malha num paraquedas. No entanto, não entrou para o livro do Guinness porque ficaram a faltar as medidas que a coleção dos recordes exige. E quer voltar a repetir a proeza.

“Saltar de paraquedas é outra coisa que ajudava muito com a ansiedade. Existe um médico brasileiro que também o faz e inspirou-me”, diz. “Já tinha saltado na Austrália e gostei, então experimentei em Portugal com o intuito de divulgar o meu trabalho.”

Numa viagem de seis meses na Oceânia, subiu com os fios e as agulhas até um glaciar do Monte Cook, na Nova Zelândia. “Acredito ter sido o primeiro homem a tricotar num helicóptero e num glaciar”, afirma.

Durante a aventura, o artista perdeu uma das agulhas que levava consigo. Uma senhora viria a descobrir a pequena haste metálica no meio da neve e ligou para a central que o encontrou num parque de autocaranavas. A desconhecia acabou por dá-la ao piloto, que voltou ao mesmo sítio onde estiveram para devolver o instrumento minúsculo.

Preocupado em passar este legado a novas gerações, o Macho Men também organiza workshops a pedido dos seguidores. “As pessoas acham piada, mas querem que tudo seja rápido. Ainda não perceberam o benefício de fazer a malha”, sublinha. É isso que o move: chegar a um público alargado e, muitas vezes, inesperado.

Pelo meio, também já faz várias instalações na qual mistura técnicas. Há uma mostra de quadros com meias feitas por Frederico, recentemente exposta na Biblioteca dos Coruchéus, em Lisboa, mas também instalações de rua, em creches e em escolas.

“Gostava de experimentar arte de rua. Como já vemos tantos graffitis em bairros sociais, acredito que esta convivência era boa nestas áreas consideradas problemáticas”, conclui. “É algo semelhante, mas usa-se as malhas em vez da tinta. Só falta Portugal ter mais sensibilidade para este tipo de arte.”

Uma das peças que está à venda.

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