Moda

Filipe Augusto: o rapaz sonhador que entusiasma os maiores estilistas

O finalista do projeto New Talent esteve quase a ser arquiteto, mas encontrou no Design de Moda a sua verdadeira paixão.
Quando foi o vencedor do Sangue Novo.

Quando naquele dia o professor de História de Arte, Pedro Babo, lhe disse que tinha muito jeito para moda, Filipe Augusto não quis acreditar. Sentia-se um simples aluno do 11.º ano da Escola de Araújo Correia, em Peso da Régua, que sonhava, ainda que há pouco tempo, em ser arquiteto.

“Foi muito estranho. Tinham-me pedido para fazer um trabalho sobre vestuário de época e limitei-me a cumprir. Aliás, estava no curso de Artes Visuais porque gostava muito de desenhar, mas não tinha experiência nenhuma com roupa”, conta aquele que é um dos dez finalistas do projeto New Talent — que resulta de uma parceria entre a NiT, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a TVI e que pretende encontrar o maior jovem talento português.

Em momento algum da sua vida, durante aqueles 16 anos, o jovem tinha pensado seguir algo relacionado com esta indústria. Filho de um construtor civil, José Augusto, e de Maria Silva (que trabalha num projeto da Segurança Social que acolhe idosos com necessidades a nível de saúde), Filipe passou toda a infância na aldeia de Canelas.

“Os meus dias eram ocupados a jogar à bola ou às escondidas, aquelas brincadeiras tradicionais. Confesso que quando me faziam a típica pergunta de ‘o que é que queria ser quando fosse grande?’ nem respondia.”

Por tudo isto, quando o tal professor fez a observação, o jovem de 26 anos discordou. Ainda assim, após terminar o secundário decidiu parar um ano porque não se sentia preparado para entrar na faculdade.

Filipe Augusto
A coleção “7 Saias”.

“Foi nessa altura que me lembrei da conversa e comecei a pensar em investir na moda. Não queria mesmo tirar um curso superior porque não gostava desse registo. Preferia algo mais prático.”

Sem conhecimentos na área, Filipe foi falar com uns amigos de Peso da Régua e pediu-lhes sugestões. Foram eles que lhe falaram da Modatex, o Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confecção e Lanifícios do Porto.

“Disseram-me que era o melhor. Entrei em contacto com a escola e fiz um portfólio, literalmente, num dia. Desenhei dez looks de vestuário para mulher a aguarelas. Entreguei-o em setembro de 2013, fui a uma entrevista em novembro e um mês depois soube que tinha entrado no curso de Design de Moda.

Não houve muito tempo para pensar. Filipe entrou na Modatex em janeiro de 2014 e teve a oportunidade de ter aulas com nomes sonantes das indústrias de moda e têxtil em Portugal, como Luís Buchinho, Carla Pontes, Katty Xiomara, Hugo Costa e Susana Bettencourt.

“No início estava super assustado e demorei cerca de dois meses a integrar-me. Depois aconteceu tudo naturalmente porque eu adorava a parte de criar e manipular materiais. A partir do momento que começaram a surgir os trabalhos manuais despertou todo o meu interesse”, conta à NiT.

O curso foi feito em três anos e acabou com Filipe a apresentar uma coleção final na Bloom, a plataforma de jovens criadores do Portugal Fashion, no Porto. Depois disso, estagiou durante seis meses no atelier de Luís Buchinho onde fez modelação e confeção de protótipos de várias peças de outono/inverno.

Quando terminou o estágio, esteve algum tempo à procura de emprego. “O meu amigo Miguel Flor falou-me do Sangue Novo, a iniciativa da Modalisboa, em Lisboa, que mostra as coleções de criadores emergentes, e decidi concorrer.”

Nessa edição, em outubro de 2017, o jovem apresentou a linha “7 Saias”, que acabou por receber uma menção honrosa do júri e o acesso direto ao desfile da edição seguinte. “O meu mood é muito desligado, por isso achei que não ia ser chamado. Depois de ouvir o meu nome tiveram de me dizer para entrar na passerelle, que tinha de ir lá”, diz a rir. 

Os meses seguintes foram passados a preparar a coleção de março de 2018, edição da ModaLisboa em que Filipe foi o grande vencedor do Sangue Novo. Ao contrário do que aconteceu com “7 Saias” — foram os pais que pagaram 900€ em material e ele fez toda a confeção —, desta vez o jovem conseguiu assegurar os custos da coleção com os 2500€ que entretanto recebeu em dezembro de 2017, quando foi distinguido com o prémio de Melhor Coleção Portuguesa da ModaPortugal.

A coleção vencedora do Sangue Novo.

Certo dia, e após Filipe Augusto também ter conquistado o prémio FashionClash Festival, em Maastricht, na Holanda, em junho de 2018, o criador recebeu um convite para ser formador da Modatex, a escola onde aprendeu a manusear as tesouras e a respirar moda.

Hoje em dia, é lá que trabalha — dá aulas de styling, modelação e desenvolvimento de coleção feminina. Está também a preparar uma coleção que pretende apresentar na edição de março de 2020 na ModaLisboa.

Quando recebeu a confirmação de que era um dos finalistas do New Talent, ele nem queria acreditar. “Não estava nada à espera e fiquei super entusiasmado. Ter sido seleccionado deixou-me muito contente.”

Feliz e cheio de sonhos. “Se ganhar os 10 mil euros, o melhor que posso fazer com o dinheiro é investir na minha marca. Quero progredir e torná-la rentável”.

Nesta fase de mudança, Filipe Augusto conta com o apoio dos pais, que sempre “tiveram imenso orgulho” e acreditaram no seu trabalho, mas também de outra pessoa especial: a Ana Paula Fidalgo, de 51 anos.

“Ela é uma das pessoas que a minha mãe acolheu há 12 anos e a única que vive lá em casa neste momento. Teve uma meningite que lhe afetou a parte mental e vive no universo dela. Sabe quem nós somos, mas não sabe o nosso nome. Vive, infelizmente, parada no tempo e à sua maneira dá-me força para seguir o meu caminho e lutar pelos meus objetivos. Faz parte da família e será sempre um exemplo de vida para mim”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm
Novos talentos

AGENDA NiT