Moda

Figurinista de “Bem Bom” preparou o guarda-roupa da série em apenas um mês

Rita Lameiras contou à NiT como encontrou várias peças em lojas vintage e até mesmo em marcas de fast fashion, como a Zara.
Carmo Boucinha criou os icónicos fatos de espetáculo.

Lantejoulas, rendas, correntes, mangas abaloadas, padrões de tigresa, volumes exagerados. A girls band portuguesa mais icónica de sempre ficou gravada no imaginário nacional com as cores vibrantes dos anos 80. Fátima Padinha, Lena Coelho, Teresa Miguel e Laura Diogo, as artistas que compunham as Doce, desafiaram os padrões de um País conservador com um guarda-roupa provocador, muito à frente do seu tempo, e que chocou os espectadores mais conservadores.

Este tema foi central na produção de “Bem Bom”, o filme realizado por Patrícia Sequeira que, depois de vários atrasos devidos à pandemia, estreou nas salas de cinema portuguesas a 8 de julho deste ano. No entanto, as histórias de vida e da carreira das Doce mereceram uma atenção redobrada e tiveram direito a uma nova versão, desta vez na televisão. O formato de ficção biográfica estreou a 2 de outubro e conta com oito episódios, que são transmitidos todos os sábados às 21 horas na RTP — e que também podem ser acompanhados na plataforma RTP Play.

Para preparar o guarda-roupa desta mega produção, a figurinista Rita Lameiras, de 48 anos, mergulhou em tudo o que encontrou na Internet sobre a icónica girls band dos anos 80. “Infelizmente há pouca coisa, a nível de imagens e de documentação. Mas tudo o que havia foi devorado”, começa por contar à NiT.

“A ideia desta série/filme era ter uma imagem intemporal no mundo da moda, não ser uma coisa recuada à época”, acrescenta. Para criar os looks casuais das quatro atrizes principais —Bárbara BrancoLia CarvalhoCarolina Carvalho e Ana Marta Ferreira — baseou-se em muitos dados da vida real. Sabe-se que Laura, por exemplo, usava muitas peças com pêlo; já Teresa era fã de cabedais. O resultado final acabou por ser uma mistura da sua imaginação com a realidade.

As peças de vestuário vieram um pouco de toda a parte. Algumas delas foram alugadas em Espanha, na Peris Costumes, mas a equipa também visitou lojas vintage, como A Outra Face da Lua, e encontrou vários achados na Feira da Ladra. “Comprávamos uma peça aqui e outra ali, um bocadinho em todo o lado”, lembra.

“O curioso é que há muita coisa que é antiga, tem 40 anos, mas está super atual. A moda tem essa característica, é tudo por ciclos e, o que está hoje muito na moda, amanhã passa, mas depois volta”, afirma. Este revivalismo que está atualmente tão presente nas lojas de fast fashion acabou por se revelar um plus para a equipa: marcas como a Zara e a Pull&Bear serviram para comprar alguns tops.

No terceiro episódio da série, Lena — personagem interpretada por Carolina Carvalho veste um blusão oversized de franjas cheio de movimento, quando é rodeada por uma multidão. “É de uma das últimas coleções da Levi’s”, conta Rita. “Deve ter um ano e meio.”

Ainda que não faltassem recursos para os roupas casuais, a história é completamente diferente quando falamos dos figurinos de espetáculo. Das criações originais, icónicas, usadas pelas verdadeiras Doce, a figurinista conta que não existe qualquer vestígio. “Tenho muita pena de não os ter visto ao vivo, já não existem. Os dos mosqueteiros acho que foram transformados noutra coisa — não consegui ver nenhum. Devem ter ficado com as próprias e foi-se perdendo o rasto”, lamenta.

rita lameiras
Muitas das peças usadas pelas atrizes são vintage.

Rita teve apenas um mês e meio para criar todo o guarda-roupa recorrendo à Internet e aos documentos reunidos pela equipa de argumentistas — muitos deles estão acessíveis a qualquer cidadão comum. Com pouca informação disponível, contou com o trabalho da costureira Carmo Boucinha para fazer praticamente tudo de raiz.

A réplica das luvas dos famosos fatos de mosqueteiro, que a girls band usou para contar “Bem Bom” no Festival da Canção de 1982, foram confecionadas na Luvaria Ulisses, a mesma casa que produziu as originais. Outros acessórios, como os chapéus e as botas, ficaram a cargo de artesãos locais. Já os fatos faraónicos usados em “Ali Bábá” foram feitos pelo atelier Miss Suzie.

“Eram uns fatos em que elas tinham de dançar e de cantar, com franjas. Ela costurou aquilo à mão impecavelmente e também fez outra coisa incrível, que só aparece na série, que são os fatos dos travestis para as atuações tanto os vestidos como os volumes que têm por baixo”, conta Rita. Tudo o resto, reforça, tomou forma nas mãos da modista Carmo.

Um dos elementos mais interessantes na relação das personagens com o guarda-roupa, e que está presente nas produções da Santa Rita Filmes, são as peripécias que as artistas viveram dentro e fora do palco. “Existem muitas dessas histórias, como o fato da Fá, o de tigresa, não fechar. Isso foi contado nos relatos a que a autoria teve acesso.”

O fato associado à canção “Ali Bábá”, totalmente confecionado a partir de correntes metálicas, foi usado na atuação do Festival da Canção de 1981. Antes de subirem ao palco, uma das correntes que sustentava o figurino de Lena partiu-se, uma cena que foi recriada no filme. “A réplica foi feita com correntes leves, mas acho que os originais eram mesmo pesados e aquilo rompeu-se”, conta-nos a criadora.

Como começou Rita Lameiras?

A figurinista sempre teve um fascínio pela moda. Acabou por ir parar ao figurinismo, em 1996, depois de terminar o curso de design de moda no IADE, em Lisboa. Ao longo da carreira, já passou por produtoras como a SP Televisão, com a qual ainda colabora atualmente.

“Médico de Família”, “A Ferreirinha”, “Equador”, “João Semana”, “Espelho de Água”, “Conde de Abrantes”, “Nazaré” e, mais recentemente, “Amor Amor”, são algumas das produções nacionais que tem no currículo. Neste momento, está a gravar a nova temporada desta última.

Com a Santa Rita Filmes, teve a oportunidade de trabalhar em alguns projetos da Opto, além, claro, do filme “Bem Bom” e da série “Doce” projetos para os quais criou não apenas os figurinos das artistas principais mas os de todas as personagens de ambos os formatos.

Para que um desafio desta dimensão se tornasse possível, teve ao seu lado uma equipa que, com ela, é composta por quatro mulheres poderosas, tal como na história: Jandira Crespo, Cátia Campos e Cristina Soares. Acompanham-na há vários anos e ajudaram com tudo: vão buscar tecidos a fornecedores, conduzem a carrinha e também estiveram presentes no plateau durante as gravações.

“O melhor foi reproduzir os figurinos de palco. Adoro os fatos do cartaz, em rosa e azul, super alegres. Foi um trabalho incrível que me deu um gozo especial fazer. Também já conhecia as quatro atrizes e foram muito bem escolhidas para os papéis. Ccorreu lindamente”, considera.

Os fatos de espetáculo criados por Rita Lameiras estão no Santa Rita Filmes e é por lá que vão ficar. “Fazem parte do espólio da casa”, revela a figurinista. Carregue na galeria para ver algumas peças criadas para a ficção biográfica.

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