Moda

A história de Coco Chanel e das perigosas (e quase desconhecidas) ligações aos nazis

Durante anos, a relação íntima da estilista francesa com os oficiais nazis ficou em segredo.
Uma mancha na história da marca

Mais de 130 anos depois de ter nascido e mais de cinco décadas após a sua morte, a criadora da Chanel, Gabrielle (ou Coco, para os amigos), tem direito a um espaço no mais recente especial de comédia de Bill Burr. Porquê?

No seu último set, gravado ao vivo e disponível na Netflix, o comediante americano embala para um segmento apenas sobre a “geração woke” e os supostos cancelamentos de figuras públicas. O que mais o choca: pessoas ofendidas com ações de famosos que já morreram.

Do exemplo de John Wayne, salta para uma conclusão. “Porque é que só vão atrás dos homens? O que aconteceu a todas as mulheres horríveis da nossa história? Não podem só atacar os homens, isso seria sexista”, nota. “E a Coco Chanel?”, questiona.

“Considerada por quase todos um ícone feminista, começou a sua marca nos anos 20. Não consigo imaginar o sexismo que teve que enfrentar. Um feito incrível”, explica. “No entanto, ela também era simpatizante do regime nazi.”

Se o legado de Wayne podia sofrer consequências por declarações racistas com décadas de existência, se Sean Connery sofreria o mesmo por declarações misóginas feitas nos anos 80, porque é que Chanel e a sua marca continuariam impunes? Essa foi a lógica estabelecida por Burr. “É mais de metade da sua página da Wikipedia. Está ali, escarrapachado para quem quiser ler. À espera. E nada”, sublinhou.

A suspeita relação íntima da criadora da Chanel com oficiais nazis é debatida há muitos anos, mas, em 2011, Hal Vaughan publicou uma biografia reveladora. O trabalho de pesquisa foi feito com base em documentos recém-desclassificados, que demonstrava que Chanel teria mesmo colaborado com os serviços de inteligência do regime de Hitler.

Por altura da invasão alemã de França, Chanel era já uma figura influente dentro da alta sociedade parisiense e britânica. Começara como costureira e rapidamente se popularizou. O seu talento levou-a a criar a própria casa de costura, uma marca cobiçada. Para isso muito contribuiu a temporada em que viveu no Reino Unido, onde cruzou caminhos com aristocratas e políticos. Travou amizade com o futuro primeiro-ministro Winston Churchill e teve uma relação amorosa com Edward, então príncipe de Gales, que abdicaria do trono, mas que viria a ser acusado de também ele ser um simpatizante nazi.

Chanel ao lado de Churchill

Vaughn revela também o lado antissemita, explicado na biografia pela sua educação marcadamente católica. Filha de pais pobres, foi entregue a um orfanato religioso, onde recebeu uma educação rígida e, à época, notoriamente antissemita. “A Chanel nunca conseguiria ter escapado à propaganda católica”, explica. Um sentimento provocado por um escândalo que ocorrera em 1984. “O seu medo e ódio pelos judeus era venenoso e bastante evidente”, notou o biógrafo.

A invasão francesa virou a sua vida do avesso. A tomada de Paris obrigou-a a fechar as suas lojas e a fugir da cidade, para junto de familiares. Foi lá que descobriu que o seu sobrinho, militar francês, teria sido capturado pelos alemães. Regressou para obter informações junto dos seus conhecimentos.

Chanel acabaria por conhecer vários oficiais alemães, entre eles o Barão Hans Gunther von Dincklage, um espião da Gestapo e um dos cabecilhas da contra-inteligência nazi. Morava no Ritz, hotel que acolheu grande parte dos oficiais nazis.

Segundo Vaughn, Chanel tirou partido do contexto. O encerramento das lojas e crise provocada pela guerra foi usada como retaliação contra os trabalhadores das suas fábricas. E as suas opiniões antissemitas tornaram-na popular entre os círculos da elite, mas sobretudo entre os nazis. A relação com Dincklage abriu a porta de acesso e contacto com os decisores alemães.

Do lado do invasor, a relação próxima com Chanel era também vista como uma oportunidade. Daí que tenham feito um trato com a designer: ajudariam à libertação do seu sobrinho em troca de acesso direto aos seus poderosos amigos britânicos.

Segundo a biografia, foi desenhada uma missão secreta: Chanel deveria encontrar-se com outro alto cargo alemão em território neutro, de onde depois seguiria para Inglaterra, “onde poderia dar aos seus amigos importantes informações económicas e políticas”. Em contrapartida, o seu sobrinho seria libertado.

Foi isso que aconteceu, embora não se saiba se Chanel chegou mesmo a cumprir a sua parte do acordo. Dado o cumprimento alemão, tudo indica que sim.

Vaughn recorda também a época em que a maré virou e os alemães foram forçados a abandonar França. Nas ruas, franceses que colaboraram com nazis eram exibidos em paradas, o cabelo era rapado e eram humilhados nas ruas. Com medo, Chanel procurou tirar partido da sua amizade com Churchill, então primeiro-ministro, com quem tentou estabelecer uma ligação com Dincklage.

O objetivo passava por convencer os nazis que ela e Dincklage teriam acesso exclusivo aos aliados, que poderia ajudar a estabelecer um acordo de paz diretamente com os britânicos. Para o fazer, Chanel pretendia fazer uso da sua amizade com Vera Bate, conhecida socialite britânica.

O plano correu mal. Bate foi apanhada em Madrid e confessou estar a trabalhar como uma agente alemã, ao mesmo tempo que denunciou Chanel como uma das informadoras. A francesa acabaria por ser detida pelas autoridades francesas imediatamente após a libertação em 1944.

Segundo várias teorias, a libertação rápida de Chanel terá acontecido apenas graças à intervenção direta de Churchill junto do governo francês. Mas, de acordo com Vaughn, não existem provas de que tal tenha acontecido.

“Em 1949, poucos oficiais tinham qualquer interesse em investigar o caso sobre uma possível traição de Chanel à pátria. Os detalhes da sua colaboração com os nazis ficou escondida durante anos nos arquivos franceses, alemães, italianos, soviéticos e americanos.”

Depois de uma temporada na Suíça, voltou ao Ritz e à sua Paris e retomou o trabalho rumo à transformação da Chanel numa das mais famosas marcas mundiais. A sua ligação aos nazis nunca mais foi abordada, à exceção dos últimos anos.

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